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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ANÁLISE: DREAM DYNAMITE 2010 - Overeem VS Duffee


Milênios atrás os japoneses misturaram peixe cru com arroz e deu certo, mas achar que misturar regras e lutadores de eventos diferentes pode salva-los da falência anunciada, é “coisa de japonês”. O maior evento asiático do ano é confuso até no nome. Seria DREAM-Dynamite, K-1-Dynamite, FEG Dynamite, DREAM K-1-Dynamite ou apenas Dynamite? Nem os maiores sites de MMA do mundo chegam a um consenso e isso é reflexo de todo o conceito por trás dessa madrugada de lutas. Um evento enorme, arrastado, com casamento de lutas desnecessárias e 4 variações diferentes de regras. Lutas nas regras do K-1, lutas nas regras do DREAM, luta sem luvas não valendo socos no rosto e luta com um round nas regras do K-1 e outro do DREAM. Aqui seria uma sopa de entulho, lá, podemos chamar de sopa de tofu.

Um card com muitos bons lutadores e lutas por cinturão, arruinado por uma decisão desesperada por parte de seus organizadores. Se a história e o destino estavam esperando um péssimo evento para selar a falência dessas grandes organizações, pode ter sido esse. O DREAM de fim de ano foi um desastre.

Alistar Overeem VS Todd Duffee

Overeem mostrou que quando casam um lutador que sabe bater contra um que não sabe apanhar, o resultado é nocaute em menos de 20 segundos.

Overeem é um dos melhores lutadores de MMA do planeta, só Dana White não acha. E vai continuar não achando até conseguir contratá-lo para o UFC, aí começará a dizer que ele é TOP 10. Muitos dizem que o holandês toma anabolizantes, mas ele passou no antidoping olímpico para a luta contra Rogers no Strikeforce, outros dizem que ele só sabe bater, mas das suas 34 vitórias 19 foram por finalização, alguns ainda dizem que ele tem queixo de vidro, mas é o atual campeão do Grand Prix do K-1. O certo é que Overeem é um espécime que poderia ser saído do mesmo tubo de ensaio de onde um dia saiu Mark Kerr. Um lutador enorme, agressivo e decisivo. Um dos maiores da atualidade em peso e em violência. Uma luta dele contra Junior Cigano seria dinamite. Mas dinamite com pólvora seca para explodir, e não esse Dynamite de fim de ano que só faz puft!

Todd Duffee se divide entre ser lutador de MMA, estudante de direito, modelo fotográfico e garoto propaganda de uma revista de musculação. Como ele não é Georges St. Pierre, acaba meio confuso entre as atividades e não tem performance satisfatória em nenhuma, ou, pelo menos, não na que nos interessa. Nos ringues e octagons de MMA.

Sua vitória por espancamento sobre Assuério Silva no Jungle Fight 11 mostrou um atleta jovem, poderoso, com muitos buracos técnicos, mas que tinha tudo para se tornar um expoente no esporte. Dois anos depois ele continua com as mesmas qualidades e os mesmos defeitos, que um nível mais alto de competição não perdoa. Duffee vem com um botão de “snooze” no queixo. Parece que é só apertar que ele dorme mais 5 minutinhos. Perdeu por nocaute, o segundo seguido, e não pareceu muito abalado. Ele e fãs vão dizer que aceitou a luta em cima da hora e essas coisas, que são verdade, mas um lutador profissional que luta com a desculpa para a derrota na ponta da língua tende a acabar dormindo, debruçado sobre as cordas, com o nariz apontando para o chão.

Hiroyuki Takaya VS Bibiano Fernandes


Os comentaristas devem ter saído com a garganta arranhada de tanto que gritaram para tentar nos convencer que a luta pelo cinturão do peso pena do DREAM estava sendo emocionante. Numa luta sem shoyo, sem socos certeiros, chutes ou qualquer coisa que faça uma luta ser motivante, Bibiano perdeu na decisão para Takaya. Fosse essa luta nas regras do UFC, eu teria dado a vitória para o brasileiro que venceu os dois primeiros rounds, ou um empate, já que o segundo foi bem equivalente. Mas a luta não foi na América e o domínio no último round rendeu os louros ao japonês.

Marius Zaromskis VS Kasushi Sakuraba

Sakuraba já teve o osso do malar afundado, o orbital fissurado, ligamentos do ombro rompidos, várias lesões nos joelhos, fissuras na face e, nessa luta, quase ficou sem orelha. Um dos maiores lutadores de todos os tempos vai se desmantelando e deixando cada vez um pedaço diferente pelo chão, junto aos fragmentos do coração partido dos fãs mais antigos que já o viram até voar.

Sakuraba perde por interrupção médica quando sua orelha parecia prestes a se separar do corpo.

Zaromskis ainda vive da glória dos 3 incríveis nocautes seguidos que conseguiu em 2009 com chutes na cabeça no GP do DREAM para conquistar o cinturão do meio médio. Sua fama meteórica o levou a uma temporada fracassada nos Estados Unidos e retorna vencendo Sakuraba pela defesa de seu título justamente conquistado. Zaromskis sabe dar bons chutes altos e nada mais. Vai se manter campeão do peso no Japão enquanto a organização quiser vê-lo contra atletas asiáticos, independente de qualidade, ao invés de prová-lo contra competidores de melhor nível.

Sergei Kharitonov Vs Tatsuya Mizuno

Mesmo quem está de dieta, pode comer palmito. Não faz mal, não engorda, tem quase zero de carboidrato e etc. Quando os japoneses querem que determinado lutador saia do ringue com vitória certa é só colocá-lo contra Tatsuya Mizuno. Fora Manhoef, que ele venceu num dos resultados mais surpreendentes do século em qualquer esporte de combate, Mizuno fez 5 lutas contra lutadores mais renomados e perdeu as 5 antes do fim do segundo round. Um lutador tecnicamente medíocre que só ganha a vida nesse esporte por ser japonês.

Kharitonov fez sua segunda luta em dois anos. Uma derrota em 2009 e essa vitória em 2010. Só. Porque ele está tão fora circuito super aquecido do MMA é digno de estudos. Talvez o baixo custo de vida do país onde more não faça necessário mais do que isso para viver bem. Quem sabe? Dizer que ele faria frente aos melhores do peso lutando como luta agora, é uma inverdade saudosista. Mas que ele, em forma, seria uma excelente adição a qualquer card, isso é verdade.

Shinya Aoki Vs Yuichiro Nagashima

Eu tinha dado o prêmio de momento mais ridículo do MMA no ano de 2010 para a derrota de Duffe no UFC 114 e para a derrota de Marcus Aurélio para Aoki no Dream 16. Era um empate técnico. O primeiro, um gigante de 120 kilos espancar seu adversário por 3 rounds e acabar sendo nocauteado com um peteleco de raspão, o segundo, um faixa preta de jiu-jitsu ser dominado e colado ao chão por 20 minutos sem esboçar nenhuma reação fora tentar defender o rosto. Mas a derrota de Aoki nesse DREAM arrancou nos segundos finais e pegou para si o prêmio.

Clovis Bornay era Hours concours nos concursos de desfile de fantasias no Rio de Janeiro. Como ninguém conseguia vencê-lo lhe concederam essa honra, o consagraram como imbatível na categoria para outros poderem ter chance também. Por mais que ele continuasse desfilando, ele não competia mais. Essa derrota por nocaute de Aoki recebe a mesma honra. Nada na história do MMA, nenhum nocaute em um segundo, nenhuma fuga pelas cordas vai superar essa infâmia.

O primeiro round da luta era nas regras do K-1, aonde Nagashima é campeão. Aoki rodou, correu, pulou com os pés no peito, subiu nas cordas e fez tudo o que achava divertido na tentativa de humilhar seu adversário e desrespeitar uma outra forma de competição. Contou piada para ele mesmo rir, fez papel de moleque e tirou para bobalhões os milhares de fãs que estavam ali para ver um combate entre dois homens.

No segundo round, nas regras do MMA, Aoki partiu para definir. Já tinha mostrado que esse esporte chamado K1 aonde só vale soco e chute não é de nada mesmo, e entrou de modo amador nas pernas de Nagashima. Tão amador que levou uma joelhada no rosto e caiu dormindo, ridículo e desmoralizado em 4 segundos.

Nagashima vence nas regras do MMA um dos melhores lutadores do peso no mundo. E Aoki mostra que para ser um dos grandes é preciso ter um grande coração, ser homem de dentro pra fora, e apesar de ser um lutador fantástico, isso ele não é.

Último round:

Esse foi um evento de K-1, MMA, os dois ou nenhum? MMA precisa de seriedade para se firmar definitivamente. È um esporte que não para de crescer, mas ainda está na festa dos granfinos sob olhares desconfiados. É super violento, ultra explosivo, cheio de marketing e mídia poderosas, sem seriedade para juntar tudo num pacote profissional, se torna um circo.

Para mim, o ano acabou de modo glorioso no chute de Pettis.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ANÁLISE: WEC 53 - Pettis VS Henderson


Quando começava a tocar a música Illuminati do Fatboy Slim a nossa pressão aumentava junto com a velocidade acelerada dos BPMs. O sangue fluía junto com a sensação de que uma noite incrível de lutas estava para começar e nunca, nunca houve decepção. Mesmo quando um WEC era fraco, estava entre os 10 melhores eventos do ano. WEC chega ao fim de modo explosivo pelo peito do pé de Pettis, e garante seu lugar no hall dos grandes que já se foram, junto a Pride, IVC e Meca.

O site Sherdog publicou seu bem conceituado ranking e nenhum lutador do WEC está entre os 10 melhores. Sherk e Dunham estão na lista, mas Ben Henderson, Anthony Pettis e Donald Cerrone nem aparecem. Um erro tendencioso que será corrigido sem piedade por esses que são 3 dos melhores lutadores leves do planeta.

O UFC é inquestionavelmente o maior evento do mundo e a fusão com o WEC funcionará como uma hemodiálise. O evento que já era o melhor, agora também fica mais veloz.

Anthony Pettis VS Ben Henderson

A melhor luta do ano foi uma colisão entre dois dos lutadores mais incansáveis do MMA. Mais do que uma batalha física foi um choque de egos, de sonhos. Faltando 1 minuto para o fim do último round era difícil apontar um vencedor, na minha contagem estava dois rounds para cada um e o quinto estava, até então empatado. Os dois já tinham tomado prejuízo em pé, quase sido finalizados, sofrido reversões, achado que a luta estava mais para o outro e agora mais para si. Era o mar se chocando contra a montanha, o sol parado no horizonte. Não havia vencedor claro e, poeticamente, nem precisava. Até que, um minuto para o fim da luta Anthony Pettis manufatura um dos movimentos mais emblemáticos da história do esporte. Toma impulso e com o mesmo pé que serve de apoio para quicar na grade chuta o rosto de Ben, que cai e se esparrama pelo chão. Em segundos esse movimento foi um dos 4 mais tuitados no planeta e apareceu em mais sites que a coletiva de imprensa do UFC no Rio. Faltando 1 minuto para acabar a luta, Pettis mostrou que tem coisa que só acontece em MMA.

Numa luta tão parelha que poderia ser descrita somente em movimentos, sem nem citar nomes de atletas, o pé de Pettis resolveu a questão. Rasgou a poesia toda, foi um tufão que transforma o mar em tsunami e submerge a montanha, acordou quem estava dormindo. É o golpe que faz o gordinho querer emagrecer e virar lutador, faz o filho chamar o pai para ver, coloca MMA no highlight do maior canal de esporte do planeta junto com futebol, basquete e todos os outros. È o movimento que cria novos fãs e emociona os mais antigos.

O esporte precisava desse chute, dessa porrada na cara, desse movimento. O vôo de Sakuraba para pisar Royce no chão, o suplex de Randleman em Fedor, o bate estaca de Sapp em Minotauro, o nocaute com um jab de Anderson em Griffin e alguns outros. Não é um mero golpe, é um momento. Um momento que dissolve certezas, invisível para o impossível, quebrador de paradigmas. Um chute que será dado trilhões de vezes nasceu no esporte que mais cresce no mundo, na última luta do ano, no último WEC da história, no último minuto do último round. MMA é assim. Por isso eu amo esse esporte.

Pettis vai disputar o cinturão com o vencedor de Edgar e Maynard. Vamos ver se o pragmatismo técnico de um desses grandes lutadores será suficiente para agüentar a criatividade, violência e entrega total de um campeão forjado na categoria de peso mais disputada do WEC.

Benson Henderson tem tração, coração, ataca, finaliza, resiste e persiste. Foi vencido pelo incompreensível, pelo imponderável, mas não tem muitos atletas que tenham como fazer o mesmo. Ben vai dar muito trabalho a muito lutador TOP no UFC.

Dominick Cruz VS Scott Jorgensen

Cruz abaixa a cabeça e cambaleia pra frente, dá um passo de capoeira e corta pra trás, pendula para um lado, entorta para o outro. Parece que está em pé encima do caiaque. Ele não se move como uma pessoa normal. É uma colcha de retalhos de influências, de pedaços de estilos, e isso o torna um lutador único, indecifrável. Parece que tem imã nas mãos, porque não importa de onde ele as lança, sempre acertam o adversário. Seus golpes tem uma precisão enorme, mesmo disparados de um corpo em movimento tão errático. Parece que acerta o alvo equilibrado na corda bamba. Cruz tem carisma, aparência boa e um estilo peculiar. Ele e José Aldo são os dois campeões das duas novas categorias de peso do UFC. E que grandes campeões.

Scott Jorgensen é um lutador agressivo e dinâmico, mas Cruz não o deixou mostrar nada disso. No UFC, lutas dele contra Dunham, Sherk, Guida, Gomi, já vem com o carimbo de luta da noite.

Donald Cerrone VS Chris Horodecki

Se Cerrone se levasse a sério, coisa que nem seu treinador Greg Jackson consegue convencê-lo a fazer, ele poderia ter lutado pelo cinturão nesse WEC 53 e até saído como desafiante ao título no UFC. Mas Cerrone não quer ser campeão, ele quer lutar, quer ser maneiro, ter estilo e essas coisas. Por mais que seja de se lamentar sua falta de ambição, ele é talentoso demais e os momentos em que fez guarda contra Horodecki poderiam ter sido gravados por Paquetá e mandados secretamente para muitos treinadores de MMA no Brasil.

Jiu-jitsu pode ser uma arte agressiva, e em MMA, com limite de tempo, tem que ser. O rosto de derrota que muitos atletas brasileiros da arte suave fazem ao serem jogados ao chão, chega a ser digna de estudos. Como se cair por baixo fosse estar em posição de desvantagem. Nunca foi desvantagem para Minotauro, Sakuraba, Maia, Sotiropulos, Aoki, Toquinho, Royce e outros que agridem por baixo. Cerrone mostrou porque um faixa preta de jiu-jitsu tem que ser temido no chão. E se não for, se o adversário achar que é só se espatifar de barriga na guarda e ficar lançando socos, pagará o preço. Cerrone abriu a guarda e atacou, justo e preciso, até finalizar o jovem e experiente Horodecki.

Se Cerrone tivesse feito as lutas que fez no WEC, no UFC, já seria um favorito dos fãs. Todas as suas lutas são um barato, pra frente, chocantes. Revejam a primeira contra Ben Henderson ou a segunda contra Jamie Varner . O Cowboy ainda vai laçar e dominar muitos TOP 10 do peso no UFC.

Horodecki periga ser cortado ou fazer uma luta pelo contrato no card preliminar. Tem raça, luta e deixa lutar, mas não parece estar no mesmo nível estelar em que esse peso agora se encontra depois da fusão.

Último Round:

Esse WEC 53 foi o último da linhagem de uma raça em extinção, um evento voraz, faminto, com lutas agressivas e sinceras. O WEC acabou semana passada, mas continuará vivo por décadas influenciando lutadores e empresários, quase um documento assinado e registrado em cartório sobre como MMA deveria sempre ser disputado.

twitter.com/nicoanfarri

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ANÁLISE: UFC 124 - St.Pierre VS Koscheck


A maioria da mídia especializada adorou esse UFC 124. Pra mim foi um evento apenas razoável. Sem nenhuma luta incrível, mas com todas bem disputadas, me lembrou os dias de criança quando mamãe servia bife e arroz e perguntava se estava bom. Com batata frita estaria ótimo, se ao invés de bife fosse frango, estaria ruim, mas do jeito que estava, era “médio”. Esse UFC 124 foi um evento assim. Médio. UFC 117 com Anderson VS Sonnen, Fitch VS Thiago, Guida VS Rafael, Cigano VS Roy Nelson ou UFC 121 com Velasquez VS Lesnar, Sanchez VS Paulo Thiago, Schaub VS Napão são dois exemplos de eventos melhores. Para mim o ano fechará de modo explosivo com o WEC 53.

Georges St. Pierre VS Josh Koscheck

St. Pierre é o lutador perfeito. Causa a maior quantidade de dano sofrendo o mínino, não faz mais esforço do que precisa e o que faz é mais do que suficiente para desativar e desmoralizar seus adversários, não fere mais do que necessário seu oponente e faz wrestlers campeões da NCAA ficarem com vergonha de suas medalhas. Isso tudo sem palavrões ou ameaças, é capa da Men’s Health, atleta do ano no Canadá, modelo fotográfico e ainda distribui elogios e respeito para o derrotado. St. Pierre é a evolução do MMA por isso suas lutas tendem a ser chatas, como essa foi. Um atacando de esquerda e outro sendo atingido no olho direito. Isso resume bem a luta. As reviravoltas que adoramos ver, lutadores que saem de uma posição complicada para mudar a história, trocações violentas e despretensiosas, nada disso há nas lutas do canadense. São conseqüências de erros de estratégia ou técnicos, e St. Pierre não era mais. Errou uma vez contra Serra e foi nocauteado, uma vez contra Hughes e foi finalizado. As chances de erro foram calculadas e reduzidas a quase zero pelo seu sistema.

Mais do que assistirmos as suas lutas torcendo por algo muito emocionante, que não acontecerá, ou pela sua derrota apenas para vê-lo em uma situação diferente, é melhor aceitarmos que ele é um dos melhores atletas de todos os tempos e admirarmos suas performances. Admirarmos como ele consegue neutralizar lutadores excelentes como Fitch, Thiago, Penn, Koscheck, com uma aplicação estratégica visionária. Mais do que achar a luta legal, devemos estudar seus movimentos e escolhas táticas. St. Pierre faz lutadores incríveis parecerem que nem deveriam lutar MMA. Ele lhes tira mais do que a vitória, St. Pierre lhes subtrai de arrogância e acalma a alma. Dizem que as pessoas que tem uma experiência de quase morte e vêem a luz no fim do túnel voltam diferentes, mais simples. Quem luta com St. Pierre volta mudado. Como se fizessem um intensivão para monge no Tibet ou retornassem de um retiro espiritual. Até Dan Hardy abriu mão, mesmo que temporariamente, de seu moicano. Ao fim de cada luta Pierre está como sempre, inabalado e igual. Como um pai que não quer mais brincar de luta com o filho pequeno e o coloca para dormir. Cabe ao adversário diminuir e aceitar sua insignificância momentânea, optar pelo lado da grandeza em ser humilde do que ser humilhado tentando ainda se mostrar competitivo.

Freddie Roach já treinou 27 campeões de boxe incluindo o fenômeno Many Pacquiao e tem em Pierre seu melhor aluno oriundo do MMA. Freddie afirmou que Georges ganharia a luta com cruzados de esquerda.. E foram vários cruzadinhos e jabs de esquerda que definiram a luta.

St. Pierre é um dos maiores atletas do mundo, independente do esporte, treina com os melhores, viaja o mundo todo atrás de mais conhecimento. Sempre coloca mais carvão na sua fornalha. A máquina não para. Shields não tem a menor chance real de vencê-lo por mais que a máquina publicitária do UFC vá nos convencer do contrário. Pierre já admitiu que pode subir de peso e é o que deve fazer. Lutadores naturalmente mais pesados tem potência nos golpes e força muscular que podem estar além do que ele vem experimentando, e isso criaria lutas interessantes de verdade. St. Pierre conseguiria vencer Anderson Silva com jabs? Derrubaria Chael Sonnen? Em 2011 ele deve responder algumas dessas questões, até lá, vai passar por cima de qualquer adversário como Ghandi passeava por entre invejosos e detratores, transformando-os em seguidores ou seguindo em frente e ignorando sua presença.

Koscheck tomou uma surra de jabs nesse UFC 124. Sua explosão, cruzados perigosíssimos e quedas em nível de campeão mundial, tudo parou no couro da luva esquerda de Pierre. Parecia um touro doido indo de encontro a ponta da espada do toreador espanhol. Josh disse que ia fazer um monte de coisas e não fez nada. Era de se esperar. Pierre venceu, ao fim dessa luta, o trigésimo round seguido.

O Koscheck que fingia ter tomado dedadas no olho ou joelhadas na cabeça para prejudicar seu adversário saiu dessa luta um pouco mais homem ao aceitar continuar mesmo com o osso da órbita fraturado. Nesse tipo de fratura estilhaços de osso se agarram ao globo ocular zerando a visão, causando dor e impedindo a rotação. O médico insistiu em que abandonasse a luta, mas ele perseverou. Mais um que sai da luta contra Pierre com uma medalhinha de honra ao mérito. Foi assim com Hardy que teve o braço estalado algumas vezes e não bateu, Ficth que apanhou 5 ronds e continuou de pé, Thiago que teve os dois olhos fechados mas continuou em frente. Todos esportivamente vencidos, mas espiritualmente fortalecidos. Para eles, seu algoz poderia se chamar São Pierre.

Stefan Struve VS Sean McCorcle

Struve e McCorkle no co-main event. Sério? O co-main event é a segunda luta mais importante do card e será que alguém acredita que essa supera em importância Thiago e Howard ou Charles e Miller? Eu não. Para se ter uma idéia do absurdo, esses dois atletas fizeram suas últimas lutas no card preliminar. Struve pegou apenas 3 lutadores interessantes. Nelson e Cigano, foi nocauteado, e Paul Buentello que venceu na decisão dividida mais injusta e polêmica de 2009.

Isso acontece porque fora Velasquez, Cigano e Mir, todos os peso pesados relevantes do UFC vem de derrota. Carwin, Lersnar, Minotauro, Nelson. Também é conseqüência de Dana ter cortado Werdum, Arlovski, Sylvia e nunca ter contratado Pezão ou Overeem. 5 lutadores que passariam fácil por cima dos dois personagens desse ultrajante co-main event. O UFC precisa inventar novos lutadores pesados para colocar no mix.

A luta teve ritmo de rola, de treino. Tem gente que gosta dessas lutas cheias de giro displicente, raspadas de guarda fechada e lutadores sem expressão lançado a mão na cara do outro. Pra mim foi luta moderadamente divertida entre dois lutadores inexpressivos. O tamanho, carisma e nacionalidade holandesa de Struve o manterão por um bom tempo na organização. Stefan venceu por desistência, mas segundos antes poderia ter perdido numa kimura. Uma luta movimentada, mas sem emoção.

Após o evento, Dana White diz que Struve é um lutador de boa qualidade e está entre os melhores, mas que Alistar Overeem que só tem uma derrota no peso pesado, campeão do Strikeforce e atual campeão do K1 Grand prix é um lutador que ainda tem muito a provar para ser considerado top 10 no peso.

Jim Miller VS Charles Oliveira do Bronx

A maior das armas secretas de qualquer lutador é ser subestimado pelo adversário. Quando um excelente lutador é tomado por um lutador qualquer, o oponente tende a pagar o preço. Foi isso que aconteceu com Charles nessa noite. Miller é prepotente, acha que é melhor do que realmente é, mas é muito talentoso. Só perdeu para os dois que farão a luta pelo cinturão no UFC 125, é bom de chão, bom de mão e muito duro, mas os fãs brasileiros pareciam não se importar muito com ele e já davam Charles como vencedor. È verdade que tem muitos excelentes lutadores fora do UFC, mas também é verdade que 95% dos grandes lutadores estão lá. Em eventos menores como Itu Fight, Platinum, Predador FC, AVJ Events, Cage Domination e tantos outros pelo mundo, ainda podem ser encontrados lutadores que veriam aquele pé do Charles na cara pedindo para ser torcido e não fariam nada. Mas no UFC alguém vai se agarrar nele e aplicar uma chave de pé, joelho e etc.Foi o que aconteceu. Lutadores com as pernas longas tem que tomar cuidado redobrado ao tentar chaves de perna ou acabam se expondo para contragolpes letais.

Charles chegou como um campeão deve chegar, confiante, feliz, agressivo. Só que ainda não é campeão e talvez tenha se superestimado. Quando ele desferiu dois chutes altos a curta distância se expondo a dois cruzados que quase o atingiram eu percebi que, talvez, ele estivesse confiante demais. E ele atacou, lutou como gostamos. Não estou aqui para puni-lo pela ofensividade, pela coragem, mas ele tem que ter mais ajuste nas posições, tratar cada adversário como o melhor do mundo, se preparar mentalmente melhor. Estar com a cabeça legal pra luta não é só estar confiante, é estar concentrado também.

Charles é um lutador melhor que Jim Miller. Melhor no chão, melhor em pé, mais carismático, mais novo e mais promissor. Com calma e foco ele vai chegar longe e essa derrota pode te-lo ajudado. Deve fazer uma ou duas lutas com atletas de menor expressão e ir construindo cartel, o que é o certo. Ele ter sido colocado em sua terceira luta no maior evento do planeta contra um TOP 10, talvez TOP 3, foi uma falta de cuidado do matchmaker Joe Silva. Charles é importante para UFC e mídia internacional, que o adoram. Esse choque foi bom para desacelerar o processo de seu crescimento e dar tempo e espaço para ele se tornar o grande lutador que pode ser.

Miller é um bom lutador, tem em sua perseverança e concentração armas para se manter como um dos melhores do mundo, mas falta a ele a criatividade dos campeões. Depende demais de erros dos adversários para capturar uma vitória. Miller não consegue induzir os adversários a falha, não tem qualidade para isso, mas é constante. Está sempre lá, o tempo todo, tentando e tentando, esperando um erro. Se não vier, ele sairá derrotado, mas é impressionante como isso aconteceu poucas vezes. Miller será sempre subestimando e essa é sua maior arma. È o homem invisível.

Thiago Alves Vs John Howard

Numa luta unilateral Thiago fez o que adora, manteve a luta em pé e despedaçou seu adversário com um boxe seco e bonito de ver. Muitos acham que essa foi a melhor apresentação dele desde que entrou no octagon. Talvez não lembrem de suas lutas contra o Mendigo, Lytle, Koscheck e etc. Thiago pareceu tão melhor nessa porque vinha de duas derrotas para St. Pierre e Fitch. Dois lutadores que mostraram que Thiago de costas no chão só sabe tentar levantar ou proteger o rosto. O Thiago desse UFC 124 é o mesmo de sempre. Excelente em pé e fraco por baixo, mas pegou um adversário que aceitou trocar. Sempre que Thiago pegar lutadores que aceitem uma disputa de boxe, ele se sairá bem e parecerá um dos melhores do mundo, um que merecia lutar pelo cinturão de novo e etc. E sempre que pegar um lutador que consiga colocá-lo para baixo vamos achar que ele é fraco e que precisa melhorar muito se quiser o cinturão.

Thiago Alvez será o que o UFC desejar. Se quiserem que ele seja grande, o colocarão contra lutadores que só querem trocar. Como fizeram com Cigano. Vão dar carne para o dente morder. Se quiserem acabar com ele, é só colocá-lo contra bons wrestlers. Eu adoraria ver Thiago VS Anthony Johnson.

Howard vinha de derrota por TKO para essa luta contra Thiago. O Brasileiro tem qualidade para vencer lutadores melhores.

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ANÁLISE: TUF Finale 12 - Brookins VS Johnson


As vésperas da coletiva de imprensa no Rio de Janeiro aonde Dana White anunciará a data em que o UFC virá para o Brasil em 2011, um dos assuntos mais comentados da semana é o erro grosseiro dos juízes laterais nesse TUF FINALE 12. Da mesma maneira que dia 15 de dezembro marcará um momento histórico para o MMA no país, os erros consecutivos e crassos na avaliação das lutas respingam na reputação desse esporte que deveria medir quem é o melhor lutador baseado em qualidades técnicas, táticas ou atléticas, e não quem tem a preferência dos juízes ou quem deu mais sorte naquele dia.

Leonard Garcia VS Nam Phan

Garcia tem raça, coração, uma cabeça de paralelepípedo e nada além disso, mas são características suficientes para ser um lutador empolgante de ver. Todas as suas lutas são movimentadas ou bem disputadas e por mais que nunca vá disputar o cinturão, nos oferecerá seu crânio para impacto até que haja algum dano cerebral. Garcia luta por nós, pelos fãs, faz o melhor que pode sem dar desculpas ou fugir do contato. É um cara para ser admirado ou, no mínimo, respeitado. Mas ele não venceu essa luta contra Nam Phan.

Nam é veloz, tem um bom repertório de combinações em pé e tem um jiu-jitsu razoável em MMA, mas é a sua busca constante pela vitória, pelas brechas deixadas pelo oponente que o fazem um lutador interessante. Ele e Garcia fizeram uma luta bruta e rude durante 3 rounds que deveria ter sido o ponto alto do evento, mas não foi. Na verdade a luta perdeu quase toda importância tendo em vista os acontecimentos do lado de fora das grades.

Se Lyoto teve um pacote de figurinhas roubado na luta contra Rampage, Nam teve sua conta de banco devassada e cartões estourados contra Garcia. Lyoto foi vítima de um sistema complicado de julgamento, Nam foi vítima de incompetência ou má intenção. Phan venceu com clareza os 2 primeiros rounds e sobrou para Garcia o terceiro que, na minha opinião, ele também perdeu. Mas os juízes Adalaide Byrd e Tony Weeks viram diferente. Olharam para o cavalo e chamaram de bode. Nenhum profissional que tenha conhecimento claro das regras erra de modo tão bisonho. No McDonalds quem tentar fritar um hambúrguer sem ligar a chapa é demitido. Não tem conversa. Dana White chegou a pagar bônus por vitória para Phan tamanho o ultraje.

Temos que entender a proporção do problema. Boxe foi o esporte de contato mais rentável durante anos até que, dentre outros fatores, começou a ser acusado de ter lutas compradas e juízes vendidos. Essas suspeitas existem desde que o primeiro esporte foi inventado, mas quando um atleta que espancou seu adversário até quase a inconsciência por 12 rounds perde na decisão dos juízes, a mídia e fãs percebem que há alguma coisa nefasta. Não se trata de uma questão de decisões tendenciosas. Não é mais uma questão de manipulação de resultados controversos, é um roubo descarado. Se esse tipo de questionamento sobre a veracidade das lutas foi matando um esporte milenar como boxe, imaginem o que pode fazer com um esporte tão novo como o MMA. O golpe pode ser fatal.

O comentarista do UFC Joe Rogan disse ao longo da transmissão que há alguns poucos bons juízes cercados de um bando de incompetentes idiotas que não entendem nada do esporte. Deveriam todos ser mandados embora porque eles estão matando o MMA, dando a impressão de que há corrupção, quando o que há é muita incompetência. Steve Cofield, jornalista da Yahoo Sports, acha que Joe está falando demais. Que já está difícil regulamentar o MMA em Nova York por acharem ser muito violento e que declarações de que os árbitros são incompetentes só dificulta ainda mais. Ele foi além e disse que a maioria dos fãs se esquecem de resultados polêmicos depois de uma semana, então, a imprensa deveria bater menos nessas questões.

È verdade que a alta imprensa veicular a opinião de que todo o sistema de julgamento do esporte é falho e cheio de incompetentes não é positivo, mas é menos positivo ainda o que pode acontecer se quem tem visibilidade ficar calado. Primeiro pisam na nossa grama, não dizemos nada, daqui a pouco estão entrando na nossa casa. Todos nós, imprensa ou fãs, que em MMA ainda estão muito misturados, tem que se manifestar frente a demonstrações claras de má intenção ou incompetência nesse nível. Temos que defender o que acreditamos, tomar o remédio amargo antes que a doença se generalize.

Keith Kiser é o responsável pela NSAC. È ele quem contrata e demite os juízes e é verdade que já demitiu vários após erros como esse, mas não adianta mandar embora quem comete um erro por incompetência e contratar outro com as mesmas deficiências. MMA tem que ser julgado por amantes do esporte ou ex lutadores. Tem sutilezas dificílimas de serem percebidas por que não pratica lutas ou realmente amam o esporte.

Houve roubo nesse TUF FINALE 12. Nos roubaram a diversão, nosso momento de curtir o esporte que amamos, nos roubaram a verdade e a tranqüilidade, mas se ficarmos quietos é porque roubaram nossa vergonha na cara também.

Nam Pahn venceu Leonard Garcia nesse FINALE.

Uma curiosidade para quem gosta de teorias conspiratórias: Nos 3 resultados mais polêmicos do ano, os 3 lutadores prejudicados tinham alguma descendência asiática. Lyoto (filho de japonês) VS Rampage, Chan Sun Jung (koreano)VS Garcia, Nam Phan (descendente de vietnamitas) VS Garcia.

Jonathan Brookins VS Michael Johnson

A luta entre os dois finalistas da décima segunda edição do Ultimate Fighter foi uma das melhores lutas do ano. Um grande combate não precisa ser cheio de golpes no rosto até o último round. Em K1 talvez sim, em MMA não. Há vários modos de uma luta se desdobrar de modo emocionante. Apesar de alguns comentaristas terem como maior referência de Brookins a surra que ele tomou de José Aldo, eu prefiro ver pelo lado de como ele agüentou quase três rounds de espancamento nas mãos de um dos melhores do mundo.

Brookins saiu da derrota certa pelos punhos explosivos de Johnson para virar a luta nos dois últimos rounds. Quem diria que Michael, tão mais baixo e com menor alcance, acertaria tão claramente o rosto de Jonathan, quem diria que ele agüentaria a explosão com tamanha violência dessas luvas tão pequenas e cheias de mão dentro no meio da cara, quem diria que a chave para a reviravolta seria Brookins derrubar um excelente wrestler uma, duas, três vezes? Grandes lutas são assim. Diferentes do que antevemos.

Brookins tem um cartel sólido, é muito alto para o peso, muito competente no chão, sabe dar quedas, sabe agüentar adversidades, sabe apanhar sem perder a calma, é preciso, sabe quando golpear, sabe controlar o ritmo da luta e, quando tem a chance, quando consegue uma posição de domínio, raramente cede. Mas sua maior característica não é nenhuma dessas. É ser um cara muito legal. É feio pra caramba, mas é um excelente porta voz do esporte. Educado, humilde de verdade, tanto na derrota quanto na vitória, tem discursos sobre amizade e respeito. È importante para o MMA, que ainda é visto como esporte bárbaro para tantos, um atleta como esse. Um cara comum no dia a dia, uma pessoa agradável, que tem seu destaque aonde atletas de verdade tem que ter, dentro do octagon.

Michael Johnson é apenas um lutador esforçado e com um cartel irregular demais. Me surpreendeu St.Pierre e Koscheck apostarem tanto nele como o vencedor dessa temporada do TUF. Se Johnson quiser fazer carreira no UFC como é seu sonho, deverá começar por ajustar seu peso. Pequeno demais para o peso leve, ele deveria descer, da mesma maneira que Brookins acertou seu peso ao subir para os leves.

Demian Maia VS Kendall Grove

O domínio tranqüilo de Maia no solo mostrou que faixa preta gringa é azul aqui no Brasil. Grove, que é considerado um bom lutador de chão, se limitou a ficar por baixo e parado, encolhido dentro da toca com medo do bote da serpente. Sem um ataque ou qualquer coisa que provasse ser ele um lutador conhecedor jiu-jitsu. Parecia um amador com medo de ser finalizado no primeiro treino. Um desempenho constrangedor de um lutador que já almejou estar entre os 10 melhores do peso. Ninguém parece mais muito interessado em ver Grove lutar e acho que ele já percebeu isso.

Demian Maia sofre do mesmo mal que Okami e Condit. Não tem carisma e não voltará a disputar o cinturão fazendo lutas mornas como essa contra Grove e anterior contra Miranda. Não fossem os acasos da derrota de Sonnen e contusão de Belfort, ele não teria nem disputado o cinturão do peso contra Anderson. Se Maia quiser outra chance precisa terminar as lutas antes do tempo regulamentar. Mostrar que ele apesar de não concorrer ao prêmio de Mr. simpatia, ainda é um dos melhores lutadores do peso. Mas ganhando lutas, por pontos, de modo lento e sem emoção, isso não vai acontecer tão cedo.

Stephan Bonnar VS Igor Porkrajac

Bonnar não agüenta mais. Se ofereceu para espancar e ser espancado tendo os fãs como testemunhas por muito tempo. Seu corpo quebrou. Os ossos da sua cara devem estar cheios de rachaduras. Ele sabe disso. Um golpe bem dado por rachar sua cabeça como uma casca de ovo. O Bonnar impetuoso de antes, desmontou. O que vimos nesse Finale foi um lutador que ainda quer muito fazer uma coisa que não consegue mais. Era claro seu desconforto ao tomar golpes no rosto e sua vontade de levar a luta para o chão. Porkrajac tem socos fortes, retos, mas Bonnan já resvalou porradas muito mais fortes que essa sem andar pra trás. Bonnar está bem perto do fim da carreira no MMA e Porkrajac perto do fim do contrato com o UFC. Uma última luta entre Bonnar e Griffin, uma terceira revanche, poderia agradar aos americanos e finalizar de modo lógico sua curta e interessante carreira. Porkrajac vai acabar em eventos de menor expressão e por lá vai ficar.

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

CRÔNICA 9 - FAROESTE DO CABOCLO (publicada na Revista TATAME edição 177)


O corpo de José se formou em Manaus, mas seu espírito era carioca. Magrinho, caboclo, flamenguista e impaciente com a vida ali parada na sua frente. Passou pelo lado e se mudou para o Rio com aquele peso no estômago de que alguma coisa iria acontecer. Se era peso bom ou ruim dependia do dia, da fome, da sorte, do sol, da saudade. Um frio que retorcia as entranhas sem piedade, num balé de tripas que não conseguimos acompanhar. Alguma coisa iria acontecer. Está escrito em algum lugar, tinha que estar.

Tinha resolvido tentar esse negócio de MMA, esse tal esporte que dizem que cresce no mundo todo, que dá dinheiro, fama e essas coisas boas que sonhamos às vezes. Perdeu o cabaço esportivo com 17 anos, ainda um moleque, no Amapá, no peito, na raça e no peito do pé. Botou seu primeiro adversário para dormir com um chute na cabeça. O mesmo peito do pé que fazia embaixadinhas com bola de meia. Também sonhava em ser jogador de futebol. Aldo estava lá, pronto para agarrar um de seus muitos sonhos, uma criança cercada de vaga-lumes. Um moleque do interior, destemido e temido.

Resolveu seguir carreira, parecia que lutar era uma coisa natural. Lutou pela vida, pelas chances. Nunca teve coisas de mão beijada. Muito mais menino de rua que playboy, Aldo não temia derrotas. Sua vida seguia como uma kombi cheia de lutas, vitórias, tapas nas costas, elogios, confiança, amigos da onça e parceiros de treino, até que o pneu estourou numa pedra que havia no caminho. Uma pedra chamada Luiciano Azevedo. Aldo sofreu sua primeira derrota e para o inferno ele foi pela primeira vez.

O que passou pela cabeça do garoto deixo para Freud explicar, mas deve ter sido algo entre abandonar a carreira ou tentar ser o melhor do mundo. Hormônios se atracando com neurônios. Várias pessoas sabiam exatamente o que ele fez de errado, mas cada uma sabia uma coisa diferente. E ele só sabia que tinha perdido. O que ninguém podia imaginar é o que viria depois. Foram 3 vitórias inexpressivas, mas ele não tinha driblado o destino e deixado sua terra pra trás apenas para isso. Estava diferente, reticente. Dois passos pra trás, um pra frente. A derrota matou alguma coisa. O medo lacerava sua impetuosidade. Parecia que a rota para as galáxias estava mais para uma estradinha asfaltada. Até que um dia. Tudo mudou.

Em sua estréia no WEC, vimos sua reinvenção. Dizem que os artistas olham para o mesmo lugar, mas vêem coisas diferentes. O que Aldo vê quando olha para o chão antes da luta? Ele que chega pulando e cantando, quando entra na jaula se silencia. Alguma coisa vai acontecer, aquele peso agora é nas tripas da gente, o disjuntor vai mudar de lado, as manivelas estão sendo giradas, a freqüência vai ser alterada, a eletricidade vai começar a correr, a energia vai ser liberada. E ele levanta os olhos, quase com sono, quase como se não estivesse ali ou como se ali estivesse, na verdade, outro. Será? E com olhos de peixe morto ele lança sua fúria e destruição sobre quem está do outro lado.

Aldo se tornou um dínamo, um átomo friccionando dentro de uma caixa de chumbo, em suas veias corre energia nuclear, tem que ver, é difícil explicar. Joelhos se teleportam até a cara do adversário, braços fininhos, quase gravetos, tencionando como dois pistões ligados por fibras de titânio, uma força que não pode ter quem tem esse tamanho, uma velocidade que não pode ter quem tem esse peso.

Aldo é o soldado espartano que tira a armadura para ficar mais leve e perigoso, o planeta que explode a casca e vira uma supernova. A fênix que nasce de dentro da carne de quem quer demais alguma coisa, e não do pó do derrotado. É menos primeiro para ser mais depois.

Aldo é malandro sem terno branco ou chapéu panamá, é o carioca que nunca nasceu no Rio. Tem cara de bandido, de caixa de banco, de motoboy e de tantos tipos. Tem cara de qualquer um porque é um homem comum. E é comum em seus treinos, em sua vida, em seu dia a dia. Uma pessoa calma, atenciosa, nem parecendo que mora em outro universo. E ele é esse cara, quem conhece sabe, humilde, manso, trabalhador, consciente de tudo o que viveu, de onde nasceu e de quantas vezes ouviu que não teria a menor chance. E é assim até que entra no octagon. Aí, ele é outra coisa. Outra criatura. Um atleta magnífico.

Aldo é cowboy que sempre vence o duelo, mas não dá tiro pra cima. É ídolo reconhecido no mundo inteiro e ainda faz embaixadinhas na rua. É o homem fantástico que não se importaria nem um pouco em ser homem comum. Poderia ser “aquele cara”, mas prefere ser um de nós. A vida marcou seu coração e rosto, e ele vai cortar o MMA com seus punhos de navalha para sempre.

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

ANÀLISE: UFC 123 - Lyoto Vs Rampage


MMA não se tornou o esporte que mais cresce no mundo apenas por ser diferente, por promover um combate mais justo entre as artes ou tentar responder a pergunta que tantos de nós tínhamos na cabeça quando pequenos sobre qual o maior lutador do planeta. MMA se tornou uma febre porque, simplesmente, é divertido demais de assistir. È emocionante, movimentado e violento. Esse UFC 123 lembrou a alguns com a memória um pouco mais fraca, já contagiados pela péssima qualidade de edições passadas, porque amamos esse esporte. Também levantou uma questão que parece nunca ser respondida sobre porque os critérios de julgamento que deveriam vir em auxílio ao combate acabam mais complicando. Deveriam ser o óleo que lubrifica as engrenagens, mas parece a chave de fenda que caiu ali e travou a máquina.

Lyoto Machida VS Quinton Jackson

Lyoto Machida perdeu essa luta contra Quinton na decisão dos jurados. Mas diferente do que muitos da imprensa e fãs vem dizendo, ele não foi roubado ou garfado. Foi sim mais uma vítima do sistema de pontuação obsoleto e complicado de entender, que muitas vezes faz uma vitória justa tecnicamente parecer obra da má vontade dos jurados. Temos que tentar analisar os dois primeiros rounds, já que o terceiro foi claro do brasileiro. Lyoto tem um estilo complicado de pontuar, Não duvido que jurados mais comprometidos com justiça em suas papeletas tomem alguns lexotans na noite anterior.

Em MMA são 4 os critérios de avaliação dos rounds baseados nas normatizações da NSAC (Nevada State Athletic Commission).

1) Controle de octagon é medido basicamente pelo lutador que dita o ritmo e local aonde a luta se desenvolve, no caso, teria sido Quinton que nos dois primeiros rounds buscou a luta e ainda conseguiu uma queda, mas defender uma queda é considerado controle de octagon também, e essa seria sempre vantagem do Lyoto.

2) Outro quesito são socos claros. Aqui entram também chutes, cotoveladas ou qualquer ataque em forma de impacto ao corpo do adversário. Nos dois primeiros rounds Machida acertou chutes na perna, alguns socos sem grande impacto no rosto e uma joelhada forte. Quinton acerou alguns socos na cabeça, várias pequenas joelhadas, pisões e socos curtos contra o corpo na hora do clinch.

3) Outro quesito é luta agarrada que vai de quedas a jiu-jitsu. Mas há um defeito no sistema. Em nenhuma regra é colocada textualmente um quesito que já é levado em conta na pontuação de todas as lutas faz anos: o clinch. O lutador que segura o outro contra a grade, em pé, desferindo golpes por usar essa posição agarrada de modo agressivo, é bem considerada pelos juízes. Apesar de que na regra escrita essa posição nem é citada. Mas se eles a consideraram é ponto para Jackson.

4) O último critério é agressividade. Caminhar para frente, defender quedas, acertar golpes que causam dano. Quinton andou para frente e conseguiu uma queda, mas Lyoto defendeu outras tantas. Os juízes consideraram que o Lyoto defendeu as quedas ou que Jackson queria prende-lo nas grades para danificar seus pés e joelhos? Como saber? Foi uma tática usada por Rashad contra o mesmo Rampage, Carwin contra Mir e etc.

Até no site fightmetric, que analisa a luta round a round, marcando tentativa e erro de golpes, potência e etc, é difícil nos dois primeiros rounds perceber o vencedor. Ao final da análise técnica e matemática que o site promove, há dois resultados. Na avaliação round a round, eles dão empate, na avaliação da luta como um todo, vitória do Lyoto.

Numa avaliação round a round, a questão é quem vence mais rounds. Se um lutador vence dois rounds por uma super mega micro vantagem quase invisível, pronto, ele tem 2 rounds. Se o outro lutador o domina completamente em apenas um, ficam 2 rounds a 1. Se essa luta fosse no PRIDE seria uma vitória heróica do Lyoto que contaríamos para sempre, como tantas outras poderosas que aconteceram naquele ring. Mas no UFC, Strikeforce, Jungle Fight e quase qualquer evento, ele poderia ter perdido a luta. Na minha pontuação, pelas regras atuais, eu dei empate. O ponto é que não houve erro nessa luta, houve o problema recorrente por causa de regras abstratas demais norteando um esporte baseado em fatos. Simplesmente as regras tem que ser mais claras e os juízes ex lutadores ou amantes reais do esporte. Já seria um bom começo.

Refuto também a questão velha que sempre vem a tona sobre ele ter sido prejudicado por ser brasileiro. A imprensa nacional tem que ajudar a educar nossos fãs. Aqui muitos ainda vêem Brasil VS mundo, mas lá fora apesar de torcerem para seus lutadores, torcem muito mais pelo esporte. Lyoto e Shogun, dois brasileiros, fizeram o evento principal no Canadá para uma platéia eufórica e casa lotada. Rashad Evans, americano e, na época, detentor do cinturão do peso no UFC, foi vaiado o tempo todo antes mesmo de começar a luta pelo público americano, que estava em frenesi e apoiando o brasileiro Lyoto. O mesmo brasileiro que muitos aqui acham que foi prejudicado por não ser “da casa”. O americano Jason Brilz venceu no octagon a luta contra o brasileiro Minotouro, mas os juízes deram a vitória para o brasileiro mesmo assim. Quer dizer que os americanos “roubaram” para o brasileiro ganhar? MMA já rompeu as barreiras da nacionalidade. Talento, técnica e carisma já superaram o local de nascimento. A maioria do mundo já aprendeu isso, agora falta a gente.

Quinton Jackson é um guerreiro por mais que muitos não lembrem. Foi um dos maiores lutadores de todos os tempos, super estrela do maior dos eventos que se chamava PRIDE, junto com Fedor, Minotauro, Sakuraba, Wanderlei e poucos outros. Rampage admitir que perdeu a luta para Lyoto ao final só mostra que seu espírito de lutador é genuíno. Para ele, vencer de leve 10 minutos e apanhar 5, deveria dar a vitória para o adversário. Como tantas que ele conseguiu no passado. Tantas reviravoltas fantásticas que essas regras do UFC só dificultam. Quinton venceu no UFC Liddell, Handerson, Wanderlei e agora Lyoto. Só perdeu de modo controverso para Forrest Griffin e para o ex campeão e seu nêmesis, Rashad Evans. Ainda é um dos melhores do mundo e faz luta boa contra qualquer um. Sua vitória complicou os planos de Dana White que esperava forçar Quinton a subir de peso caso perdesse e divulgar a volta do dragão mundo a fora. Mesmo assim, se Jackson quiser fazer mais do que lutas duras e vencer por um fio na decisão dos jurados, vai ter que incorporar mais de seu treinamento e forma física de antigamente. Só entrar com a música do PRIDE não será suficiente, apesar de ter sido uma bonita homenagem.

Lyoto é um lutador único. Seus movimentos e estilo pareciam impossíveis de se traduzir em vitórias numa competição tão real quanto MMA e luta a luta ele mostra que está num nível diferente da maioria. Mas sua tática depende demais de esquivas e movimentação e isso não grada os juízes. Ele precisa ser visivelmente contundente durante a luta. Não adianta depois aparecer num site que ele acertou mais socos. Não é uma competição definida apenas por quem acerta mais golpes. Não é boxe amador. Pode bailar e caminhar para trás quanto quiser, mas precisa causar dano real ao atacar, como fez contra Rashad, Thiago, Ortiz e etc, ou seu estilo lutará contra ele nas papeletas dos homens de terno do lado de fora. Quase como se tivesse que provar em todo round que não está apenas fugindo e que todas as saídas laterais e gritos de Bruce Lee tem como meta um ataque devastador, ou vai parecer apenas um floreio. Lyoto é um dos lutadores que mais vendem pay per view, tenho certeza que muitos o vêem esperando desferir um hadouken a qualquer momento. Machida ainda deve lutar pelo cinturão de novo, mas precisa parar de lutar para pontuar. Todos seus adversários vão tentar superar sua esquiva e técnica com agressividade e violência. Ou ele volta a ser contundente em todos os momentos, por mais que ache estar na frente nos números, ou vai amargar ainda outras derrotas azedas e polêmicas como essa.

BJ Penn VS Matt Hughes

Em 2008 Matt Hughes ameaçou abandonar a carreira após ser desmantelado por Thiago Alves. 3 lutas e três vitórias depois sobre lutadores medianos ele achou que poderia fazer frente a uma das lendas do esporte. Serra, Renzo e Cachorrão são excelentes e inquestionáveis lutadores de jiu-jitsu, mas nunca foram expressivos em MMA e serviram apenas como formol que conservou Matt dentro de um vidro que foi estilhaçado nesse UFC 123. Mas quem pode culpá-lo por sonhar em voltar a ser campeão? Rico, casado, integrante do hall da fama do UFC, só a glória do cinturão o motiva. E eu não faço pouco de grandes sonhos. Mas a única chance dele vencer BJ seria se o havaiano chegasse todo sujo de areia, de sunga e com uma prancha de surf debaixo do braço.

Fora a derrota vexatória na segunda luta contra Frank Edgar e a prepotência de entrar gordinho para enfrentar o campeão St.Pierre, Penn vem riscando seus adversários da lista como um samurai cortando bambu com uma Hattori Hanzo. Penn, como todo gênio, incendeia frente ao questionamento e a derrota aonde outros abaixam a cabeça e desistem. Para nós, nesse UFC 123, ele lutou contra Hughes, mas em seus olhos só via refletida a imagem de Frank Edgar ou Pierre. A real motivação é a vingança sobre os dois únicos homens que o venceram duas vezes. Quando Penn se sente provocado sua esquizofrenia aflora e seu lado maníaco entra no octagon. Ele se torna um cara louco por vitória e com todos os conhecimentos de como conseguir, de como nocautear ou finalizar qualquer um. Isso para nós é um barato de assistir, mas para Hughes e tantos outros, deve dar medo. Penn atropelou Hughes em 20 segundos e como o americano não é Minotauro, foi sorte não ter acabado paralitico.

Mais do que ser nocauteado e perder a luta, Hughes saiu derrotado desse UFC 123. Não por falta de coragem ou hombridade, que ele tem de sobra, mas por dentro. Estava devastado. Não é mais um menino que se chateia, faz biquinho, mas quando chega em casa tudo fica melhor depois de um banho frio e beijinhos na namorada. È um homem realizado nas coisas que almejou e que, simplesmente, acha que esse seu último sonho não se realizará. Que ele nunca voltaria a ser campeão do UFC é fato, mas é uma pena que ele tenha percebido isso de modo tão doloroso e na frente de milhões de pessoas. Hughes é um dos maiores e merecia se aposentar de modo saudável e não com os olhos vermelhos de tristeza na frente de tantas testemunhas.

Maiquel Falcão VS Gerald Harris

Quando faltam 10 segundos para terminar um round ouvimos aquelas marteladas que vem do lado de fora. É um modo de avisar ao juiz e lutadores quanto falta para acabar. Muitos usam esse tempinho para se fechar e esperar o final, outros como Maiquel Falcão encaixam um mata leão nesse exato momento. A questão é que apenas 2 segundos após a martelada, soou o gongo anunciando o final do round, quando ainda faltavam mais 8 ou 7 segundos. Segundos suficientes para Harris dormir e o brasileiro estrear no UFC com uma vitória por finalização no primeiro round. Mas a luta foi parada antes por um erro amador de sincronia entre o relógio da Comissão Atlética e o timer digital da transmissão do UFC.

Justiça poética foi feita e Maiquel venceu por pontos uma luta que seria impecável se tivesse lutado o último round como lutou da metade do primeiro até o final do segundo. Maiquel tem potencial para dar trabalho a muita gente, mas pensar em pontuar e cadenciar a luta logo na estréia, não é um bom sinal. Harris vai voltar a fazer lutas de card preliminar, se não acabar cortado, porque não tem muito a oferecer aos fãs mais exigentes do que disposição para apanhar e cara feia para desmerecer o vencedor.

George Sotiropoulos VS Joe Lauzon

Se Sotiropoulos tivesse uma gota de carisma que fosse ele já teria lutado pelo cinturão do peso leve com boas chances de ser campeão. Junto com Aoki, Toquinho e Maia, tem o melhor chão aplicado ao MMA do planeta. Agressivo também em pé é um lutador completo, mas fazer Joe Lauzon parecer um faixa azul no chão não é simples. Venceu com uma kimura que vemos tanto em treinos mas tão pouco em MMA, aonde a maioria lutadores de jiu-jitsu tem medo de aplicar metade do que sabem.

Sotiropoulos está com luta marcada contra Dennis Siver, o que indica que não lutará pelo cinturão tão cedo. Siver é apenas um esforçado e é muito raro o UFC colocar uma luta entre um TOP e um mediano como credencial ao cinturão. Caso vença Siver, uma luta de Sotiropoulos contra Maynard, Florian, Gomi, Cerrone, Varner, Henderson ou Frank Edgar (já que de todos esses apenas um estará como campeão do peso leve), se desenha. Mas aí sim, com contornos de desafiante ao cinturão.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

ANÁLISE - UFC 122: Marquardt Vs Okami


Mídia e governo alemães não parecem muito interessados em MMA, no UFC ou na persona autoritária de Dana White e vem boicotando o esporte já faz um tempo. Se podemos dizer que foi um ato corajoso da Zuffa e Dana colocarem de pé outro evento em solo alemão mesmo assim, nadando contra a maré, também é verdade que se a idéia é provar ser MMA e sua maior organização um esporte legítimo e viável, deveriam ter caprichado mais na qualidade do card. O que era para ser uma prova de força do UFC acabou saindo como o restaurante que não tem muitos clientes e, ao invés de fechar as portas, começa a servir comida de pior qualidade.

Yushin Okami VS Nate Marquardt

Marquardt é um grande lutador do ponto de vista técnico, isso é inquestionável. Não há uma área do MMA sobre a qual não recaia sua lucidez e bom domínio. Bom nas quedas, na defesa de quedas, boa trocação e um bom jogo de solo. Também é forte, explosivo e imprevisível. Um dos poucos lutadores no planeta que podemos realmente chamar de completo sem dar justificativas. Mas tem alguma coisa muito errada com as sinapses nervosas que, em mini impulsos elétricos, fazem seu cérebro funcionar. Em computador chamamos esses defeitos que aparecem de tempos em tempos de BUG. A impressão é que há um vírus dentro do sistema de Nate que o impede de lutar sempre que a disputa por cinturão se aproxima. São várias as metáforas e algumas boas explicações técnicas, mas aqui, em bom português, todas querem dizer que ele amarela mesmo. Depois de estrear no UFC esteve irreconhecível em todas as lutas que fez onde o título do peso médio estava envolvido. Contra Dean Lister (vitória que o credenciou a disputar o cinturão), Anderson Silva, Sonnen e Okami. Mesmo quando triunfou lutou extremamente mal. Mas nas lutas entre essas ele foi incrível. Digno de ser considerado por muitos o segundo no ranking da categoria. Nesse UFC 122 a rádio pirata que zoou com suas transmissões de Nate mais uma vez foi o mais ocidental dos orientais, Yushin Okami.

Se Okami estivesse vendendo hamburgers no McDonalds nós compraríamos um e sairíamos sem nem perceber. Um bom lutador, duro, tenso, que agüenta o atrito e causa impacto, mas com carisma zero. Tudo o que mantém Urijah Faber ainda relevante na mídia especializada e entre os fãs apesar de ter 3 derrotas nas últimas 6 lutas é o que falta a Okami que tem apenas 2 derrotas nas últimas 14 lutas. Por mais que o japonês lute bem, parece que ninguém se importa. E foi com esse espírito de cão sem dono que ele entrou nesse UFC. Dar ou não show, lutar ou não excitantemente não muda nada na carreira de Okami fora do octagon, onde mídia e investidores parecem não reparar no seu trovão. Então entrou apenas para ganhar a luta, mesmo que de modo desinteressante. Nem um yen a mais. Fez o que teve que fazer e se beneficiou de ter pela sua frente um Marquardt desativado.

Okami não lutou tudo o que sabe, mas lutou o suficiente para tirar Nate de sua frente pela corrida até o cinturão que ele provavelmente nunca conseguirá. É um lutador que merece essa chance muito mais do que seus predecessores, Thales, Maia, Cote, mas vai subir para encarar o vencedor de Anderson X Belfort como se não devesse estar ali. Mais uma mostra de que MMA ainda é tão mídia quanto mérito atlético.

A corrida de Marquardt pelo cinturão já virou uma peregrinação. Dá até pena vê-lo dizer que ainda se considera o melhor do mundo mesmo depois de ser espancado pelo Sonnen ou que venceu a luta contra Okami. Ele parece perseguindo um oásis no deserto. Mais do que o melhor camp de treinamento do mundo aonde ele se prepara, Nate precisa de um psicólogo. E dos bons. Depois que se tornou um contender e enfrentou Anderson Silva, perdeu 4 lutas e venceu 5. Campeões começam o seu reinado por dentro com confiança e raça como pilares básicos, mas o cinturão pesa tanto em suas costas que nuca pesará em sua cintura.

Alexandre Cacareco VS Vladimir Matyushenko

Cacareco não deveria estar ali, naquela noite, no UFC 122. Não por não merecer, porque já fez por merecer faz muito tempo. Ele é o melhor lutador de chão em MMA oriundo da luta livre, uma máquina de força e explosão muscular. È o tipo de cara que pode estilhaçar uma perna se o adversário não bater a tempo. Cacareco, junto com Fabio Maldonado, já finalizado por ele, são dois lutadores que tem sua grande chance agora, meio tarde. Mas diferente de Maldonado que teve uma noite aonde tudo deu certo apesar do nervosismo, corte de peso e coisas da vida do atleta, na noite de Cacareco tudo deu errado. Foi chamado encima da hora, não teve como se preparar adequadamente, seu peso não estava ajustado e ainda levou alguns golpes claros na nuca que o juiz preferiu não ver. Nada disso desvia da realidade que Cacareco lutou mal demais. Entrou com medo, lento, sem confiança. Quando foi atingido com golpes na nuca, já tinha cedido a montada, protegido a cara como se fosse um amador e virado de lado. Num movimento que, quem luta, sabe que é quase pedir para parar sem bater. Lutou mal, decepcionou. Era uma coisa tão importante para ele e família e carreira que tinha que ter superado tudo e tido um desempenho mais visceral. Parecia alguém que passa fome há semanas e quando chega o prato de comida diz que está com pouco sal. Cacareco merece outra chance porque ele é muito melhor do que vimos. Ele pode ser um lutador relevante no peso desde que encaixe seu treino, preparação física e psicológica. Dana White costuma ser benevolente com lutadores que aceitam chamados para lutarem sem muito tempo para treinar. Ele os tem como alguém que veio em seu auxílio e Cacareco deve ter mais uma chance no maior evento do mundo, no mínimo, por causa disso.

Vladimir Matyushenko é um lutador competente. Tem grandes vitórias sobre Pedro Rizzo, quando ainda estava no auge, e Minotouro, mas tem derrotas para todos os outros bem ranqueados que enfrentou como Arlovski, Ortiz, Jones e o próprio Minotouro numa revanche. É bom de quedas e defesa, agüenta apanhar e sabe infligir dano, mas estava com a carreira estagnada, lutando em micro eventos até que ao final de 2009 foi convidado para voltar ao UFC. Vinha de uma vitória e uma derrota quando foi chamado. Era mais uma questão de colocar lutadores de nome e baratos para prestigiar o card. É a mesma lógica por trás da contratação de Gilbert Yvel e Phil Baroni. Inquestionavelmente são lutadores interessantes, mas já em fim de carreira. Tem muita gente no peso melhor que esses fora do UFC, mas multas contratuais e diferença de valor de bolsas dificultam sua aquisição. Matyushenko em sua terceira luta na volta ao evento foi eviscerado pela estrela Jon Jones, como era de se esperar. Quem achava o contrário não conhece o trabalho de Jones ou é saudosista e lembra do Matyushenko de 10 anos atrás. Sua carreira estava sob judice de novo e seria uma vitória contra Cacareco que poderia mudar as coisas. A vitória veio numa luta sem graça aonde o brasileiro não lutou. Se Dana quiser tratar com carinho Vlady, dará lutadores de meio de tabela e novatos para ele desmantelar com sua experiência e frieza típicas, mas se quiser colocar a sua frente lutadores top no peso, a próxima luta do bielorusso pode ser a última do contrato.

Carlos Eduardo Ta danado VS Kris McCray

È sempre bom de ver lutadores de chão que não cedem a pressão de sair trocando como bêbados só para dar show, ou que no mínimo tem a confiança de que jiu-jitsu ainda é uma arte incompreensível para a maioria e letal quando aplicada a perfeição. Da mesma maneira que um lutador de chão pode intensificar os treinos de wrestling, mas nunca fará frente a um campeão na modalidade, o mesmo é válido para wrestlers que treinam jiu-jitsu, sambo ou artes de finalização. Nunca compreenderão completamente a corrente infinita de transições de posicionamento de solo. Carlos Eduardo ta danado é mais um a vir nos provar o óbvio. Entrar na guarda de um lutador de jiu-jitsu de alto nível é tão perigoso quanto trocar socos com Badr Hari. Ta Danado teve a melhor estréia possível finalizando o mediano McCray. Ele fez o que bons lutadores fazem quando pegam lutadores fracos. Atropelam. Se o nome do outro atleta, por si só, não será grande medalha na farda, que o modo dominante da vitória tome esse lugar. Ta danado está invicto, com 8 finalizações em 9 vitórias. Um grande lutador para repararmos em 2011.

McCray é um esforçado. Um dos finalistas do TUF menos aproveitáveis de todas as temporadas. Perdeu a final do programa para Court McGee lutando como se não fizesse a menor questão. Falta sangue nos olhos, falta raça, falta técnica, falta muita coisa para McCray, que pode ter feito sua última luta pelo UFC.

Dennins Silver VS Andre Winner

Muitos dos maiores atletas do mundo, tecnicamente falando, se encontram no MMA. Se manter no topo e competitivo durante anos, seja num estilo aberto e cheio de floreios como o de Anderson Silva ou num estilo mais travado como o de Rashad Evans, não é fácil. Que parece para o observador mais despreparado como apenas um lutador bom de trocação ou um lutador bom de chão, na verdade é o ápice de anos de treino e domínio ou grande conhecimento de todas as valências do combate. Se Anderson não fosse razoável em wrestling e bom de solo, nunca conseguiria se manter em pé para dar os shows que já deu, se Rashad não fosse bom de boxe, nunca teria o tempo perfeito para acertar quase 100 % das quedas sem ser atingido antes. Quando um lutador é unidimensional, por melhor que seja naquilo, não terá uma carreira muito expressiva. È o Caso de Andre Winner. Bom de trocação, leve, agressivo e dono dos chutes mais poderosos do peso leve, simplesmente não consegue solidificar a carreira porque não entende que MMA é um encaixe de peças improváveis. Um trocador pode ser nocauteado por um wrestler apenas por não entender a base inicial da queda e confundir com um movimento de golpe swingado. O erro pode levar o atleta a achar que vem um soco e acabar por baixo ou, pior, achar que vem uma queda e acabar dormindo. Nesse UFC 122 Winner mais uma vez, perdeu uma luta que vinha ganhando apenas por esquecer que MMA é mais do que trocar e girar. E Silver, que não é bom em trocação, mas acumula bons nocautes, conseguiu mais uma vitóra fruto de um poderosso knock down. Um lutador voluntarioso que faz de tudo um pouco, por isso encontra as brechas deixadas por quem só é bom em uma coisa.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CRÔNICA 8 - NÓS SOMOS O MMA (publicada na Revista TATAME edição 176)


Para os fãs mais antigos, desde os eventos que remontam as vitórias de Royce Gracie, assistido em rústicas fitas de VHS como se fora um graal ditoso, o crescimento do MMA foi progressivo. Para os ninfetos no esporte, o sucesso do MMA aconteceu tal qual um cabeção de nego que explode perto do pé no meio da rua, uma espécie de big bang fantástico de socos e glóbulos vermelhos que vidrou e apaixonou sem culpa. MMA é o mais shakesperiano dos esportes. É o ser ou não ser de nossa geração. To be or not to be. A primeira luta que cada um de nós assistiu foi mais do que um reles combate, foi um questionamento humilde e interno sobre certo e errado, pecado e santidade, guerra e paz, bom e mau.

Independente da idade e cultura esportiva do fã é bem verdade que há teorias diferentes para o motivo que levou o esporte a tomar esse vulto em tão pouco tempo e porque continua a crescer sem sinais de se deixar abalroar por crise econômica, críticos cínicos ou a má organização que ainda é chaga que macula a maioria dos eventos realizados ao redor do mundo. Em setembro de 2009 o UFC atingiu um número maior de pay per views no mercado mundial do que em todos os 12 meses do ano anterior, que, por si só, já tinha sido o ano mais lucrativo do esporte em todos os tempos. Estima-se que o MMA cresce em fãs e finanças entre 20 e 40% ao ano.

O MMA aparece monolítico e invulnerável em meio a esportes empoeirados, regulamentados por regras obsoletas que não respeitam a vontade dos fãs ou, simplesmente, não visam o maior entretenimento. Mesmo assim, o que tem esse esporte que o torna tão atraente? Porque, apesar de violento, mulheres e homens de todas as idades e até crianças tem uma fixação crescente por essa forma de competição? O que MMA tem que outros esportes de contato mais tradicionais como tae kwon do, karatê, judô e etc não tem? O MMA é mais verdadeiro. Não há um kit de sobrevivência para poder competir, não é preciso ser particularmente veloz ou fisicamente forte. Pode ser magro ou gordo, escolado ou semi-analfabeto, versado em várias artes ou apenas em uma. È um momento aonde cada atleta se despe de conceitos feitos para padronizar as possibilidades e entra para competir com o que tem, com o que acha melhor, mais conveniente, mais acessível, com tudo que quis aprender ou com apenas o que conseguiu. O resultado acaba sendo um somatório de habilidades, determinação, talento, limitações e sorte, assim como na vida de cada um de nós.

MMA é o espelho da vida cotidiana, aonde há algumas regras a serem seguidas, mas o sucesso é determinado por um conjunto de normas invisíveis. Se os esportes antigos tinham ídolos inalcançáveis, gente que fazia o impossível por serem mais altos, mais fortes, mais velozes do que o indivíduo comum, o MMA tem ídolos humanizados, de todos os tipos físicos, que vencem e perdem por conseqüência das limitações impostas por regras que permitem quase tudo. Quando se pode usar qualquer habilidade, qual usar? O que treinar mais? Não há perfeição, não há invencibilidade. Em boxe, quem não tem punch ou queixo, não vai longe na carreira. Sabemos o caminho, sabemos o que tem quem o trilha. Mas, em MMA, o que faz um campeão? O que não tem quem perde, e o que tem, com certeza, quem ganha? O que há são atletas enfrentando a consequência das suas escolhas, que pode ser um cinturão ou os dentes quebrados com a cara na lona. Como nós, em nossa vida, com os conselhos que ouvimos ou não, como o amigo que ajudamos ou deixamos pra lá, com o trabalho aonde fazemos hora extra sem reclamar com o patrão ou saímos antes sem ninguém saber. Somos guiados por nossas convicções sem certeza de resultado, sem garantia de sucesso.

MMA é o prego martelado na realidade de vidro dos esportes cotidianos, é uma tirada de onda com quem acha que tudo já havia sido inventado, é a revolução da competição, é para amar ou deixar. Acabou de chegar e já sentou na janela, já quer ser olímpico, já é um dos mais vistos no mundo. É um esporte rude e espaçoso que não tem vergonha de ser o que é. Cada luta de MMA é uma fatia da vida real, um exemplo a ser seguido ou descartado. Cada luta espelha nosso desejo mais primitivo de alcançarmos glórias a qualquer custo, sem frescuras, vencer sendo nós mesmos ou vencer do jeito que der, sermos campeões no talento ou na brutalidade, superarmos o adversário de qualquer maneira, seja ela bela ou fugaz, pasteurizarmos a violência e o sofrimento com a satisfação do triunfo. Uma ratificação de nosso eu maquiavélico. MMA é o esporte que mais cresce no mundo porque é o esporte que merecemos.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

ANÁLISE - UFC 121: Velasquez VS Lesnar


Esse UFC 121 foi mais relevante do que bom. Conceitos foram alterados e certezas balançadas no evento que com certeza não foi o mais divertido, mas sai na frente na corrida pelo posto de mais importante do ano. A maioria das lutas compensou a falta de emoção com excesso de disposição por parte de todos os lutadores. Um evento de tração, pesado e intrigante. Se bons WEC são como fórmula 1, esse UFC foi um Rally.

Cain Velasquez VS Brock Lesnar

Alguma coisa vai acontecer, os índios apaches diriam. Acostumados a medir mudanças climáticas através do vento, da terra, antecipariam facilmente a furacão que se aproxima apenas pela movimentação selvagem e perigosa das nuvens escuras no horizonte. A relva levanta, as árvores balançam, um raio brilha, o trovão estoura e a tempestade do século se forma para anunciar a chegada da era de Cain. Sua destruição de Brock Lesnar entra para a história das lutas como um dia entraram outras que apontavam para um atleta que mudaria a história, para um lutador que entortaria o esporte da maneira que quisesse, colocaria o MMA a seus pés e se sagraria um dos maiores de todos os tempos. A colisão entre Wanderlei e Henderson no PRIDE 12, o espancamento que Fedor impôs a Minotauro no PRIDE 25, o nocaute de Randy Couture sobre Chuck Liddel no UFC 43, a vitória de Sakuraba sobre Royce Gracie numa luta sem limite de tempo no inesquecível PRIDE GP 2000 e poucas outras que agora são acompanhadas, sem vergonha, sem demérito, sem média ou frescutas, pela obliteração de Brock nas mãos de Cain Velasquez.

Brock Lesnar é uma criatura. Num mundo sem armas de fogo, Brock dominaria facilmente o continente com uma marreta na mão. Veloz, arisco, pesado, forte e resistente. Lesnar é um perigo para qualquer atleta justamente por não ser humano, por superar deficiências técnicas com uma brutalidade e velocidade que não deveriam pertencer a uma criatura nascida na Terra. Para haver um Brock Lesnar, 10 homens nasceram raquíticos em algum lugar do planeta. Simplesmente faltou muito material para alguns para sobrar tanto em Lesnar. Para os mais afoitos, Brock era imbatível. Fora uma finalização que ele desconhecesse, como haveria de se parar, com as mãos apenas, um atleta desse porte e com essas características? Cain Velasquez desmantelou esse inumano. Não numa questão de técnica superando força bruta, apesar de que houve muita técnica para driblar as mãos de bola de boliche de Lesnar ou sair debaixo do ground and Pound mais temido da atualidade. Mas foi um espancamento. Lesnar, simplesmente, não tinha como vencer Cain. E ele percebeu isso antes de todos nós. Ele tem coração de campeão, aceita o impacto, vai para a luta, não esmorece. Mas sabia que estava além de sua capacidade. O grande lutador não é aquele que se acha imbatível sendo ignorante para as qualidades do adversário, é aquele que não foge a luta, que dá a cara a tapa.

Se Brock quiser ser relevante do esporte daqui a uns 10 anos e não apenas um tsunami que destrói umas casas, mas não faz vítimas fatais, tem que aprender a fazer alguma coisa diferente de cobrir o rosto e se jogar no chão quando está em perigo. Uma nova luta com Mir está se desenhando. Vão alimentar o monstro. Mas o mundo do MMA, para ele, não poderá se resumir em dilacerar Mir na frente das câmeras mais uma vez. Brock pode se tornar um dos maiores se aprender os detalhes do esporte, mas estando rico e com 33/34 anos, não sei se ele quer ou acha que precisa.


Velasquez joga outro jogo. Encontrou os atalhos dentro do combate, resumiu o MMA, diminuiu a distância entre os pontos. Enquanto Shane Carwin tenta quebrar o muro, Cain encontra a rachadura, enquanto Minotauro se força a lutar a estratégia errada, Cain não tem vergonha de escolher a certa, enquanto o coração de Mir vira uma ervilha o de Cain explode, enquanto Brock só quer bater, Cain não tem medo de apanhar, enquanto Fedor luta desconcentrado contra Werdum, Cain não perde o foco nem em comercial de burrito. Velasquez é o futuro do peso pesado. Hoje em dia será mais temido, mas em alguns anos, apenas admirado. Grandes lutadores trilham caminhos secretos, especiais, lendas, criam seu próprio caminho. Cain Velasques vai trilhar a rota que ele quiser.

Cain vai defender o cinturão contra o brasileiro Júnior Cigano. Marco aqui minha expectativa com silêncio.

Jake Shields VS Martin Kampmann

O MMA tem algumas estrelas fora do UFC, e Shields é uma delas. Com vitórias sobre Yushin Okami, Carlos Condit, Dan Henderson, Jason Miller, Robbie Lawler, Paul Daley e Sakurai, Jake está sedimentado no top 10 do peso médio faz alguns anos. Por uma questão de marketing Dana White o convenceu a estrear no UFC no peso meio médio, antevendo um adversário digno ao trono de St. Perre. O erro de Shields foi ter concordado. No peso médio não perde uma luta desde 2005. Seria um adversário lógico para Anderson Silva, mas com Okami, Marquardt, Belfort e Sonnen com o ticket numerado para pegar o brasileiro antes dele, resolveram colocá-lo no peso de baixo aonde faltam novos desafiantes. Comercialmente, a lógica é boa, mas na prática vimos que não deu muito certo.

Shields estava lento, fraco. Lutadores de peso médio costumam ter de 93Kg pra cima no seu dia a dia. Estão acostumados com um certo nível de corte. Mas descer para o peso meio médio drenou as forças de Shields. Um atleta conhecido pelo vigor e gás, cansou antes do final do primeiro round. Para ele lutar nesse peso com um bom preparo vai ter que alterar seu peso natural para baixo. Se antes tinha 93kg e descia, agora vai ter que ter, naturalmente 85kg. Não é uma mudança fácil e envolve reeducação alimentar, anteração de ciclos de treino e suplementação. A questão é se ele vai conseguir sintonizar seu corpo para uma outra freqüência depois de 10 anos. Jake Shields, pelo que fez na carreira, é um dos maiores do mundo, merece disputar o cinturão mesmo que seja questionado por aqueles que não sabem da existência de forma de vida inteligente fora do UFC. Mas o Jake Shields que lutou nesse UFC 121 não merece nem ser considerado como desafiante. Ou ele acerta sua preparação ou vai ser mais um desmantelado, aos poucos e sem emoção, pelo campeão canadense.

Martin Kampmann é um esforçado. Quem o viu no começo da carreira quando só sabia trocar e vê agora um lutador completo que é perigoso em qualquer aspecto do esporte, entende porque MMA é apaixonante. È uma constante metamorfose, uma constante adição de informação a habilidades. Mas, mesmo assim, Kampmann não está entre os melhores. Não estivesse no UFC, não haveria manifestações na porta da casa de Dana White para ele ser contratado. Ele tem 3 derrotas nas últimas 7 lutas e uma delas foi o nocaute seco pelas mãos de dinamite de Paul Daley. Kampmann vai continuar no UFC dando trabalho a todos que entrarem no octagon com ele, mas não conseguirá ser a pedra no caminho de nenhum grande lutador.

Diego Sanches e Paulo Thiago

Uma das lutas do UFC mais WEC style de todos os tempos também foi a melhor da noite. Em 3 minutos velozes e furiosos testemunhamos o renascimento de Diego Sanches às custas do contrato de Paulo Thiago com o UFC, provavelmente. Aquele Diego, apelidado com precisão de nightmare (pesadelo) se manifestou pela primeira vez em anos. Quedas, briga incansável pelas posições no solo, ground and Pound incansável e muita raça. Os dois lutadores vinham com um dilema para essa luta. Os dois vindo de momentos irregulares na carreira e precisando mostrar que ainda são predadores do topo da cadeia alimentar. Mais do que a vitória, Diego renasceu como um grande lutador. Já Thiago, que se divide entre trabalhar como policial e treinar nas horas vagas, sucumbiu frente a um atleta em tempo integral. Coração é o ingrediente que todo campeão tem, mas é o ingrediente secreto que se mistura com tantos outros. Ele , por si só, não serve de muita coisa. Thiago tem que decidir que carreira quer tomar, abraçar uma paixão e abandonar a outra. É assim mesmo, coisas da vida. Ou vai continuar sendo um lutador duro, valoroso, mas não terá lugar entre os melhores do peso. E, quem sabe, nem no UFC.

Matt Hamill VS Tito Ortiz

Uma luta irrelevante entre um Matt Hamill mediano e um Tito Ortiz acabado. Quando no crescente mercado de MMA, com patrocínios robustos querendo estampar suas marcas em qualquer lutador do UFC, vemos um entrar com a bermuda sem nenhum anunciante, apenas com o endereço de sua própria marca, tem alguma coisa errada. Tito já apanhou tanto na carreira que leva um soco na direita e sangra na esquerda. Não é um homem velho, mas está velho para esse esporte. Cansou. Não defende quedas nem tenta aplicá-las. Tomando como base os vários chutes amadores que lançou durante a luta, creio que esteja assistindo mais competições de tae kwon do e K-1 do que o prórpio esporte que um dia praticou. E Hamill, um grande lutador do ponto de vista do exemplo de superação de deficiências e perseverança fez aquela típica luta que sempre faz. Bate, apanha, tenta não perder e, eventualmente, acaba ganhando. Uma luta desnecessária que só serviu para mostrar que, hoje em dia, Tito é melhor narrador de MMA do que lutador. E Matt, fez o dele, mas o que ele faz não é de grande qualidade. Dois atletas que não vão fazer a luta principal de nenhum evento durante um bom tempo. Talvez, pela eternidade.

Brendan Schaub e Gabriel Napão

Que Schaub e Napão acham que são bons de boxe, é visível. Mas Schaub só sabe fazer isso mesmo. È um híbrido, como ele mesmo se chama, mistura pouco de tudo. Um especialista em generalidades. Mas Napão é um faixa preta de jiu-jitsu. Mais um do pelotão dos bons lutadores de jiu-jitsu que se tornaram limitados trocadores em MMA. Qual o estilo do Napão? Hoje ele é um trocador, um brigador, como é Ben Rothwell e Travis Browne. Quando um faixa preta vira um boxer de baixa qualidade, tem alguma coisa errada demais em algum lugar. Vitória de Schaub que sabia um pouquinho mais, só um pouquinho mesmo, do que estava tentando fazer.

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domingo, 17 de outubro de 2010

ANÁLISE - UFC 120: Bisping VS Akyiama


Em 1989, numa partida entre Liverpool em Nottingham, o alambrado do estádio cedeu matando 96 pessoas naquela que é considerada a maior tragédia esportiva em solo inglês. Nesse UFC 120, apesar de nenhuma morte ter ocorrido, mais uma tragédia marcou o esporte na Inglaterra. Num card principal feito a mão para os fãs bretões se deliciarem com vitórias expressivas de seus maiores astros, o que viram foi, um a um, caírem melancólicos diante de adversários supostamente inferiores. Não fosse a vitória de Bisping, teria sido um sábado completamente negro para os ingleses. Mas, se ele salvou o evento para seu país, para nós, fãs, não foi suficiente. Um evento arrastado e sem inspiração que teve seu ponto alto nas vitórias de Fábio Maldonado e Paul Sass, no card preliminar.

Michael Bisping VS Yoshihiro Akiyama

Numa luta que prometia ser explosiva, vimos dois lutadores reticentes em engajar uma real trocação e se limitarem a jabs longos e diretos previsíveis. Era mais uma questão de quem ia se deixar hipnotizar primeiro por esse balé sem graça de antebraços e luvas a ponto de ser atingido, do que quem iria partir para o ataque efetivamente. Akiyama que chegou ao UFC com status de estrela asiática decepcionou mais uma vez. Tem raça para agüentar socos na cara, mas não tem raça para tentar desferi-los. É extremamente conservador na quantidade de golpes que distribui, mas parece bem liberal na quantidade que leva. Akiyama parece confundir disposição e show para os fãs com andar para frente e se deixar atingir. Não será cortado do UFC por ser importante estrategicamente para os planos de inserção no continente asiático. Um main event entre ele e Wanderlei, no Japão, é um dos sonhos de Dana White. Bisping venceu a luta, talvez, por querer um pouco mais. Encontrou um adversário com alcance curto e lento, e mesmo assim fez o suficiente para capturar uma vitória incontestável, mas que ninguém vai fazer questão de ver o replay. Se há um plano de carreira traçado para Akiyama, o de Bisping é menos ambicioso. Continuará como carro chefe do UFC no crescente mercado inglês e só. Pode vencer mais 50 lutas, que não disputará o cinturão do peso enquanto Anderson Silva, ou qualquer lutador realmente top estiver lá. O UFC não permitirá que Bisping seja desmantelado mais uma vez, como aconteceu contra Dan Handerson.

Dan Hardy VS Carlos Condit

Sempre fico admirado com a capacidade que algumas pessoas tem em cair e se levantar como se nada tivesse acontecido. É necessária uma alquimia bem especial, ingredientes como perseverança precisam ser misturados com doses exageradas de cara de pau. Dan Hardy parece saber essa receita de cor. Depois de se auto proclamar um dos melhores do mundo ao vencer o nada especial Mike Swick por decisão, e dizer que nunca um lutador o dominou no octagon, após a derrota para St. Pierre, aonde não conseguiu desferir um jab sequer, Hardy terá um teste de verdade para a eficácia de sua poção. Ser nocauteado, em seu país, no primeiro round, depois de ter registrado em cartório que faria o contrário, poderia ser uma questão desagradável de resolver, mas não para ele. Vai levantar a cabeça, sacolejar o moicano, dizer que ninguém no peso tem coragem de trocar em pé com ele e vida que segue. Carlos Condit, ex super estrela do WEC, aonde dominou o peso leve e se sagrou campeão, continua sua trilha no UFC. Se fizermos de invisível a derrota bem controversa para Martin Kampmann, ele acumula 11 vitórias seguidas. Condit prova que MMA é tão show quanto esporte quando apesar de grande atleta, ocupa apenas tirinhas e breves matérias na mídia internacional por conta de sua falta de carisma. Condit é um bom lutador que precisará mais do que de grandes vitórias para brilhar no mercado feroz do MMA, que consome tanto talento quanto personalidade. Hardy vai ficar um tempo sem lutar, tanto pela suspensão natural aplicada pela comissão atlética por conta do nocaute que sofreu, quanto pela dificuldade que o UFC vai ter em achar um adversário que não vá colocá-lo para dormir de novo.

Cheik Kongo VS Travis Browne

Kongo vem se esmerando na arte de fazer lutas chatas. Seja na vitória sobre Paul Buentello ou derrota para Cain Velasquez. Kongo não faz uma luta empolgante desde sua vitória sobre Mirko Cro Cop em 2007. Que também não foi uma boa luta, mas, pelo menos, foi surpreendente. Tantos outros lutadores com desempenho bem melhor foram cortados por estarem abaixo dos padrões do UFC. Mas Kongo é o lutador francês de maior destaque. Tem sua carreira cuidada com extra cuidado por conta de interesses mercadológicos do UFC com determinados países. O italiano Sakara, o filipino Munoz, o inglês Bisping e o japonês / coreano Akiyama são alguns exemplos de lutadores que independente de performance sempre terão uma segunda chance. Um movimento inteligente por conta do gerenciamento do UFC, mas injusto esportivamente com tantos outros mais talentosos cortados por conta de limites de orçamento. Browne, que não é garoto propaganda de país nenhum, precisa lutar melhor do que vem lutando para manter seu contrato em vigor. Lento, displicente e com preparo físico de amador, conseguiu um empate na medida já que nenhum deles merecia sair de lá com uma vitória no cartel. O resultado mais justo, mas que só pode ser dado no campo da moral, seria uma dupla derrota.

Paul Sass VS Mark Holst

Se o jovem inglês Paul Sass resolver abandonar a carreira de lutador profissional por algum motivo, poderia vir para o Brasil dar aula de jiu-jitsu aplicado ao MMA para muitos de nossos atletas, que insistem em afirmar que é difícil levar a luta para o chão como justificativa para trocarem socos durante 3 rounds. Sass não pegou ainda nenhum lutador de destaque, é verdade, mas é verdade também que sua volúpia e precisão na luta de solo são bem diferenciados. É um dos jovens lutadores que em uns 2 anos estarão no topo de seu peso, mesmo indo contra a tendência do MMA atual de lutar em pé e só derrubar se for para cair por cima. Holst é um lutador de mediano para baixo. Serviu apenas de carvão para a locomotiva de Sass. Vai fazer carreira profissional apenas porque o marcado americano é super aquecido e com infinitos pequenos shows. Mas fossem as possibilidades apenas os grandes eventos como UFC, Strikeforce e Dream, a sua carreira já estaria perto de terminar.

Fabio Maldonado VS James McSweeney

Desafia a biologia como há espaço no corpo do brasileiro Fábio Maldonado para suas artérias e veias e músculos e tripas e tudo mais que compõe o organismo humano, se seu coração enorme já deve tomar tanto espaço. Qualquer ser humano normal sairia com breve perda de memória se fosse atingido pela metade dos golpes limpos que Maldonado sempre leva na cabeça, mas ele parece não se abalar. Talvez seja a fina camada de kevlar que cobre seus ossos faciais e ficam escondidos por baixo da pele, ou seja apenas uma vontade imensa, incontrolável, de vencer. Se nossos sonhos são combustível da alma, ele tem dois tanques cheios. E lutou como quem quer demais uma coisa, como quem peregrina de joelhos até Meca. Resignado, firme e decidido. Apanhou no primeiro round e venceu por nocaute libertador no terceiro um McSweeney egocêntrico e desleixado, que lutou como um milionário que pede lagostas sem saber como abri-las. Esqueceu que estava abrindo o card preliminar e lutou com a empáfia de um campeão que tem certeza da vitoria. Maldonado, aditivado pelo seu sonho de se sagrar campeão de verdade, acordou McSweeney para a realidade com um direto no estômago. Vitória de um brasileiro de corpo e alma. Uma luta entre Maldonado e Thiago Silva seria de quebrar ossos.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CRÔNICA 7 - PAIXÃO DE SILVA (publicada na Revista TATAME edição 175)


Saudade boa acalma o coração, mas saudade com remorso é uma mistura ácida para a alma. Einstein teorizou a viagem no tempo, mas não podemos realizá-la sem sermos dissolvidos em partículas. Cabe então aceitarmos nossas limitações metafísicas e fazermos o melhor com o tempo que temos. Cabe admirarmos a magnitude da genialidade de Anderson Silva enquanto ele ainda coexiste nesse plano e caminha entre os mortais como Ares caminhava entre os espartanos. Um deus do combate incompreensível e imensurável.

Há 5 anos Anderson não tem adversários, tem oferendas. Lutadores entram no octagon como ovelhas sacrificadas a uma entidade. Em meio a movimentos leves e inacessíveis, sempre sai ileso, abandonando as carcaças ensangüentadas de seus oponentes pelo chão. Inevitavelmente tornou-se campeão bailando agressivamente com a contundência de uma piscina de giletes. Mas algo aconteceu. Ele, um tão diferente de nós, se apaixonou.

Anderson se apaixonou pelo brilho dourado da cinta de campeão. Quem haverá de culpá-lo por amar? Mas amor nos amolece. A maior de todas as dádivas, a capacidade de se completar no outro, é nossa, dos de carne e osso. Para lendas, pode ser espinhos na coroa. E o medo de perder uma luta, e sua paixão, o fez abandonar seu estilo incrível por um mais seguro. As lutas que eram antológicas se tornaram vitórias monótonas e ele que sempre nos presenteou com magia, parecia desdenhar de nós.

Muitos fãs entristecidos e sentindo falta dos instantes fantásticos que só ele oferecia começaram a torcer por sua punição. Como um senhor de engenho que acha de bom tom um leve açoite no negrinho, remontando a momentos desprezíveis de nossa história. Precisavam de alguém que desse um corretivo no Anderson para forçá-lo a voltar a nos maravilhar com sua beleza combativa. Como se pudéssemos forçar um colibri a cantar ou o sol a brilhar.

Chael Sonnen, um americano clássico, se prontificou impávido para a tarefa. Davi contra Golias. Passou meses ofendendo Anderson e até o Brasil. Parecia o homem certo para o trabalho sujo e no UFC 117 foi para cima e o espancou. Se Anderson estava no auge de sua forma e o adversário o dominava por totais méritos, se estava com a costela lesionada ou se estava apenas triste pela aparente vontade dos fãs, da multidão, de vê-lo perder, é irrelevante agora. Como entender o gênio?

A verdade é que Sonnen colidiu o couro de suas luvas com o rosto de Anderson com a maior violência e virilidade que suas artérias e músculos permitiam, num ato comovente de que podemos superar limites e desafiar o mais forte. No primeiro round até gostamos. Foi emocionante. No segundo, começamos a ficar apreensivos e a partir do terceiro, tudo mudou. Soco após soco nós voltávamos ao normal. Fomos tomados por um medo primitivo de presenciarmos o fim de alguma coisa da qual teríamos saudade. Aquela saudade trêmula de quem se arrependeu de não ter tomado posição, de ter ficado do lado errado, de ter se encolhido e se cagado ao invés de correr e fazer alguma coisa.

E nesse momento o Anderson, um, foi todos nós, milhões. Nesse momento cada soco doía dentro da gente. Ficamos de pé, torcendo para as coisas voltarem ao normal. Para que ele vencesse e nos perdoasse, porque nenhum de nós fez por mal. Se ele mudou por seu amor nós também mudamos por nosso amor ao seu show. Nós nos entenderíamos, só faltava ele sair de lá, e de lá ele ressurgiu. Como gênios fazem, sem explicação ou aviso, a tormenta acabou. Escreveu certo por linhas tortas. Num golpe corrigiu o curso da história. 1 segundo de Anderson em 23 minutos de Sonnen. Ele venceu e nos venceu. Nos comoveu. O coração do incansável Sonnen foi partido e o nosso explodiu. Presenciamos o espancamento de um dos maiores de todos os tempos e contemplamos sua mão erguida, novamente, mas tão diferente, ensangüentada e renascida. Um campeão inalcançável mostrou que é como nós no que temos de melhor. Nosso coração. Nesse momento, eu que não sou ufanista, que amo MMA acima de nacionalidades e bandeiras, me orgulhei de ser brasileiro.

Anderson é um gênio louco e intraduzível que brota e colhe a rosa do asfalto, que racha a realidade com cotoveladas, confunde as dimensões com os punhos. É lenda para ser contata aos filhos mais do que compreendida. Marrento para alguns, humilde para outros. É pedaço Bruce Lee, pedaço Jordan, pedaço Michael Jackson e pedaço Charles Chaplin. Anderson é para se admirar e não para entender. É mais água que pedra. Seu trono no hall dos deuses do combate já está esculpido em ouro. Amem ou odeiem, não importa, não dá para mudar a rota do colosso. O que podemos é, um dia, termos a saudade boa das vezes que o aplaudimos ganhar.

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sábado, 2 de outubro de 2010

ANÁLISE - WEC 51: Aldo VS Gamburyan


Dana White incansavelmente brada aos 4 ventos, twitter, entrevistas na ESPN e aonde quiserem ouvir, que não há eventos de MMA no mesmo nível competitivo, técnico e de qualidade que seu UFC. Mas é ele mesmo que nos prova estar errado em suas declarações com o WEC, outra organização dirigida por ele, ao oferecer evento após evento um aglomerado de lutas boas e competitivas que provam, para aqueles ainda incrédulos ou iniciantes no MMA, haver grandes lutadores fora do maior evento do mundo. Apesar disso, esse WEC 51 esteve abaixo das expectativas estelares a que já nos acostumamos, com alguns combates arrastados e muitas decisões dos juízes. Mas WEC é como pizza, mesmo quando é ruim, é bom, e esse, mesmo apesar de não despentear nosso cabelo ao passar zunindo a 200 km por hora como os anteriores, nos apresentou 3 grandes momentos. Uma grande certeza, uma grande luta e uma grande revelação.

José Aldo VS Many Gamburyan

Gamburyan é um dos lutadores mais perigosos no peso. Muito curto, seus cruzados se tornam velozes e mortais a pequena distância, tem um forte poder de fogo no ground and Pound, uma boa base de wrestling, é explosivo e arisco, determinado e tem um bom queixo. Já tinha provado ser um bom desafiante ao cinturão do WEC ao nocautear o duríssimo ex-campeão Mike Brown em sua última luta. Seria uma inverdade ou, no mínimo, imprudência afirmar que Many não tinha chances contra o campeão José Aldo. Mas, cá pra nós, Many não tinha a menor chance mesmo. E, quem teria? Quem, no planeta, no peso, fora as improbabilidades loucas e apaixonantes que o MMA nos impõe de num dia fora do eixo, qualquer coisa acontecer, tem chances de vencer o brasileiro? José Aldo é um dínamo, um átomo friccionando dentro de uma caixa de chumbo. Socos, chutes, joelhadas velozes e precisas, finalizações secas num jiu-jitsu justo muito bem afiado por André Pederneiras. Tudo isso energizado por uma calma e frieza de predador frente a presa. Se cada organização fosse um universo, posso dizer que a estrela de Aldo brilha com tanta intensidade que já ofusca alguns outros astros tão mais perto de nós, no universo UFC. Sua qualidade atravessa constelações como um cometa, destrutivo e magnético. Esportivamente, seus treinadores e ele podem achar que deve permanecer mais um tempo dominando o peso e fazendo de grandes adversários, míseros derrotados, mas, filosoficamente, ele não poderia nos privar de vê-lo contra outros astros do peso leve, em lutas memoráveis, antológicas. Aldo contra Penn, Gomi, Edgar são alguns exemplos de combates que tem que ser realizados. José Aldo trilha um caminho diferente da maioria dos lutadores, trilha o caminho fantástico que pode levar um homem a se tornar uma lenda. E Many vai voltar a fazer lutas excitantes e torcer para Aldo subir de peso para ele ter alguma chance de realizar o sonho de se tornar campeão no WEC.

Donald Cerrone VS Jamie Varner

O homem descobriu o fogo pelo atrito de duas rochas e Cerrone versus Varner poderia ter incinerado a lona do WEC tamanha a violência da colisão entre os dois durante 3 rounds. Como numa briga de facão, parecia que de cada golpe vinha um impacto raspado seguido de fagulhas. Houve técnica por parte de Donald Cerrone. Um boxe longo, jogado por fora, combinados de fintas e jabs com quedas tão precisas que conseguiram colocar o wrestler nível divisão 1, Varner, no chão algumas vezes. Mas foi a violência com que Cerrone buscou a vitória, a intensidade com que lançava golpes, não deixava um soco sem resposta, numa volúpia combativa, numa vontade de vencer que deu até dó de tantos outros atletas que entram num octagon olhando para o relógio e fazendo conta. Cerrone não só venceu essa revanche, como tanto queria e prometeu, mas provou que MMA é um esporte de atrito, de contato, e um grande atleta tem que estar disposto a disparar toda a munição que tem durante o pequeno tempo em que compete diante dos holofotes e agüentar o que é disparado contra si. Cerrone levou duros golpes no queixo de Varner mas, a cada golpe, parecia mais pensar em revidar do que dar um passo atrás e imaginar táticas de fuga. Uma grande luta, agressiva e temperada por um desejo de vingança esportiva. Normalmente quando dois lutadores se xingam demais antes do evento, tendem a estar latindo demais para vender pay per view porque não são muito bons em distribuir mordidas. Mas, nesse caso, os dois encheram suas garruchas de pólvora seca e muito chumbo grosso. Quando ao fim de uma luta queremos ver mais combates dos dois envolvidos, é porque os dois saíram ganhando. Cerrone, dá um passo a frente no ranking e Varner, um atrás. O que só muda a distãncia entre os dois, porque acima deles, apenas Ben Handerson e abaixo, todos os outros.

Tie Quan Zhang VS Pablo Garza

Outro destaque desse WEC 51 aconteceu nas preliminares, numa luta que marcou a estréia na organização de um dos lutadores mais promissores do MMA atual. O chinês Tie Quan Zhang que está invicto e tem todas as suas vitórias no primeiro round manteve seu cartel imaculado vencendo por finalização o também invicto, até então, Pablo Garza. Zhang, o lobo da Mongólia, é representante da China Top Team e um dos lutadores mais vorazes do mundo. Sua busca pela finalização é sempre feroz e seu boxe é extremamente agressivo e audacioso. Zhang tem um jogo sólido como a muralha da China. É um lutador com sede de vitória que entra no octagon quase que como carregando, sozinho, a bandeira de seu país. Quase um desbravador, quase um messias, com a atitude de superar seus adversários numa ode a sua pátria natal, China, como Fedor parecia se comportar com relação a sua amada Rússia. Zhang parece que entra para o combate com um exército de milhões dentro dele, pode se tornar o lutador que Dana White tanto procurava para ajudar na inserção do UFC /WEC, na Ásia. Zhang é mais uma prova de que o MMA derruba as barreiras alfandegárias dos preconceitos raciais ao criar ídolos primeiros em técnica, depois em nacionalidade. Temos que aprender a pronunciar seu nome corretamente porque é um lutador que vai escalar o ranking do peso leve em muito pouco tempo. Pablo Garza, apenas um bom lutador, fará outras lutas interessantes, mas trilhará um caminho bem menos iluminado que de seu oponente.

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