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terça-feira, 5 de junho de 2012

ANÁLISE: UFC 146 - Cigano VS Mir

A luta de Jones Vs Rashad me induziu a um estágio de quase amnésia. Perambulei pelos fóruns de MMA sem saber de fato porque amava esse esporte, pareciam memórias distantes aqueles momentos emocionantes desse tal de Mixed Martial Arts. Tanta badalação, expectativa, por um rascunho de luta. Dois acovardados dentro do octagon, menores do que as palavras que vinham dizendo. Se uma das lutas mais esperadas de todos os tempos foi aquilo, como acreditar no que há por vir. Teria o show matado o esporte? Teriam as entrevistas e ofensas se tornado mais importantes do que a atuação? Será que performance agora é medida por seguidores de twitter? Se for será quem um dia teremos Beyoncee VS Rihanna? Me sentia confuso e desmotivado, quase pedindo para desligarem os aparelhos quando esse UFC 146 me deu um tapa na cara e me chamou de palhaço. O melhor evento do ano colocou a mim e todos de pé para acompanhar uma sequencia de excelentes lutas, desde o card preliminar. Se no UFC 145 e em quase qualquer outro, são poucos os brilhos, nesse foram várias estrelas a brilharem novamente. Cigano, Cain, Nelson, Varner, Hardy, Glover e tantos outros. O caminho ficou claro novamente. Esse é o esporte mais emocionante e imprevisível já criado. Jamais voltarei a duvidar. A não ser que haja uma revanche entre Jones e Rashad. Aí, não me responsabilizarei por meus atos.

Cigano VS Frank Mir

É impossível nocautear Frank Mir porque ele desiste da luta antes de apagar. Até a derrota para Carwin computada como nocaute no Sherdog, foi um nocaute técnico. Mir estava de costas, sem reagir, mas acordado. Como teria sido a carreira de Sakuraba se cortasse peso, lutasse numa categoria mais adequada e não tivesse aceito combates contra tantos pesos pesados e meio pesados TOP na época? Brock Lesnar e Cung Lee se tivessem começado a treinar MMA quando começaram suas carreiras artísticas? Pelé Landi se tivesse surgido para o esporte nos dia de hoje? Como seria Mir se tivesse o coração proporcional a seu talento e estrutura física? Num bate papo descontraído no Starbucks eu falaria por horas e horas para quem tivesse paciência de ouvir sobre minhas teorias, mas aqui não há tempo para isso. O que importa é que Mir é assim, e pronto. Nos estereótipos da psicologia devem haver termos mais respeitosos, mas na linguagem do povo, é frouxo mesmo. Adora bater, mas tem medo de apanhar. Digo medo, porque gostar, ninguém gosta. Até Leben que afirma melhorar quando leva o primeiro soco, ficou extremamente desconfortável e aflito quando não conseguiu escapar do ground and pound insistente de Munhoz. Mir agenta apanhar, não tem queixo de vidro. Tem é coração de papel marché.

Carwin, Lesnar e Cigano. 3 dos pesados a bater mais forte em todos os tempos não o apagaram. E a luta de Minotauro teria o mesmo fim dessas três não tivesse o brasileiro dado o braço de presente no final. Mir é pesado, excelente de chão, bate forte, difícil de ser derrubado, estratégico e decisivo. Se der espaço ele nocauteia ou quebra alguma coisa. Mas é como tantos nessa vida, limitado por si mesmo. Se cada luta de Edgar é um exemplo comovente de como fazer as coisas, as derrotas de Mir são exemplos irônicos do caminho a não seguir. Nessa vida vamos ouvir que não podemos, que não devemos, que não é pra gente, que outros são melhores, que não temos sorte e tanta coisa assim. Na hora em que acreditarmos, vira tudo verdade. Dentro de casa, no quarto de hotel, com os colegas ao lado, ele tem discurso de imbatível, mas na vida real do lutador de MMA que acontece dentro do octagon, ele acredita que é frouxo e se comporta dessa maneira. Mir não precisa de camps de treinamento com os melhores boxers, wrestlers e weightlifters da atualidade. Precisa de um bom psicólogo e maneirar na dose de rivotril antes de lutar.

A chance de Frank era derrubar o campeão. Tentou uma vez e nunca mais. O que o fez aceitar a morte lenta e óbvia, parado na frente de um atleta mais veloz e agressivo, só ele sabe. Talvez nem ele saiba, para falar a verdade. Ficou ali, sendo alvejado, até que se deu por vencido e sucumbiu no segundo round. Uma luta de Mir contra Pezão poderia ser a revitalização da carreira para um e a porta de saída do evento para outro.

Cigano não está nem aí para quem Mir é ou poderia ser. A arte milenar de zunir a mão cheia de dedo no meio da cara de outro homem não permite essa vã filosofia. Cigano é o sucessor espiritual de tantos campeões que só lutavam com uma estratégia. Segurar a luta em pé e desmantelar o oponente. Chuck Liddel, Cro Cop, Wanderlei Silva, Igor Vovchancin não tinham plano B. Era não cair e meter a porrada, e se cair, levantar para meter mais porrada. É parafuso e os outros são borracha. Cigano é assim, com os olhos escondidos na penumbra da testa cheia de linhas na diagonal, dentes esmagando o protetor tipo cavalo doido tentando arrebentar os arreios, a mão quente cheia de intenção sinistra, movimentação de pernas de campeão de boxe profissional. Seu controle de distância, de entrar e sair do infight é um dos melhores de todos os tempos nesse esporte. Cigano está sempre perto o suficiente para acertar e longe demais para ser atingido. Não é encontrado. Como se nem estivesse lá. Parece que manda matar, porque ninguém sabe onde ele está. Acaba quase sempre com o adversário apagado no chão e Junior chegando para conferir a cena do crime.

Cigano nunca foi realmente derrubado e controlado ou atingido. O golpe mais duro que sofreu foi um mata cobra de Roy Nelson. O gordinho só vem pra confundir as estatísticas. Qualquer outro lutador teria a sua qualidade questionada por essas incertezas. Quantas vezes ouvi que só saberemos se Jon Jones é tão bom como dizem quando levar um direto. Mas Cigano será atingido e não cairá, e se cair, levantará. Não por ser o mais talentoso, gênio ou nenhum desses elogios que pesam mais do que elevam. Mas porque ele é simples. Não tem mil respostas pra tudo, não se confunde em várias possibilidades. Tem um objetivo real, só um. Uma resposta absoluta para os questionamentos dentro do octagon. Se cair, vai levantar, se parar na frente, vai descer a mão, se levar na cara, não vai amarelar. Simples assim. E essa criatura imponente e destruidora na hora que pode e tem que ser, vira gente de verdade quando acaba a luta. Sorriso sincero, sem piadinhas forçadas, sem falso respeito, sem hipocrisia. Anderson Silva está com a alma aprisionada no ouro da coroa, Cigano é plebeu sentado no trono do rei. Cigano é mais do que um campeão, isso tantos foram e serão depois dele. Cigano é um ídolo. Um campeão é respeitado, ídolos são admirados. As pessoas querem ter o que o campeão tem, mas querem ser o que o ídolo é. Cigano existe com a certeza de quem vai trilhar um caminho glorioso até o final. Muitos corpos ainda vão pavimentar sua estrada rumo a eternidade.

Cain Velasquez VS Pezão

Pezão ter estreado no UFC no card principal com status de estrela do MMA é misterioso. Inquestionavelmente um lutador perigoso. Enorme, faixa preta de jiu-jitsu e com um pé tamanho 48, nunca vai ser moleza. Tem em vitórias sobre Fedor e Arlovski em fim de carreira, seu auge. E vinha de ser nocauteado com facilidade por Daniel Cormier. Atleta que acabou por se sagrar campeão do STRIKEFORCE, mas na época um substituto gordinho que ninguém levava a sério. E com um cartel apenas mediano encarou um dos maiores da atualidade, senão o melhor pesado do MMA mundial. Não deixem a derrota vexatória para Cigano obscurecer a percepção. Velasquez arrasta consigo uma era. A era de Cain. Longe de ter terminado em sua única derrota, despejou o peso de uma dimensão sobre Pezão que nada pode fazer e foi esmagado sob a prensa cruel do ex campeão.

Pezão ainda pode fazer boas lutas. È um atleta competitivo, intenso, mas não pertence ao topo do mundo. Apanhou muito até que não aguentou mais e virou de ladinho, mesmo sem sono. Da mesma maneira que foi pulverizado por Velasquez, é fato que merece permanecer no evento . O show tem que continuar e toda luta de Pezão, apanhando ou batendo, é boa de ver. Mir, Lavar Johnson e até Minotauro seriam adversários interessantes.

Velasquez segurou o chute de Pezão e o derrubou com segundos de luta, no primeiro contato. Esse tirocínio e reflexo e confiança não comuns a humanos. Até leopardos quando vão caçar um elefante, circundam a presa. Velasquez foi para aniquilar com certeza absoluta de que não poderia ser vencido. Se não valesse cotovelada a história poderia ser diferente, mas se Fred não tivesse feito gol de bicicleta na final do estadual contra o Botafogo, poderia ser diferente também. Pezão contará a história do que poderia ter sido e Cain, do que foi.

Velasquez tem um propósito nessa vida. Ser campeão. Sua alma é grande demais. Precisa do cinturão, precisa de mais espaço. Só um corpo não é suficiente. E se Cigano realmente não queria vingar seu mestre e amigo, Minotauro, posso garantir que Velasquez quer tirar a cabeça de Cigano, empalhar e pendurar perto da lareira em sua casa na Califórnia. Mais do que um objetivo, Velasquez sente que tem uma função nessa vida e não vai parar nem ser parado por quem não concorda ou quer o mesmo que ele. Podem ser vários os ídolos, mas campeão só tem um. Não quer ser ídolo ou admirado. Quer aquele tanto de ouro e diamantes incrustados num pedaço de couro ao redor de sua cintura. Não há tranqüilidade em apenas ser reconhecido. Quer aquilo. Quer viver como quer enquanto existir. O que vão achar dele, legados, eternidade, isso é poesia que não lhe interessa. Que escrevam livros a seu respeito ou que o odeiem. A alegria ou felicidade do outro não lhe interessa nem por um segundo. Não há relaxamento, não há paz em seu olhar. Cain está tenso, nervoso e Pezão foi o primeiro a sentir o risco de ter alguém assim solto nesse universo.

Roy Nelson VS Dave Herman

Roy Nelson é um enigma. Não posso afirmar que se emagrecesse e descesse para o peso médio teria melhores performances. Até porque sua arma secreta é o desdém que os adversários parecem ter por ele. Mesmo gordinho é cheio de fonte rápida de energia no organismo. É o hambúrguer Power. E com o mesmo mata cobra nocauteou Schaub, Struve e agora Herman, e ainda deu uma tonteada em Junior Cigano. É um mistério como lutadores profissionais, com anos de treinamento em várias artes, dieta, estratégias, treino direcionado para determinado atleta, conseguem ser pegos de surpresa por um golpe que eles sabem ser o único a poder vir. Dan Handerson vem surpreendendo a todos com a mesma coisa faz anos, mas Dan é um dos maiores que já existiu. Roy é apenas um barrigudinho que luta.

Herman não tem mais motivo para estar no UFC. Pode ainda fazer uma luta e dar a vitória de brinde para alguém que o UFC queira ver vencer, como Shane Del Rosário. Mas fora ser degrau para outro, não tem muita função. Roy Nelson é o porteiro do MMA, como um dia Gary Goodridge foi no PRIDE. Vai continuar perdendo para qualquer lutador bom e vencendo qualquer lutador mediano. Roy Nelson, ironicamente, é a agulha da balança.

Stefan Struve VS Lavar Johnson

A direção do UFC vem fazendo ao longo dos anos tanta força e gastando tanta grana em marketing para manter acesa a chama holandesa de que Struve é um grande lutador, um jovem realmente promissor, que estão quase me convencendo. Muito alto, com o maior alcance da organização (em nova medida ele e Jon Jones empataram), muito calmo, muito raçudo, bom de chão e meio destrambelhado na movimentação, se torna um lutador complicado de encarar. Pra quem chega na decisão e desse a mão, fica fácil. Tem coração para aguentar qualquer porrada, mas seu corpo não resiste. È inversamente proporcional a Frank Mir. Mas se o atleta cometer o erro amador de entrar no clinch, ele é letal.

Lavar é um mediando, como é Struve. A diferença é que o holandês acumula derrotas por ser superado por adversários melhores ou mais tenazes, e Lavar por tomar péssimas decisões ao longo do combate. Bastariam 3 ou 4 vídeos do adversário para entender como vencê-lo. Acertar e sair, evitar a luta agarrada. Pronto. Mas Johnson entrou num clinch não forçado após ter atingido o adversário. Lá ficou e acabou sendo puxado amadoramente para a guarda de onde não fez força para sair até que foi finalizado. Vitória marcante de Struve já que todo lutador com boa trocação costuma colocá-lo para dormir, e derrota melancólica para Lavar que deixou claro porque mesmo sendo um artista do nocaute, nunca foi considerado relevante em nenhuma organização.

Edson Barboza VS Jamie Varner

Edson Barboza estava invicto e é um dos mais promissores e emocionantes lutadores da atualidade, Jamie Varner é um veterano que vem passando por um momento instável na carreira. Mesmo assim é difícil entender porque fãs e jornalistas não só apontavam o brasileiro como claro favorito, como apostavam em uma vitória sem maiores dificuldades. Talvez seja o hábito de acreditarmos em tudo que a mídia diz, e a mídia é controlada pelo mais poderoso. Se Edson está no UFC e Varner está no TFC, XFC, XFO é porque deve ser pior, certo? Nem sempre. E nesse caso em específico, com certeza não.

Podem dizer o que quiser, mas MMA ainda é uma jujuba de ferro. Difícil de digerir. Emissoras e anunciantes ainda se contorcem para mostrar esse esporte tão violento de modo vendável, sem mentir sobre o produto, sem ter que se afastar do que realmente o faz emocionante. A violência. De tempos em tempos aparece um momento, um golpe único, tão incrível que funde essa violência com admiração com fantástico com arte, e o planeta todo vê, entende e admira. Um golpe que vale por mil comerciais da Budweiser. O chute giratório de Edson em Etim é um desses momentos que merecem assinatura. Tão jovem e já se mostra tão relevante para o esporte. O MMA precisa de atletas como Barboza, seja nas declarações positivas, na postura cordial no dia a dia ou nas performances agressivas e emocionantes. Barboza vai ser um dos melhores do mundo em pouco tempo e quem acha que ele já está perto do seu melhor, vai se surpreender. Se tornará melhor de defesas de queda, ajustará mais ainda os golpes, será mais calmo, preciso, vai evoluir e será muito maior do que Jamie Varner já foi. Mas hoje em dia, Varner é um lutador melhor, mais completo, mais experiente e decisivo. Se Edson não acreditou em todos os bajuladores ou inocentes que só analisam as últimas lutas do card do Sherdog para afirmar ser um lutador perigoso ou não, foi superado por um atleta mais tenaz e pronto. Levanta a cabeça, siga a vida e volte melhor. Mas se acreditou no papo furado e inverídico de que Varner é limitado e seria uma luta boa para ele, bem feito pela derrota. Se Edson quer ser campeão, pense como campeão. Um ex campeão do WEC, enquanto tiver as duas pernas e os dois braços, nunca será vitória garantida pra ninguém. Os caras vem de lá diferentes. Eu sei, a maioria sabe, Edson descobriu da pior maneira.

Jamie Varner teve um momento de oscilação na carreira quando enfileirou 4 lutas sem vitória. Mas se analisarmos o conteúdo além do rótulo, veremos que não é tão simples assim. Uma derrota para o atual campeão do peso leve do UFC, o impressionante Ben Handerson,uma derrota controversa para Cerrone (pra mim foi empate), e um empate contra Shalorus, onde o adversário foi dominado, maltratado, derrubado na porrada e ainda perdeu um ponto por acertar Varner no apito de plástico várias vezes. Uma vitória tranqüila, óbvia, se metamorfoseou num empate medonho na mão dos juízes. Três lutas seguidas que aplacaram seu ímpeto e o tiraram da rota. Não dou desculpa nem para meus erros, imagine os de Jamie. Ele que pague por ter a cabeça fraca. Outros perseveraram onde ele se fez de coitado. Mas fato que foram lutas contra TOPs da atualidade. Será que Barboza teria sorte diferente contra Cerrone e Ben Handerson? Varner saiu do WEC, foi se reencontrando e voltou a ser ele mesmo nesse UFC 146. Varner tem um boxe excelente, wrestling excelente, queixo de granito e a energia pesada do cinturão do WEC flutuando sobre sua aura. Varner, preparado e motivado, é TOP 10 no peso mais disputado do planeta.

Do mesmo jeito que a derrota para Handerson não deveria ter embaralhado a cabeça de Varner, essa derrota pode umedecer, mas não deve embaçar os olhos de Barboza. Que entenda ter perdido para um atleta excelente que ainda vai derrubar tantos outros e que limpe a mente dos detritos e escombros causados pelas bombas de Varner em sua cabeça. Edson vai voltar melhor, tem que voltar melhor. E Jamie Varner vai voltar a fazer o que faz de melhor, descer e levar porrada no melhor WEC style.

Glover Teixeira VS Kyle Kingsbury

Demorou, mas Glover Teixeira finalmente nasceu. Enquanto quase a totalidade dos fãs só acompanharem o UFC e nada mais, o atleta precisa surgir por lá para validar o que faz na carreira. É uma injustiça poética que a finalização sobre o mediano Kyle Kingsbury tenha mais repercussão ao redor do planeta do que todas as suas 17 vitórias soberanas anteriores. Nem adianta reclamar. MMA ainda é assim, Há um jogo de fama, mídia e holofotes que ofusca a realidade mais do que ilumina. É o jogo. É o show. E só o que Glover fez foi brilhar mais uma vez, como vem fazendo há anos. Kyle, num dia onde os deuses do MMA não estejam de gracinha, não tem a menor chance contra a seriedade e agressividade sistemática do brasileiro.

Glover é um bom lutador. Sólido, calmo, bate forte, sabe chão. Não tem gracinha na pesagem, não tem gracinha no octagon. Seu estilo não tem firula nem gordura. Todo golpe seu visa terminar alguma coisa. Não dá espaço para o adversário respirar ou se sentir confortável. Mas apontá-lo como candidato ao cinturão de Jon Jones é mais do que inocência, é maldade. Glover vai dar muitas vitórias e lutas emocionantes para o povo brasileiro e fãs do esporte, mas não dá pra ele contra Jones. Nem hoje, nem nunca. Dunga foi um bom jogador, mas nem que treinasse e se dedicasse quanto quisesse, nunca seria Messi. E que não me entendam mal, Glover vai ser TOP 10 do meio pesado em um ano. E num peso com Rashad, Bader, Davis, Gustafsson, Shogun, Jones, Handerson, já é ir bem longe. Mas marcá-lo como candidato a tirar o cinturão do Jesus negro é como colocar o anel do poder no Senhor dos Anéis e atrair os olhares de Mordor. Não vai dar em boa coisa.

Kyle Kingsbury é um chato antes e durante a luta. Depois, não sei, porque vencer amarrando e sem emoção ou ser dominado sem reação, não me motiva a acompanhar sua carreira. Fez um desserviço ao MMA ao segurar no chão, por 3 rounds, Maldonado. O brasileiro que só tem uma função nessa terra, trocar porrada. Isso nos faz feliz e o deixa satisfeito. Qualquer um que o impeça de fazer isso, me irrita e o entristece. Kyle é um lutador sem ambição e perdeu por finalização para Glover, mas perderia de qualquer outra maneira. Não vai ser cortado por ter uma base enorme, sem trocadilho, de fãs GLS no EUA. E Glover, que mal chegou, já cria temores. Num MMA cheio de estratégia e quedas e estudos durante o round, ninguém quer encarar um cara que desce mesmo a mão na cara sem nada a perder e é bom de chão. Com a saída de Thiago Silva, Glover foi oferecido a Shogun que negou a luta. Compreensível da parte do ex campeão que não quer encarar um lutador com nível técnico de TOP 10, mas ainda ranqueado lá embaixo, e interessante para Teixeira que consegue mais uma finalização depois de entrar no UFC. Essa, de cunho moral.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

CRÔNICA 16 - O DIA DE DIAZ (publicada na Revista Tatame 193)


Seu rosto é tensão lacrada com zíper. Olhar é negro, pregado a marteladas no fundo da cara sob a sombra da testa franzida em mil degraus que levam a uma mente solitária. O nariz achatado despressuriza ódio. O queixo sempre proeminente anuncia intenção ruim, não está nem aí se vai esvaziar o lugar. Todo curvo, quase torto, mal feito. Se sorri, não é para vermos. Nick Diaz chega do inferno um dia antes de cada luta, no dia da pesagem ainda nem desfez as malas. Maconheiro, tri atleta, lutador, brigador, anti social, idolatrado, incompreensível de tão óbvio. É um cara qualquer, com erros medíocres e dilemas mundanos, um adulto em adolescência tardia,mas talentoso pra cacete. Simples assim. E vai rasgar quem o tentar segurar, vai sempre partir pra ganhar. Vai ser demais em cada segundo, exagerado em cada molécula. Vai ajudar a fortalecer o MMA se antes ele mesmo não se auto-sabotar.

Diaz é vintage, uma relíquia de tempos passados, empoeirado e raro. Um atleta que luta com o que tem no coração. Técnica, tática, estratégia estão submissas a emoção. Memória viva de um tempo tão glorioso que transformou o MMA em paixão mesmo quase sem apoio, com quase todo mundo cheio de mil razões ignorantes para torcer contra. Diaz é de uma linhagem de competidores praticamente extinta. Mais lutador que atleta, não vira a cara com medo do trauma, do rasgo, não quer ser modelo, não está no octagon com a cabeça nos dólares da campanha publicitária. Seu rosto é o escudo espartano que protege sua vontade, seu instinto primitivo de supremacia, e passo a passo vai empurrando o adversário para o desfiladeiro.

Sua carreira é instável, porque ele sempre é da mesma maneira. Seu comportamento é padronizadamente caótico. Cesar Gracie afirma não ter como realmente programar o treinamento de Nick, que precisa fazer as coisas de sua maneira ou não dá certo. Diaz sempre compete em triatlo, corre de madrugada ou faz natação, mas também sempre faz uso de entorpecente. Disciplina não é medida pela freqüência com que fazemos alguma coisa, e sim pelas vezes que a fazemos sem estar afim, por conta de um objetivo. Diaz tem disposição, preparo físico, coração, mas não tem disciplina. Esse é seu grande ponto fraco e o que faz genial. Perdeu para Condit porque se recusou a aceitar que estratégia faz parte do esporte, que andar para frente e se prontificar para a porrada é apenas a maneira mais emocionante de lutar, nem sempre a certa. E mesmo que tivesse vencido, perderia o cinturão por cair no doping pelo uso de maconha. Não importa. Seu destino não é ser campeão do UFC, é muito maior. É ser o elo perdido, o exemplo de como MMA pode ser emocionante sempre, sem ressalvas. Tática só é evolução esportiva se não matar o sentimento. Só tática sem show, vira xadrez, vira Georges St.Pierre. E é derrotá-lo é seu real objetivo nesse planeta. Desautorizar a burocracia. Desde menino problema, quase marginal que faz cara de mau até em foto de festa infantil, para campeão do WEC e STRIKEFORCE. Tudo é caminho para o dia D.

O dia vai chegar em que tudo fará sentido ou será em vão. Diaz vai brilhar ou será ofuscado pelos holofotes. Será capítulo na história do MMA ou nota de rodapé no capítulo de outro. Fará tremer sob sua sombra ou sumirá na própria escuridão. Fumar ou ser fumado por um baseado, eis a questão. Continuar tendo postura de rockstar transformando fãs em groupies, ou entender que é um ídolo sem querer e definir seu tamanho nesse esporte. Mostrar um caminho ou se perder nele. Ser grande lutador ou grandioso. Criar uma nova geração de admiradores ou ser coadjuvante da geração de St.Pierre. Passar o fim da vida trincando os dentes ou relaxar tranqüilo por tudo que conseguiu apesar de sempre ouvir que nunca ia conseguir nada. Encher um livro autobiográfico de desculpas esfarrapadas, ou completar seu destino e ironicamente sorrir, mesmo que nenhum de nós possa ver.

terça-feira, 6 de março de 2012

ANÁLISE: UFC 144 - Edgar VS Henderson


A torcida japonesa vaiou lutadores no chão, fez fiu-fiu para ring girl e gritou durante as lutas. Em 10 anos o Japão mudou e o MMA asiático também, mas qual deles para melhor? Eram urgentes apresentações emocionadas. Código de samurai, coração e honra que trariam glória mesmo sem vitória que incitaria o orgulho de sua nação. Isso não aconteceu. Se dependesse das grandes estrelas japonesas a sobrevivência do esporte no Japão, teria sido cometido haraquiri nesse UFC 144. Os atletas que deveriam ligar o desfibrilador para trazer o MMA de volta a vida, tropeçaram na tomada e forçaram uma eutanásia. Bem diferente das apresentações inspiradas e inspiradoras de quase todos os brasileiros nos dois eventos no Rio de Janeiro, os asiáticos tremeram que nem peixe recém saído d’água ao se apresentarem frente a sua torcida. Um evento comum vai medir se a Ásia ainda é realmente fã de MMA ou eterna viúva do PRIDE, porque se o público e mídia locais estavam esperando alguma coisa que os lembrassem de Fedor, Minotauro, Sakuraba, Wanderlei e outras mega estrelas em seu auge, tiveram suas expectativas fatiadas lentamente. O Saitama Super Arena já foi palco de momentos melhores.

Frankie Edgar VS Ben Henderson

MMA evoluiu e se desdobrou em muitas formas, mas a única que se mantém inalterada, ao redor da qual as mudanças dançam e se contorcem, é a emoção. Afirmar que sair trocando é o único modo de fazer a luta empolgante é desculpa esfarrapada de lutador de jiu-jitsu que não tem mais saco para ficar no chão. Da mesma maneira que Ben Henderson desmistifica a idéia que boa luta tem que acabar em nocaute ou finalização. Suas últimas 5 lutas foram todas excelentes e todas terminaram por decisão. E dois dos lutadores mais comprometidos com ataque, movimento e qualidade de todos os tempos colidiram nesse UFC 144. Se é verdade que foi uma boa luta, e não tinha como ser diferente, também posso afirmar que já vimos e iremos ver outras bem melhores esse ano. E se não foi o combate do século que o atrito de estilos e sonho dos dois previu, foi com certeza, um desfile de MMA do mais alto nível. De preparação física, estratégia, técnica, talento a coração. Não faltou quase nada nessa batalha ferrenha pelo cinturão dos leves, só pecou pela dose econômica do que sempre tem em exagero em suas lutas. A tal da emoção.

Foi uma boa luta, mas Ben e Frankie podiam fazer melhor. Fora aquele chute de Henderson no primeiro round que se pega arregalaria os olhos até do japonês mais rabugento e a pedalada no segundo, foram 5 rounds iguais. Tão quase desprovidos de real particularidade que me peguei olhando para o marcador digital todas as vezes em que revi a luta, para conferir o número do round. E revi a luta quatro vezes. Venceu Benson, mas poderia ter sido Edgar ou empate e o cinturão estaria em boas mãos do mesmo jeito.

Edgar é notável. O pressionarem para descer de peso é negar o que lhe faz tão incrível. Venceu Penn, Maynard e perdeu uma luta extremamente equivalente contra Henderson. Se os 3 maiores e melhores que o peso leve tem a oferecer mal conseguiram lhe fazer frente, imaginem os outros. Edgar pode voltar a ser campeão no peso ou descer. Que fique a seu critério, seu destino brilha tanto que ofusca a maioria. No leve, onde é minúsculo, cada luta sua é um exemplo comovente de superação, paixão, talento, esforço. Qualidades que a maioria nem possui, ele tem de sobra. No peso pena ele seria praticamente imbatível, no peso leve ele dá lições de vida. Ser grande é mais do que ser maior e a maioria que baixa o olhar para vê-lo passar também abaixa a cabeça em respeito. Edgar concedeu duas revanches imediatas para dois dos maiores da atualidade, e agora que perdeu, Dana White não quer lhe dar o mesmo direito. Justiça poética seria feita com Edgar VS Henderson 2. Seria o correto astralmente, fecharia a trilogia de revanches, mas ao mesmo tempo empenaria mais uma vez o processo de seleção natural desse que é o peso mais emocionante da atualidade. Torço para que aconteça o que Edgar preferir. Ele fez por merecer.

Ben Henderson é poderoso. Quantas ave Marias e pai nossos não deve rezar para purificar sua alma depois de descer tanta porrada nos adversários. Poucos são tão impetuosos e violentos como ele. Disciplina e talento vem em doses moderadas nos seres humanos normais. Se acomodam por aqui, dentro do cerebelo e do miocárdio confortavelmente. Mas em Bendo, são qualidades exageradas se espremendo para ocupar espaço que parece insuficiente. Tanto para tão pouco espaço que transbordam e seus adversários pagam o preço. Ben é um atleta perfeito sem espaço para gordura, frescura, fraqueza. Não tem excesso ruim. É uma coleção de influências, vontades e certezas tensionadas por uma cintura onde passam apenas nervo e coluna vertebral. Henderson é um dos maiores do mundo toda hora. Mesmo nas derrotas, é sempre o mesmo. Imbatível até que perde, e imbatível novamente depois que se ergue. Tem a sigla WEC carimbada em suas moléculas, show em seus movimentos, má intenção em seus golpes, fé em sua dor. Benson Henderson machuca antes de vencer, fere antes do fim. Se Edgar era um campeão respeitado, Ben será temido. Numa revanche Benson vencerá de modo mais contundente e partirá o coração juvenil de Edgar, que depois de Penn, Maynard e Ben, se lançará contra os joelhos de navalha de Aldo e será canonizado em algum estado do sul dos EUA.

Ryan Bader VS Quinton Jackson

Bader só tem duas derrotas na carreira. Uma para Jon Jones, que é café com leite nessa conta, e uma completamente eventual para Ortiz. Se lutarem mais 10 vezes Bader ganha todas. Mérito de Ortiz que venceu um dos jovens mais promissores da atualidade, mas um problema para quem achar que será fácil fazer o mesmo. Bader bate forte, tem queixo duro, excelente wrestling e pedigree. Raça que não tínhamos visto até então foi comprovada ao ser aparafusado de cabeça no chão pelo mestre da arte dos slams e, não só sair vivo ou sem alguma forma de paralisia, como continuar sendo superior e vencer a luta sem dificuldades. Ryan Bader não é carismático, não luta bonito, não tem talento para ser campeão e nem chegará perto, mas é um dos melhores da categoria e passará fácil por todos que subestimarem sua combinação de força física, disposição e pragmatismo.

Quinton Jackson já perdeu muito do que o fazia tão perigoso. Não tem mais sangue no olhar, não quer mesmo aquilo ali. Como percebemos em sua participação no filme Esquadrão classe A, é um ótimo ator. Tão bom que ainda convence alguns de que ainda se dedica aos treinos, que acha relevante o resultado das lutas e etc. Não me parece verdade. Claro que não gosta de ser derrotado, mas não é acometido pela dor de quem realmente anseia pela vitória. Jackson entra para ganhar dinheiro, sem magia, sem sonhos maiores. Virou um profissional sem alma do MMA. “Aquele cara que uiva”. Uma sombra tênue do grande lutador que á foi. Mesmo assim ainda é TOP 10 do meio pesado e melhor que Ryan Bader. Uma lesão no joelho o levou a prejudicar todo o treinamento e fazer uso de testosterona pela primeira vez na carreira. Entrou pesado, embaçado, parrudo, lento e sem o espírito do PRIDE que tentou evocar com a música durante sua entrada. Quinton fez o melhor que pode ou foi desleixado? Lutou pelos fãs ou por grana? É prepotência minha responder, mas fato é que mesmo mal preparado perdeu por pontos e teve chance de vencer. Jackson ainda pode fazer grandes lutas e ser relevante no peso se quiser, mas parece não querer.

Uma luta onde um agradeceu a sorte de faltar ímpeto vencedor ao outro. A um faltou por despreparo e a outro por não ter ambição. Dois clones táticos, wrestlers que seguram a luta em pé para boxear, fizeram uma luta quase sem boxe. Reticente e covarde. Um não querendo perder feio e outro com medo de por tudo a perder. Vencido e vencedor, os dois decepcionaram.

Mark Hunt VS Cheick Kongo

Se Kongo não fosse francês sua figura escura e assombrosa já estaria estampando os cartazes de divulgação de outro evento. Especialista em fazer lutas chatas, tem naquelas com fim abrupto as únicas divertidas. Seu estilo é tão comedido, tão obvio,que a luta precisa acabar rápido para não ser daquelas que levantamos para fazer pipoca. Quanto mais a luta dura, mais duro é de assistir. Tem na derrota para Mir e na vitória inexplicável sobre Barry as únicas lutas realmente empolgantes desde que começou sua carreira. Fora isso o que vemos é ser dominado sem esboçar reação por vários rounds, ou derrubar e amassar atletas de menos potência física ou expressão. Sua viagem ao Japão não foi de toda improdutiva já que nos presenteou com um nocaute rápido pelas mãos impiedosas de Hunt.

Hunt estava com a carreira paralisada quando entrou no UFC. Dana White afirmou não saber o que fazer com ele já que se tratava de um lutador limitado. Mas Hunt é mais ou menos como Thiago Alvez, se colocado contra um lutador completo terá poucas chances, mas contra um trocador vai dar show. Com a vantagem de que Hunt é realmente bom de trocação e não vai entregar o pescoço para uma guilhotina a segundos do fim quando está metendo a porrada em pé e vencendo a luta. Os mais novos nem devem saber, mas esse gordinho parafinado é um dos melhores trocadores de todos os tempos. Campeão do K1 e praticamente imbatível em pé. Venceu Kongo com a frieza de Hannibal Lecter fritando o cérebro da vítima ainda viva amarrada a cadeira. O octagon era pequeno demais para congo fugir. Deu um knockdown, parou e o esperou se levantar, tipo Jason, e mesmo caminhando lentamente alcançava o adversário que só corria. Bambeou Kongo com um soco em sua guarda fechada. Nem os dois antebraços do negão aguentaram o impacto, que saiu saindo meio de lado, meio Carlos Condit. Mas Hunt que não é Nick Diaz mostrou como se faz e o nocauteou sem a menor dificuldade. Só dá para trocar com Hunt com ajuda da sorte. E essa costuma servir para o adversário não sair de maca ou com lesões graves. Num mundo bizarro e inacreditável, poderia nocautear Barry, Struve, Roy Nelson, Shane Carwin e disputar o cinturão contra Overeem ou Cigano na maior trocação da história do peso pesado. Mas no mundo sem magia em que vivemos, vão colocá-lo contra Browne, Mitrione ou outro que irá derrubar e vencê-lo com facilidade.

Jake Shields VS Yoshihiro Akiyama

Akiyama foi finalizado por Leben que não sabe nem passar guarda, foi superado no boxe pelo limitado Bisping e caiu no chão sem levar nenhum soco de Belfort. Será que ninguém da direção do UFC vai tomar uma providência? Um lutador pode perder muitas lutas e ainda estar no evento por dar shows, motivar o público e essas coisas. Mas ser mantido após 4 derrotas seguidas em lutas desagradáveis é supervalorizar o apelo do atleta junto ao seu país. É colocar propaganda acima da realidade do combate, embalar o MMA a vácuo. Vou pedir dupla cidadania portuguesa e tentar um contrato junto ao UFC para defender a terrinha. Akiyama não lutou nada na frente de seu povo, não tem perdão. Se soubesse palavrão em japonês,o inseriria aqui nesse exato momento. Fez estritamente o mínimo que podia fazer sem chegar a parecer um lutador amador, mas foi o suficiente para vencer Shields. Por muito pouco. Por um fiapo de cabelo liso. Mas não foi isso que os árbitros laterais viram e deram a vitória para o americano. Foi garfado na terra dos pauzinhos. Honra e apatia se misturaram no discurso pós luta decorado de Akiyama, que parecia já saber ter poucas chances de ganhar. Vai continuar no UFC, mas merecia sair. Sua presença é um mau exemplo e desmotivante para tantos talentosos que merecem uma chance e não conseguem. Ou quando conseguem são sumariamente cortados como Rony Torres e Williamy Chiqueirim.

Jake Shields parece atendente de telemarketing. Deixa a alma no vestiário. Se o olharmos nos olhos veremos a nuca. Não tem nada lá dentro. Shields é tão lento que parece lutar dentro d’água. Cabeça grande, guarda baixa, mão de espuma. Tem em seu excelente jiu-jitsu que não consegue mais aplicar, sua mais letal arma. Lutou contra Akiyama como lutou desde que entrou no UFC: Mal. Para cada apresentação abaixo da média tem uma desculpa instantânea. Contra Kampmann afirmou ser o nervosismo da estréia e o corte de peso, contra GSP o nervosismo de disputar o cinturão no maior evento do mundo, contra Ellenberguer estava superando a morte do pai. Dessa vez deve ter sido a mudança de fuso. Fato é que vem sempre se apresentando de modo melancólico. Parece forçado a estar ali ou lutando para pagar a cirurgia de alguém. Shields não foi melhor que Akiyama, mas venceu. Levou duas quedas cinematográficas pontuando no placar 2 a 0 para o judô sobre o wrestling, mas andou um pouco mais para frente e forçou um pouco mais a luta. Se lutar assim contra qualquer atleta top 20 do peso meio médio, não passa do segundo round.

Yushin Okami VS Tim Boetsch

Tim Boetsch é um atleta esforçado, com grande poder de nocaute e nenhuma qualidade a mais. Não é particularmente forte fisicamente, bem preparado ou criativo. Sai pra trocar e se ficar difícil, tenta derrubar. Se não conseguir, continua trocando até um cair. E era ele quem estava para sucumbir quando Okami resolveu mostrar porque os atletas japoneses são o Botafogo do MMA atual, e entregou a luta no final. Sem motivo aparente, apenas amarelou para um adversário que vinha dominando e foi nocauteado. Tim conseguiu a maior vitória de sua vida e deve estar até hoje dando gargalhadas. Se alguns ainda se esforçavam para ranquear Okami entre os 10 melhores do peso, agora terão mais dificuldade para sustentar o argumento. Desmantelado com jabs por Anderson Silva e nocauteado pelo inexpressivo Boesch em sua terra natal, o asiático vai ter que comer muito sushi sem shoyo para voltar a ser relevante. Okami vai voltar para o limbo de lutas preliminares e main events sem importância de onde foi extraído para se apresentar no UFC Rio.

Anthony Pettis VS Joe Lauzon

Lauzon faz um pouco de tudo. Especialista em generalidades e esquizofrênico dentro do octagon, é capaz de dar knockdown em Melvin Guillard com segundos de luta e ser dominado no chão feito faixa branca, sem reação, por Sotiropoulos. Nunca sabemos que Lauzon se apresentará, mas é fato que nunca luta com a tenacidade de quem se leva a sério. Entrou achando que Pettis era Guillard, que daria para trocar, fazer uma graça para os fãs, provar que esse falatório a respeito do adversário é só papo furado da mídia, que aquele chute no último WEC contra Henderson é só firula. Acabou nocauteado, dormindo de olho aberto pra ver o tamanho das besteiras que vinha dizendo. Pettis é um dos melhores da atualidade. Completo, versátil, criativo, agressivo. Estreou mal no UFC com ajuda do arbitro Steve Mazaggati que deixou Clay Guida se debruçar sobre ele durante 3 rounds sem mandar levantar. Se fosse a mesma medida para Anthony Jhonson contra Belfort, o resultado da luta poderia ser bem diferente. Venceu claramente Jeremy Stephens, mas os árbitros deram apenas decisão dividida. Percebeu que dos homens de terno não virá admiração para seu show e resolveu sapatear na cara de Lauzon. Fingiu que ia chutar embaixo e meteu em cima. Simples e letal. Resumiu o texto cheio de blá blá blá da trocação em MMA com a genialidade dos ousados. Venceu e clamou por uma revanche contra Ben Henderson. Ele merece, mas Edgar merece mais. Pettis VS Edgar seria muito boa. Na verdade qualquer luta que envolva Anthony Pettis tem tudo para ser boa demais. Quando não é, é culpa do outro.

Takanori Gomi VS Eiji Mitsuoka

Eiji Mitsuoka é um lutador mediano. Tivesse se aventurado no mercado americano ao invés de se entregar ao circuito fechado do Japão, já teria abandonado a carreira. Entrou nesse UFC para apanhar e fazer a estrela de Gomi voltar a brilhar. É um mistério como não apenas foi melhor que seu adversário superstar no primeiro round, mas dominou em pé e no chão. Passeou pela terra arrasada da psique do ex fireball kid. Gomi desenvolveu o habito de ler Nietzsche antes de entrar para lutar. Deve ter confundido com livro de auto ajuda já que sua moral e carreira andavam em baixa. Takanori entra para triturar e no primeiro soco que passa zunindo perto de franja, começa a filosofar e questionar sua existência e função nesse universo. Com 5 derrotas nas últimas 8 lutas, tinha que vencer essa. Menos pela luta ser no Japão e mais pela qualidade inferior do adversário. Antes de querer salvar o MMA em seu país tinha que salvar e si próprio. Apanhou, quase foi finalizado e retornou mudado para o segundo round. Quase como se voltando de longa de descoberta espiritual. As porradas e a chave arrochada que levou desparafusaram alguma coisa em sua consciência e voltou a ser ele mesmo. Gomi era um trocador desmiolado e fantástico. Um gênio louco. E com pedaços seus largados no canto do corner, ficou mais leve. Deixou o escudo, o capacete e veio veloz. Atacou, intimidou, predou e venceu. Gomi finalmente estreou na organização no segundo round do UFC 144. Gomi lutando assim, despudorado, prepotente, desrespeitoso, desmantela a maioria dos que pararem em sua frente. O Gomi que vinha se apresentando medroso, filósofo, cheio de dramas e dilemas, vai ter nessa um oásis de vitória num mar de derrotas que virá.

Kid Yamamoto VS Vaughan Lee

Lee foi mais um adversário escolhido a dedo para permitir vitória sem muitos percalços da estrela do país. Mas Kid Yamamoto, outrora um dos melhores que caminhou sobre a terra, tornou-se medíocre. Com 5 derrotas nas últimas 6 lutas, simplesmente arruma sempre um modo de perder. Parece que desenvolveu instinto masoquista ao longo desses anos todos. De tanto ganhar, começou a desenvolver paixão bandida por perder. Kid disse vir escondendo uma lesão em suas últimas lutas que o prejudicou. Entrou 100% nessa e lutou ainda pior. Era uma máquina de lutar. Qualidade, esperteza, velocidade, explosão distribuídas de modo industrial, sem falhas, sem descanso. Nunca estava de bobeira, sempre atento, sempre querendo ser o melhor do mundo. Ambicioso e com coração e talento para agüentar o tamanho dessa prepotência. Não é mais nada disso. Kid parece estar sempre a um jab de distância do nocaute, a um arrocho da finalização. Tentei entende-lo e não consegui, não tento mais. Perdeu uma luta que vinha ganhando porque não consegue mais superar nenhuma adversidade. Parece mimado, em carne viva, magoado. Qualquer coisinha é muito. Lee sorveu do delicioso fruto que só saboreiam os perseverantes e conseguiu a maior vitória de sua vida.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ANÁLISE: UFC 143 - Condit VS Diaz


Esse UFC 143 começou fantástico e terminou melancólico. Lá no fundo do abismo das preliminares, quando nem todos os holofotes foram acesos e a pipoca ainda nem ficou ponta, lá na primeira luta que muitos nem vêem porque não chegaram em casa ou no estádio, explodiu uma supernova no chute Stephen Thompson, um dos strikers mais fantásticos do planeta, invicto e convicto de já ser um dos melhores sem ninguém ainda saber. Enquanto no evento principal duas estrelas não foram suficientes para emitir o menor brilho. O eterno dilema de tática VS. raça, estratégia VS. coração tem um de seus capítulos mais polêmicos imortalizado no tango de Diaz e Condit. Um dando passos pra frente, outro dando passos pra trás, bailando num ritmo nada eficaz e muito longe do que cada um é capaz.

Carlos Condit VS Nick Diaz

Ir dormir às 4 da manhã frustrado por uma péssima luta entre dois dos maiores do mundo pode encher nossos corações de idéias vis e depreciativas, mas em nome da razão devemos tomar as rédeas desses sentimentos. Afirmar que Nick Diaz só quer trocar porrada e luta como brigador de bar, ou que Condit correu do combate, são duas afirmações inverídicas e ingratas. Só quem entende o que vê, compreende o que sente. Condit tem 28 vitórias, 26 nocautes ou finalizações e Diaz 26 vitórias, com 21 acabando antes do tempo regulamentar. São dois dos lutadores mais agressivos que esse esporte já produziu e vão continuar no topo, ganhando bônus de luta, nocaute ou finalização da noite. E teria sido essa uma luta incrível não tivesse Condit resolvido usar da maldita estratégia. Podia ter partido pra cima, para troca franca e tinha grande chance de vencer, mas optou por seguir a risca o plano, matar o improviso, sacrificar a alma fervente do combate em troca de uma fria vitória. Tudo isso é verdade e mesmo assim, foi o claro vencedor do combate. Em um esporte com regras, podemos criticar quem se atém a elas de modo justo e sem criatividade, mas não desmerecê-lo. Dentro dos critérios de avaliação vigente em MMA, Carlos venceu.

Nick Diaz nasceu para o combate. Não gosta da fama ou entrevistas, odeia o adversário para amar lutar. Se você sangrar, ele fareja, se fizer ele sangrar, entra em frenesi. É uma criatura unilateral, um ídolo improvável e relutante, um dos poucos defensores de um estilo antigo de lutadores que caiam dentro mesmo, sem plano B ou C. Treinam de tudo e vão pro pau. Apanha, bate, da show, mancha a lona, rasga a carne e vence muito mais do que perde. Não desenvolveu o falso respeito pelos atletas companheiros de trabalho que tanto mata a sinceridade das declarações hoje em dia. Foi posto nesse mundo para vencer St.Pierre, é seu destino, ele sabe, nós sabemos. Mas tinha uma pedra no meio do caminho.

Carlos Condit é elite. Tem plano de A a Z e frieza e disciplina de samurai. Entende que para chegar a um objetivo primeiro deve se conhecer os vários caminhos, e a diferença entre certo ou errado, covarde ou ousado, pode estar no resultado final. Não desestabiliza mentalmente, não perde o foco. Mesmo em silêncio ou movimentos laterais sua katana está sempre meio fora da bainha. São os outros que tendem a se desesperar em sua aparente indiferença que costuma vir seguida de soco na cara e nocaute.

Uma pequena coisa impediu dois dos trocadores mais agressivos e incansáveis, no momento mais próximo da realização de seus sonhos, de protagonizarem uma luta inesquecível: estratégia. Diaz aceita a troca, abaixa a guarda, chama pra dentro, aceita a luta de solo onde é incrível, mas tem dois defeitos que nunca pensou em corrigir. Dificuldade em encurtar e em derrubar. Quase todas as lutas que vence, ou o adversário aceitou a troca franca, permitindo assim que ele se aproximasse e dizimasse, ou o derrubou para evitar o pau e acabou finalizado. Para Greg Jackson foi um código fácil de quebrar. Era só manter a distância que Diaz não conseguiria se aproximar para ser letal e muito menos derrubar. O mais difícil era fazer Condit, que só luta andando para frente, aceitar e conseguir ser eficaz andando para traz. Algumas pessoas tem dificuldade em abrir a mesma porta só porque mudou a maçaneta, imagine alterar todo o estilo de luta para um combate. Tem que ser extremamente talentoso, de várias valências técnicas e com muita disciplina para executar um plano assim. E é isso que um “natural born killer” faz. Estuda a presa e executa. A história é contada pelo vencedor.

Muito da crítica a sua performance vem por não ter se chocado com Diaz no meio do octagon até um cair. Lembro que Sugar Ray Leonard e Muhammad Ali, dois dos maiores boxers de toda a existência, lutavam caminhando para trás. Chuck Liddell e Lyoto Machida, também. Caminhar para trás é apenas uma opção de movimentação. A diferença entre fugir ou evadir está na eficácia dos contragolpes. Kalib Starnes correu a luta toda de Nate Quarry. Fugiu dos golpes e não desferiu nenhum. Era um tentando bater e o outro tentando não apanhar. Quem acha que viu isso em Condit VS. Diaz deveria rever a luta, e se ainda achar a mesma coisa admitir que sofre de avançado caso de amor platônico. Condit desferiu 159 golpes (acertou 151). Desses, alguns foram joelhadas voadoras, cotoveladas giratórias e um chute na cabeça que só não apagou Diaz, porque Diaz nunca apaga. E isso porque foi elusivo o tempo todo, porque evitou o combate, imagine se tivesse atacado. Diaz desferiu menos golpes e acertou menos (117/105). Desmerecer o ex campeão do WEC é tirar o mérito do ex campeão do Strikeforce.

Uma luta dessa importância e tão complicada de julgar polariza as torcidas. Diaz entrou e foi pra cima, como sempre faz, foi predador, irracional, um animal, uma fera selvagem. Condit foi caçador, calmo, racional. Na tentativa de provar sua opinião a correta, muitos buscam suporte na opinião de outros. Anderson Silva achou que Diaz ganhou, mas Anderson também achou que Minotouro venceu Bader. O pessoal envolvido no jiu-jitsu tende a apoiar Diaz, apesar de Diaz ser basicamente um striker atualmente. Intrigante. Lembro de Vitor Belfort após vencer o torneio do UFC nocauteando Tra Telligman e Ferrozo, gritar de todo pulmão: jiu-jitsu! Fato é que aquele que andou para trás desferiu mais golpes, acertou mais golpes contundentes, diversificou mais os ataques e feriu mais o adversário. Diaz não conseguiu fazer nada do que planejou, Condit fez exatamente o que queria. Vitória da estratégia e derrota da emoção.

Há um ditado japonês que diz para tomarmos cuidado com o que desejamos, porque pode virar realidade. Diaz adoraria uma revanche, mas se Condit entrar com os gametas fervilhando de ódio e partir pra cima, são grandes a chances de Diaz só poder reclamar do resultado quando acordar na cama do hospital.

Torci por Diaz porque acredito que é o único com chances reais de desmoralizar Georges St.Pierre e aplacar de vez a tentativa do canadense transformar MMA em álgebra. Mas a minha torcida por um jamais me fará fechar os olhos para o mérito do outro.

Diaz e seus admiradores afirmam que ele é um lutador de verdade e que entrou para lutar, diferente do adversário, mas desmereceu o campeão ao final. Lutador de verdade é mais do que aceitar porrada. Quem aceita porrada é porradeiro, raçudo. Lutador de verdade tem disciplina, respeito pela arte que pratica, pelos mestres que teve e por aqueles que o superam sem trapaça. Se o adversário é um covarde, pior para Diaz que não vence nem um covarde preso com ele numa jaula por 25 minutos. Entrou, teve performance de grande lutador, mas saiu como moleque. Choramingando e dizendo que não brinca mais. Pelo esforço todo, merecia pelo menos um bom bom e uma medalhinha de honra ao mérito, porque o cinturão está nos ombros de Carlos Condit e lá vai ficar.

Fabricio Werdum VS Roy Nelson

Tem um certo azedume toda análise minha das lutas de Werdum. Nunca pareceu astralmente justa sua vitória sobre Fedor Emelianenko, apesar de cheia de méritos. Um lutador mediano não deveria ser o escolhido pelo destino para mancar o galope imbatível do maior de todos os tempos. Ou talvez esteja sendo poético demais, e Werdum tenha apenas colhido os frutos de treino e dedicação enquanto o russo se apresentava gordo e obsoleto. Fato é que passou de um incrível lutador de chão com uma trocação medíocre escondida atrás de mãos pesadíssimas e se jogar no chão para fugir dos golpes de Overeem no Strikeforce, para trocação refinada e brutal em uma luta. De sua última para essa contra Roy Nelson, vimos versão extremamente melhorada de contundência em pé. Seu treinador Rafael Cordeiro transformou o canivete em baioneta. Apertou os parafusos de seu boxe e lubrificou o encaixe de seu muay thai. Werdum lembrou Wanderlei Silva como se grampeia uma nuca e desce o joelho. Só não venceu por nocaute no primeiro round porque Nelson gosta de apanhar. Se não gostasse teria urrado de dor e entregue o combate. Apenas raça não é suficiente para agüentar esse nível de punição sem chance de fuga.

Roy Nelson é um péssimo exemplo. Tem vários fãs que se identificam com sua barriga e jeito desleixado, mas isso não é bom para o esporte. Obeso, lento, não consegue colocar em prática seu jiu-jitsu por perder em movimentação para quase qualquer adversário, e não consegue aplicar com eficácia sua pesadíssima mão, por não ter aceleração. Resta fazer uso de seu super poder masoquista de agüentar dano indefinidamente. Até esboçou lutar por cima de Werdum, mas ter o braço quase estalado o fez mudar de idéia.

Se é verdade que Werdum traz novas qualidades, também é que arrasta os mesmos defeitos. Seu gás acaba antes do fim do primeiro round e é extremamente econômico na ousadia. Assim que acha que está na frente por pontos, para de agredir. Se joga no chão e caminha sem desferir golpes nem em contra ataque. Foi necessário um segundo round parelho contra Roy para que resolvesse voltar a lutar no terceiro. Se Werdum fosse sempre como é nos primeiros 3:43 minutos de cada luta, seria um dos mais perigosos do mundo. Uma luta sua contra Frank Mir lhes cairia bem. Para Roy não há nenhum caminho claro. Descer para o meio pesado poderia ser bom para sua carreira e diminuiria suas chances de sofrer um micro enfarto fulminante.

Renan Barão VS Scott Jorgensen

Renan Barão só tem uma derrota e faz tanto tempo que nem se lembra, mas seu sangue é real e seu destino é ser campeão, seja no peso galo ou no mosca, caso não supere a genialidade e demência de Dominick Cruz e tenha que descer. Ele encontrará um caminho. Teve uma apresentação apenas mediana e mesmo assim tirou o ultra competitivo Scott Jorgensen pra figurante. Ombros fechados, socos em linha, chutes invisíveis de velozes e jiu-jitsu na ponta da navalha. Barão é demais para quase qualquer adversário do seu peso.

Jorgensen fez o que pode, mas Barão pode tudo. Foi melhor na trocação e no chinch. Venceu sem grande esforço um dos melhores que o peso tem a oferecer. Com os dois únicos capazes de lhe incomodarem já com luta marcada, Cruz Vs Faber, vai passear sobre outro adversário que o UFC ache digno e avançará sobre o cinturão no final de 2012. Scott deveria descer e tentar se reinventar no peso mosca, ainda bem carente de estrelas.

Matt Brown VS Chris Cope

Até essa luta Matt Brown vinha de 4 derrotas em 5 combates. E mesmo finalizado em todas, continua de contrato ativo no UFC. Agora entendo bem o epelido “the immortal”. Significa: “amigo de Dana e Lorenzo”. Deve levar o peru na ceia de Natal, namorar a filha de um deles ou saber um segredo sinistro, não consigo achar outra explicação. Um lutador sem carisma e de qualidade questionável como esse figurar no evento, me faz questionar a suposta idoneidade dos organizadores ao afirmar trazer e manter os melhores do mundo. Brown pode pegar qualquer um, não importa o resultado. Ele sempre estará lá.

Cope entrou para apanhar. Com cartel de 5 vitórias e 3 derrotas já pode lutar por algum cinturão nos atuais eventos do Jungle Fight.

Alex Caceres VS Edwin Figueroa

Alex Caceres tem estilo, troca com categoria e precisão, tem um chão afiado, mas alguma coisa em seu sistema força a reinicialização toda hora. Não consegue dar seqüência. Em quase toda luta arruma um modo de parar de fazer o que vinha fazendo bem, ou continuar fazendo o que não vem dando certo. Nesse caso foram dois chutes direto no apito de plástico do adversário, pelos quais foi punido com a perda de 2 pontos. Um para cada filho que Figueroa jamais terá. Herrera e Gonzalez jamais nascerão.

Chutes internos causam extremo dano, tanto na musculatura da coxa quanto ligamentos do joelho, mas são de alto risco. Meses de treinamento com atleta de tamanho ou base ligeiramente diferente do oponente, pode fazer o golpe entrar em cheio no lugar errado. Cabe a quem desferiu mudar de tática antes de ser considerado infrator. Cáceres insistiu no erro, como sempre faz, e perdeu como adora perder. Assim, de modo besta. Quase sem merecer, quase sem mais nem menos.

Figueroa foi pior, mas mereceu vencer, Cáceres foi melhor e mereceu a derrota. Jamais conseguiria imaginar um combate que justificasse tal lógica. Figueroa ainda vai melhorar muito. É jovem e luta bem quando não está quase paralisado da cintura para baixo e Caceres vai sumir num mar de lutadores cheios de talento e sem disciplina.

OBS: Muitos estranharam Caceres ser punido com a perda de 2 pontos. Quando um atleta é advertido por um golpe ilegal que o juiz acha não ser intencional, na reincidência, perde 1 ponto. Quando o juiz considera que os dois golpes foram intencionais, tem liberdade para descontar 2.

Stephen Thompson VS Daniel Stittgen

Firas Zahabi, treinador de GSP, afirmou que Stephen é o melhor trocador do planeta, independente de esporte. O lobby é forte para o menino, e Firas é conhecido por dar esse suporte moral, por vezes exagerado a seus atletas. Mas fato que houve lampejos violentos de grandeza em sua breve apresentação nesse UFC 143. Guarda baixa, leve, quase sem tocar o chão, silencioso, letal, tão tranqüilo que parece frágil. Com mais de 40 vitórias e nenhuma derrota em kickboxing e invicto em MMA, Stephen erradicou seu primeiro adversário na organização. Dá um soco, abaixa a guarda, espera o contra golpe com os olhos abertos, a expressão relaxada de quem prevê o futuro, espera o alcance do adversário limitar o punho a milímetros de seu nariz para elevar a perna e nocauteá-lo com um tapa de pé na têmpora. Se com os punhos chamaríamos de overhand, podemos dizer que foi um overfeet. Contemplou o adversário cair com seus olhos que captam o universo em câmera lenta, e depois de milênios na sua contagem de tempo, deu um salto girado no ar e repousou de joelhos. Ninja Gaiden.

O UFC deve lhe oferecer para espancamento outro atleta de baixo nível como Stittgen, vindo de organizações menores, porém sem real pedigree. Precisa de tempo para amar MMA e desenvolver defesa de queda e luta de solo, não para misturar tudo e virar um hibrido sem alma, mas para poder se manter em pé, onde nasceu para estrelar e de onde ainda vai dar muitos espetáculos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ANÁLISE: UFC on FOX 2 - Evans VS Davis


O primeiro UFC na FOX teve Cigano se sagrando campeão e o espancamento de Guida pelas mãos cheias de fé de Ben Henderson, mas foi um evento não previsto no contrato entre emissora e Zuffa. Quase um bônus. Foi tentativa de aproveitar o fim de ano para calibrar transmissão que costumeiramente se desenvolvia no espaço elástico do pay per view. Agora necessitava de sincronia perfeita entre FOX, FX e Facebook. Tempo de lutas, nova vinheta, tudo tinha que se encaixar justo e tomar formato de programa de ponta em uma das maiores emissoras dos EUA. Contratualmente esse UFC foi o primeiro evento programado, com 3 lutas no card principal transmitidos pela FOX. E se tudo foi perfeito no ensaio ano passado, agora as coisas não se desenrolaram de maneira tão suave num exemplo prático da sabedoria de botequim de que “treino é treino e jogo é jogo”. Não adianta luz, câmera, sem ação. Efeitos especiais, divulgação, belas ring girls, bravatas na coletiva de imprensa ou o melhor announcer do mundo, nada é mais importante do que acontece dentro das 8 grades. Lá MMA surgiu e é lá dentro que pode morrer. A questão lúdica que povoa nossa cabeça desde criança de saber quem é o melhor lutador do mundo nos mantém acordado tantas madrugadas, esperando atletas que dedicam sua carreira ao combate nos darem resposta com violência, coragem e talento. Muito pouco disso vimos nesse UFC on FOX 2, que mesmo assim teve facilmente mais pontos de audiência do que qualquer outro programa no horário entre homens de 18 a 49 anos. A questão é quantos desses ao assistir MMA pela primeira vez na forma de 11 rounds melancólicos em 3 lutas do card principal, repetirão a dose. Muito do que Cigano construiu com uma mãozada ano passado, Evans, Davis, Sonnen, Bisping, Maia e Weidman destruíram sem a menor vergonha.

Charles do Bronx’s VS Eric Wisely

Geralmente começo a análise pela luta principal, mas me sinto pressionado pelo bom senso a abrir uma exceção. Num evento estéril, com gente ganhado milhões para falar besteiras nas entrevistas e lutar pouco, é emocionante ver um atleta genuinamente talentoso, ainda puro em sua intenção ininterrupta de vencer. Sem falar dos outros, sem pensar demais, sem hesitar. Charles Oliveira vinha de três lutas sem vitória. Derrotas pelas mãos de dois dos melhores do mundo e um no contest, por conta de joelhada ilegal em Nik Lentz. Quase qualquer lutador vivo entraria nesse quarto combate com o pé acorrentado a pedra da precaução. Daria dois passos pra trás e um pra frente. Mais jabs que uppers ou diretos. Controlaria mais no chinch do que tentaria derrubar, e se derrubasse, passaria a guarda e daria uns cascudos ao invés de ir para finalizar. Do Bronx’s não fez nada disso. Na verdade nunca faz nada do que achamos que vai fazer por isso é imprescindível para o esporte. Perdendo ou ganhando luta com alma. Como um coração enorme consegue bater espremido dentro de uma caixa torácica tão achatada, deixo para as máquinas de raios-X entenderem. Fato é que parece lutar por muitos e outros como se não lutassem por nada. Quer demais enquanto para outros, tanto faz. Entrou, atacou, viu uma panturrilha e finalizou. Simples assim. Se pega pé no rola, vai ver um na hora decisiva e deixar passar por quê? De que adianta nocautear os companheiros de treino e não dar soco com medo de perder a montada na luta, como tantos fazem? Bronx’s luta da maneira que pratica, que vive. Ele existe assim, em uma forma só, sem máscara, sem dúvidas. Enquanto tantos nesse card lutaram querendo ganhar, ele lutou para ganhar.

Eric Wisely é um lutador mediano. Não podemos afirmar que Charles venceu alguém relevante, mas os grandes fazem assim. O Barcelona joga bem mesmo contra adversários ruins. Os melhores fazem o incrível sempre, não se escoram na incompetência do adversário para justificar mediocridade, brilham mesmo sobre o apagado, bailam sozinho, cantam a capela.

Pequeno no peso leve ficou gigante no pena. Alto, longo e ocupando menos espaço que antes vai prensar ali dentro toda tática, genialidade, força, velocidade e foco que já faziam dele um dos mais promissores. Vai comprimir nêutrons e prótons, vai explodir na cara do adversário. Móvel, versátil, ataca de todos os lados pra pegar ou machucar. Vai ser líquido enquanto os comuns são sólidos. Num peso onde podia ser jogado de um lado para o outro como um boneco de pano, só foi perder para dois TOP 10. Tomou a melhor decisão de sua vida ao descer de peso e se tornar a única real ameaça a José Aldo. Charles do Bronx’s é pessoa simples, direta, sem frases de efeito, ameaças e coisas que ajudem a promover a luta. É um menino quase sem graça até. Mas dentro do octagon seus passos deixam traços de pó pirlimpimpim.

Rashad Evans VS Phil Davis

Evans e Davis se enfrentaram para decidir o próximo a desfrutar do direito masoquista de ser desmantelado por Jon Jones. Antes da luta, tinha certeza que nenhum dos dois, apesar de extremamente talentosos e bem preparados, carregava chance real contra o campeão, mas depois de 5 rounds sem força ou ímpeto vencedor, a certeza é de que qualquer um deles será humilhado.

Phil Davis venceu com facilidade Minotouro e Gustafsson, que se enfrentarão no UFC Suécia, mas nem assustou Rashad Evans. Cansou rápido apesar de ser um atleta de ponta e adepto de um dos mais exigentes regimes de treinamento. Com preparo físico estelar, parecia drenado ao final do primeiro round. Sem resistência cardiovascular. Laranja sem suco é só bagaço. Parecia exaurido pela importância da luta, da transmissão em emissora aberta, coisas fora da parte física. Porque a luta em si, apesar de várias esgrimas cansativas de wrestling, não exigiu de nenhum dos dois mais do que poderiam facilmente oferecer. Parece que amarelaram sincronizadamente e estrelaram um dos mais deprimentes eventos principais de todos os tempos. Ah! Que saudade de Munhoz Vs Leben.

Evans vem lutando pouco nos últimos anos, seja por lesões suas, seja por ter optado esperar determinados adversários se recuperarem de suas próprias lesões. Fato que seu corpo e preparação nunca mantém a mesma qualidade por dois combates seguidos. Pode estar com gás infinito contra Jackson ou esbaforido na metade do segundo round contra Davis. Muito tempo parado, muitos recomeços, o corpo sente de alguma forma. Lutou uma vez em 2009, duas em 2010 e uma em 2011. Apenas quatro lutas em três anos. O veterano e teoricamente aposentado Matt Hugues vem lutando com mais freqüência.

Rashad é um atleta incrível. Um dos maiores do mundo com facilidade. Poderia descer para o peso médio onde seria assustador, mas alguma coisa no somatório de suas habilidades não encaixa. Tem tudo, mas falta alguma coisa. Bom de boxe, mão pesada, incrível em quedas e defesa de quedas, eficaz em jiu-jitsu, poderoso ground and Pound, mas simplesmente não consegue mais ser contundente. Não consegue mais ferir a maioria dos adversários. Pegou tudo que poderia fazer dele um nocauteador nato, um dos mais amados e admirados, juntou numa gororoba de quedas e controle, sem emoção ou contundência. O Rashad antigo, aquele que nunca se imaginou campeão de alguma coisa, que ouvia que não era bom o suficiente, esse sim, dava o queixo, caia dentro, nocauteava, quebrava e vencia. Depois que cismou que só vale a pena ser campeão, acreditando piamente que o segundo é o primeiro dos últimos, aprendeu a manter a distância, transformar cada round em um campeonato de wrestling e cada momento no solo numa competição sem pano.

Evans é um dos mistérios do MMA. Comentarista convidado da ESPN live, campeão do TUF e do meio pesado, é vaiado até contra lutadores de outras nacionalidades, como foi o caso de quando defendeu seu cinturão contra Lyoto. O próprio declarou que recebe muito carinho dos fãs fora das lutas, mas no octagon e em pesagens, não importa contra quem, vença ou perca, as vaias virão. E tendo esse som como trilha sonora de sua vida, deu motivo até para seu fã mais ardoroso dar uma vaiadinha nesse UFC on FOX 2. Comedido, econômico, abusou do excesso de experiência, timing e controle de octagon e venceu sem sustos para ele ou emoção para nós. Disse ter dificuldade em se concentrar nessa, quando é apenas a luta pelo cinturão que tem na cabeça. Caiu no bueiro andando em direção ao restaurante. Venceu tranquilamente um dos atletas mais naturalmente explosivos, condecorados e muscularmente preparados do esporte, mas fez tão sem garra que pareceu irrelevante. Daqui a dois anos é que teremos real medida da qualidade de Phil Davis. O ponto a ressaltar é que Evans desperdiçou a chance de meter o pé na porta do saloon antes de atirar no xerife. Era o momento de acertar um mata cobra emocional em seu desafeto, Jon Jones. Mostrar que está em Kill Bill mode, com os nervos pinçados pela vingança, fazer o imbatível adversário tremer frente a sua raça e sentimento, qualidades que costumeiramente encontram brechas na armadura do talento. Colocar na confiança inabalável do campeão alguns farelos de receio. Nada disso Rashad fez. Verdade que em MMA tudo pode acontecer, mas essa improbabilidade não tem permissão para adentrar o reino de Jones. Lá, ele sempre vencerá. Rashad já perdeu.

Chael Sonnen VS Michael Bisping

Dana White afirmou que Sonnen e Bisping são os dois lutadores mais odiados do planeta. Na verdade são os dois mais farofeiros, ou como diziam na época da vovó: “fala - baratos”. Perceberam rapidamente o fascínio que palavras malditas, ofensas e falsas rivalidades geram sobre o atleta. Criando uma aura de interesse que vai além da habilidade, levando fãs a acompanhá-lo como um BBB ambulante, atrás de novas declarações e torcer para vê-lo apanhar e ser punido por tais injúrias. Nada exclusiva dos dois, essa tática funciona para qualquer lutador, de marmelada na saudosa época de Teddy Boy Marino até o morto-vivo K-1. Todos querem ver o que vai fazer aquele que falou demais. Isso vale para vender pay per view, aumentar o número de retweets, divulgar a luta, mas na hora que o portão fecha o que conta é performance. E eles que vinham de bons momentos, resolveram fazer tudo diferente no UFC on FOX 2. Quando os holofotes foram acesos, correram para a sombra. Seguraram golpe quando era para nocautear, socaram sem força quando era para machucar. Venceu um, mas poderia ter sido o outro. Uma luta equivalente e desprezível.

Bisping lutou bem. Talvez melhor do que lutou sua vida inteira, mas sua quantidade de talento é diminuta demais para fazer frente a um atleta de real alto nível. Não tem contundência, não tem pressão, mas teve vontade e coragem. Muito mais do que seu adversário que tanto falou. Bisping teve sua melhor apresentação no UFC e Sonnen uma das piores, mas isso foi suficiente apenas para manter o equilíbrio em uma luta que já parecia decidida. De tanto falar qualquer coisa e perceber que as pessoas acreditam, Sonnen resolveu acreditar nas pessoas e encarou Bisping como se fosse luta fácil. Partiu para cima para derrubar, despedaçar e não conseguiu. Se levarmos em conta que Bisping vinha se preparando para um lutador de jiu-jitsu que jamais tentaria derrubá-lo, foi desmoralizante Sonnen ter quase todas suas investidas neutralizadas. Venceu claramente o terceiro round, mas os dois primeiros poderia ter vencedor decidido no par ou ímpar. Nenhum tentou um pouco mais, nenhum realmente se expôs. Um venceu e vai fazer sua dita sonhada revanche contra Anderson, outro perdeu e continuará sendo divulgado como estrela do MMA por ser o maior representante da Inglaterra.

Se Sonnen conseguiu ser descabelado pelos socos de mão de bicho de pelúcia de Bisping, não agüenta um jab/direto de Anderson Silva. Acho que ao derrubar o adversário pela primeira vez e ver a chance de descer a mão, quebrar o atleta inferior, coisa que apesar de ser especialista mal fez nessa luta, sentiu uma pontadinha lá no fundo de sua consciência. Tal qual o rasgo de uma mini estrela ninja. Uma gotícula de razão no mar de provocações e impropérios que vem proferindo faz anos. Se deu conta que um soco bem dado no inglês poderia ser nocaute e carimbo de sua passagem para o Brasil, onde teria que compensar o cheque que sua boca passou mesmo sabendo não ter fundos. Talvez tenha passado a luta inteira numa espécie de: “ai meu deus, e se eu ganhar?” que tirou sua conhecida agressividade e força nos punhos. Tentou derrubar sem vontade, e não conseguiu, bateu sem pressão e não machucou. Se tivesse pênalti, pedia pra não chutar. Sonnen amarelou para Anderson antes mesmo do contrato ser assinado. Seu sonho real não era uma revanche. Era perder essa luta, dizer que o resultado foi controverso e passar mais um ano falando besteira e ganhando milhões com patrocinadores. Anderson Vs Sonnen é luta que todos os habitantes do planeta Terra que já ouviram falar de MMA realmente queriam que acontecesse, com exceção de uma única pessoa: Chael Sonnen. E como sou afeito a sabedoria popular, deixo aqui transcrita a frase que vai lembrar até o fim de seus dias: “Uh! Vai morrer!”.

Demian Maia VS Chris Weidman

Um lutador que podia ser incrível, mas optou por ser mediano, e um dos mais promissores jovens da atualidade com apenas 11 dias para se preparar, protagonizaram uma luta arrastada durante três particularmente longos rounds. Seja porque o veterano via nessa a última oportunidade de se aproximar do cinturão, seja pelo mais novo não ter o que perder, os dois tinham o compromisso ético de fazer desse um combate movimentado. MMA que tantas vezes no surpreende, dessa vez nos pregou uma peça.

Luta a luta Maia incorpora alguma coisa diferente ao seu jogo, mas não evolui, apenas muda. De fantástico e temido no solo, a lutador que faz de tudo para se manter em pé e boxear sem jabs ou precisão. Quem o convenceu a trocar chão perfeito por socos de baixa qualidade, não é apenas um mal mentor, é pessoa com lábia para ter uma seita religiosa. Demian se lança em trocações como se pagasse alguma promessa. O que seria excelente arma para atrair até a emboscada, amaciar o oponente e abatê-lo sem piedade no solo, virou uma lente difusa. Maia que nos mostrou ter perdido o ajuste em posições básicas de jiu-jitsu na luta contra Munoz, agora dá sinais de que nem mais ali que estar, se esmerando para voltar de pé assim que se vê na horizontal. Vive amor platônico pela nobre arte e está sendo incinerado pelo sentimento. Vai ser queimado por essa paixão bandida que já fez tantas vitimas: Minotauro, Couture, Sakuraba, Hughes e outros mestres em misturar, que se encantaram pela separação. Agarraram uma arte e esnobaram as outras. Ingratos. Foi o começo de tantos fins e seu não é diferente. Parece o português que se mudou para a Alemanha, não aprendeu alemão, esqueceu o português e acabou mudo.

Weidman é melhor do que vimos. Sua trocação estava mole e sem ajuste, coisa de que quem vem apenas treinando para manter a forma, sem sintonia fina ou estratégia traçada. Apesar de que ouvir Dórea ordenar Maia, entre rounds, a derrubar o adversário all american, me leva a crer que eles também não tinham nenhuma. Mesmo assim, se arrastando, sem tática e sem preparo físico, foi melhor em todos os rounds. Pareceu estar lutando mal, mas fez demais dentro das condições em que se encontrava. Weidman precisa de uns dois anos para elevar seu potencial a TOP 10 da categoria, e quando chegar lá vai ficar um bom tempo.

Se Demian não mostra mais um jiu-jitsu refinado nem boxe eficaz, em uma coisa ele vem se tornando especialista: fazer lutas chatas. Perdeu metade das últimas seis lutas, e todas foram para a decisão. As últimas terminadas antes do tempo regulamentar foram a finalização de Sonnen e o nocaute pelas mãos de Marquardt, em 2009. Maia tem chances de ser cortado apenas por não ser mais um lutador empolgante dentro ou fora do octagon. Muitos foram por menos que isso. Júnior Assunção foi cortado do UFC sempre indo para frente e com apenas uma derrota nas últimas seis lutas. Tudo pode acontecer, mas gostaria que Dana White esperasse uma luta entre ele e Toquinho aqui no Brasil, para tomar essa decisão. Só não coloque no card principal, porque maluquinho como Toquinho é, e chato como Maia está, a luta pode não ser nada do que estamos esperando.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ANÁLISE: UFC 142 - Aldo VS Mendes


Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Pode até ser verdade tendo por base leis da natureza, as quais desconheço. Mas em se tratando de MMA e Rio de Janeiro, a vida real parece seguir o ditado a risca. O UFC voltar ao Brasil tão rapidamente e o resultado ser ainda melhor, parecia estimativa que nem os mais otimistas twiteiros teriam coragem de postar. Trovão e impacto ecoaram ainda mais alto que ano passado, num card tão inferior no papel, e tão mais explosivo no octagon. Quase como se o destino tivesse posto o bebê MMA no colo e servido doses de sorte numa colher dourada. Agressividade, beleza, surpresa e catarse desafiaram as leis da física e ocuparam o mesmo espaço dentro do HSBC arena nesse UFC 142. Apresentações estelares de atletas consagrados, o nascimento de um novo astro e o renascimento de um superstar. MMA brilhou intensa e incansavelmente nesse segundo UFC no Rio de Janeiro ofuscando mais uma vez o olhar obtuso do preconceituoso.

José Aldo VS Chad Mendes

Não me importo com o que lutadores acham dos meus textos. Se ficam felizes ou tristes com o que escrevo. Não sou jornalista, se alguma coisa, mais um artista e é em palavras que consigo criar. Eles fazem o que querem e podem e eu escrevo o que acho que vi. Recentemente tenho exposto despudoradamente meu descontentamento com as péssimas performances de José Aldo desde sua entrada no UFC. Lento, arrastado, medroso, agarrado ao cinturão que nem mãe ao condenado. Já estava com a análise quase que pronta na cabeça antes mesmo da luta. Um Chad Mendes veloz, invicto e sem vergonha nenhuma de derrubar e acelerar no gás sobre o campeão para arrancar uma vitória sem alma e por pontos, era meu texto. Só que nunca devemos duvidar do gênio. Será que Nelson Rodrigues questionou Garrincha, Armando Nogueira questionou Pelé, Galvão Bueno questionou Senna? Não faço idéia, mas eu questionei José Aldo e tive minhas preconcepções desmanteladas com uma joelhada a 1 segundo do fim do primeiro round. E o mesmo golpe que derrubou Chad, me colocou de pé, contente por ter cometido equivoco tão grosseiro.

Não estava torcendo por José Aldo. Não torço por lutadores em específico, mas há quase uma fissura de exceção em eventos no Brasil. Precisamos desses resultados positivos. O Brasil precisa demais do MMA, seja como veículo de inclusão social, oportunidades de emprego, investimentos e tantas coisas positivas. Mas ainda é um país quase ingrato que vira a cara para o filho de sangue como se fosse um bastardo indesejado. Agora, depois de dois mega eventos, ainda vira um pouco o rosto e fecha um olho, mas deixa o outro fitando tudo, meio como quem não quer nada. Está sendo seduzido aos poucos, se apaixonando lentamente por aquilo que deveria amar de graça. Anderson, Minotauro, Shogun, seguidos por Aldo, Belfort, Barboza e tantos outros estão ajudando a fazer a diferença. Em evento do UFC no Brasil continuo não torcendo para lutadores em específico, mas torço pela nossa bandeira. Não por patriotismo, por acharmos que somos nós contra o mundo ou nada disso, mas porque é muito importante para a nação o resultado dessas lutas. Chegará um dia em que o esporte será entendido e respeitado independente de nacionalidades. Por aqui, isso ainda não aconteceu, então que Aldo continue lançando o joelho na cara de quem tiver coragem de nos desafiar em nosso território, e é isso aí.

Em suas duas defesas do cinturão do pena no UFC, Aldo estava grande. Deltóides enormes não característicos de seu corpo em dias de luta. Coincidentemente esteve lento. Pederneiras afirmou que a preparação e corte de peso de José Aldo não se dá pela desidratação feroz originalmente usada por wrestlers americanos, e atualmente por grande parte dos lutadores de alto nível abaixo do peso pesado. Declaração que derruba a teoria de que houve em suas lutas anteriores necessidade de grande perda de líquido por opção dos treinadores, e sim mais por conta de algum erro ou problema na preparação. Um resfriado, por exemplo, pode comprometer todo o processo de diminuição de peso, ainda mais quando acontece perto do dia da pesagem, forçando o atleta a descansar e ingerir determinados medicamentos ou alimentos para se manter saudável, o que pode deixá-lo bem acima do peso ideal nas últimas semanas, forçando um corte mais severo. Cortes severos de líquido e peso afetam até os mais preparados, imagine o que não faria com Aldo não acostumado a esse processo. Mas essa é a minha teoria para explicar porque esteve tão maior muscularmente nas duas lutas anteriores e tão mais lento. José entrou leve, magro, com musculatura enxuta nesse UFC 142, como sempre se apresentou no WEC, e foi assim, em sua versão menor que voltou a ser letal.

Quando Aldo esteve mal venceu Hominick e Florian. Achar que deveria ter feito mais do que apenas vencido dois dos melhores do mundo dá a medida de seu talento. Todos caem um dia e o chão é o mesmo para a maioria, então é pelos momentos de grandeza que julgo os incríveis. E Aldo é um dos maiores de todos os tempos mesmo com tanto por fazer. Só vencer é insuficiente para quem pode desmantelar, só colocar vitória no cartel para quem pode escrever página relevante na história, só estar lá não é quase nada para quem pode ser eterno. E Aldo que vinha sendo fagulha, foi labareda. Fez fogueira de um risco do joelho na cara de Mendes, estalo e brilho, e se lançou no meio da multidão incandescente, ardendo no fogo que ele mesmo acendeu. Joana Dark incinerando sem amarras e sem dor. Um ídolo relutante, ruim de câmera, rasgado, mas que fala com os pés, cotovelos e joelho tudo o que realmente precisa ser dito.

Aldo tem cara de qualquer um, de cara comum, mas é especial. É ídolo e mostra na prática que são tantos os caminhos oferecidos, mas a verdadeira estrada que nos leva a algum lugar é criada por nós. Acordando mais cedo, trabalhando mais duro, negando o erro, buscando mérito, sendo fiel a ideais e pessoas relevantes. Aldo é um superstar que estava adormecido e escolheu reascender bem aqui, na nossa cara, quase que de propósito, quase como se tivesse combinado com o acaso. Tão incrível que muitos o querem no peso de cima. Para que? Aldo não faz o peso pena perder a graça, ele lhe confere relevância. Um campeão genuíno e para os que estão incomodados, batam o peso e caiam dentro. Subam ou desçam para o desafiar. Se ele pode mudar de peso, os outros também. Que sejam ousados e caminhem até a montanha, porque ela não precisa sair do lugar.

Chad Mendes é um burocrata do MMA. Uma das crias dos gametas filosóficos de Gerges St.Pierre. Derruba, controla e pronto. Acerta um mata cobra aqui e um estrangulamentozinho acolá, mas é esse pragmatismo sem alma e matemático que o faz tão perigoso. Quantos atletas se perfazem de emocionantes ao se lançarem em trocações desenfreadas, que nem bife se oferecendo ao garfo, até que acabam dormindo, ganham bônus de luta da noite e 5 anos depois estão desempregados? Chad sabe disso. E como quem sabe demais nunca está tranqüilo não dá chance para erro. Treina e executa tal qual máquina batendo pino. Mesmo com essas características não tem como vencer Aldo no auge sem a presença do Improvável da Silva. Cruzados distantes como náufrago acenando da ilha, tentativas de queda tímidas frente aquele joelho, quase como se prevendo o futuro, foi o máximo que o americano ofereceu.

Mendes foi nocauteado sob gritos e frenesi de um público enlouquecido, mas mostrou coração de campeão ao reconhecer com cordialidade a derrota. Coração que, para seu bem, seja suficiente para mantê-lo satisfeito, porque o cinturão mesmo não terá enquanto Aldo habitar a categoria. Continuará relevante e talvez mereça uma revanche ano que vem, já que não há muitos atletas capazes de tolerar sua explosão e força física. Aldo continuará reinando com a grandeza que estiver a fim. Magnânimo ou magnífico, apenas rei ou respeitado, estrela ou superstar. Depende dele muito mais do que de nós.

Vitor Belfort VS Anthony Johnson

Para entendermos o valor moral da vitória de Belfort, apresento um breve dossiê sobre seu adversário. Se Anthony Johnson fosse dentro das 8 grades o lutador que diz ser em coletivas de imprensa e entrevistas, já teria lutado pelo cinturão algumas vezes. E não confundir seu discurso prepotente com as bravatas quase cômicas, por vezes exageradas, de Chael Sonnen. Esse, apesar de falastrão e limitado tecnicamente, realmente sempre entra e faz seu melhor. Aguenta o tranco, apanha e não esmorece, ataca e parte para vencer. Johnson não. Perdeu por finalização para Koscheck depois de ser derrubado a esmo ao longo de longos e cansativos dois rounds. Ao fim da luta chamou o adversário de covarde, ( se covarde é quem nos vence honestamente, isso faz de nós o que? ) e não só afirmou que ninguém teria colhões de aceitar a troca franca com ele, como clamou por um adversário assim. A organização do UFC o colocou contra Dan Hardy, que vinha de nocaute e, apesar das inúmeras limitações técnicas e intelectuais, aceita a troca. Johnson então se pôs a derrubar o inglês, vencendo por pontos um combate onde nem pensou em desferir socos. Ao final, sob vaias, afirmou que não ligava para a insatisfação do público, que o importante era uma vitória no cartel. Contra Belfort aceitou lutar num peso acima do que costumava competir, corte mais fácil do que sempre fez já que descia de mais de 100kg para lutar no meio médio. Mas chegou no dia da pesagem quase 5kg acima do limite alegando complicações médicas. Boatos internos indicam que o atleta tentou se aproveitar do fato de não haver comissão atlética no Brasil. Assim seu excesso de peso poderia ser compensado apenas em desconto na bolsa, tendo grande vantagem contra o adversário no dia seguinte. Em estados com comissões, o peso excedente tem que ser perdido em algumas horas ou a luta é cancelada. O UFC, apesar de oficialmente não se manifestar nessa direção, viu como ato de mal caratismo e antiprofissionalismo de Johnson. Belfort, sempre profissional e também muito homem, aceitou e fez como grandes atletas fazem. Reclamam pouco e lutam mais. Coisa que Anthony não vai entender jamais. Após a derrota nesse UFC 142, Jhonson ainda disse que nenhum dos golpes do brasileiro o feriu, que não se sentiu pressionado e apenas cansou, por isso perdeu. Atleta que desmerece o adversário, vencendo ou perdendo, não tem valor e não irá longe. Aprendi isso quando ainda era faixa branca de karatê.

Belfort quando está bem treinado, com o maxilar trincado, afim, é um dos melhores que já existiu. Talvez o único lutador com reais chances de vencer, sem precisar contar com a sorte, Anderson Silva em pé. Disciplinado, moderno, entendeu que o limite da qualidade do atleta é dado pela qualidade daqueles com quem treina, com quem aprende. Tantos ainda atrelados a companheiros de longa data que não tem mais o que ensinar e Belfort importando treinadores. De acordo com ele, gastou com três dos melhores do mundo pouco mais de $100,000 em três meses. St.Pierre vem ao Brasil treinar jiu-jitsu com Roger Gracie, Jose Aldo já treinou boxe com Freddie Roach e muay thai com Andy Souwer. Mas independente da qualidade de quem ensina está a capacidade de quem aprende, e Vitor não ganhou precocemente o apelido de fenômeno a toa. Em meses de treinamento de karatê já incorporou movimentação lateral, entradas e distâncias em seu jogo. Ninguém aprende tanto em tão pouco tempo como ele. Um atleta em constante evolução técnica que tinha em seu coração, o grande ponto fraco. Em todas as lutas em que sofreu pressão, foi ferido, acabou perdendo de modo melancólico. E para a instabilidade emocional de todo no peso médio, isso não parece mais ser problema. Foi jogado de cara no chão, levou um direto de cima pra baixo de um lutador com real poder de nocaute, teve o olho esquerdo completamente fechado em segundos, agüentou, virou a luta e venceu.

Tem golpes que para agüentar é preciso mais do que queixo, é preciso uma partícula microscópica e tão poderosa, virtude perdida hoje em dia para maioria das pessoas independente de profissão, chamada vontade. Em MMA costumeiramente chamamos de raça, mesmo. Belfort sempre teve pedigree, mas pouca raça. Era o link que faltava e não falta mais, a corrente está completa, o motor pode acelerar a máxima potência e vamos poder vê-lo em seu auge apenas agora. Pela primeira vez o melhor de um dos melhores aflorou, plantado faz tanto tempo, germinou aqui no Brasil, no solo mais fértil. Agora parece que a criatura está pronta, a metamorfose completa. Um atleta assombroso, veloz, tenaz, destrutivo, genial e com o coração inflado. Wanderlei pediu tanto por essa revanche, mas não tem a menor chance. Belfort sabe, os fãs sabem, mas fingem que não para ter graça, a imprensa sabe, mas diz que não para não criar antipatia e, principalmente, Wanderlei sabe. Sua performance no UFC 142 foi discurso feito de hematomas e lágrimas sobre superação, sobre continuidade, perseverança. Ricos ou pobres, com mais ou menos chances, todos terão oportunidades de sair do rumo, de abrir mão dos sonhos, de fraquejar, de desistir. Sempre que vejo alguém bem sucedido tento não pensar no que ele teve que eu não, e sim onde ele perseverou e eu falhei. Belfort saiu desse UFC 142 com apenas um lutador no peso genuinamente mais perigoso que ele, Anderson Silva, o maior lutador de todos os tempos. Essa revanche vai acontecer, todas as outras lutas serão apenas um prelúdio para o combate do século.

Toquinho VS Mike Massenzio

Toquinho é um personagem intrigante. Não parece que muitos pensamentos transitam pela sua cabeça nem parece ser o mais veloz em raciocínio, mas sua qualidade na luta de chão é espetacular. Quase um autista que toca Beethoven. Transições de solo tão criativas e precisas que são quase uma forma de arte e seu carisma faz qualquer vitória parecer grande triunfo. Quem conhece sua história sabe que ele merece coisas boas nessa vida, e que tire tudo o que puder do MMA. Alguém que passou por tantas dificuldades na infância quanto ele, não se deixar embriagar pelo alcoólico mel que só a fama produz, fazer trabalhos comunitários, treinar todos os dias, respeitar seus mestres e sua família. Toquinho é único. Quando está no octagon vejo mais do que um atleta, vejo um exemplo. Suas vitórias são sempre contundentes e por mais que essa no UFC 142 tenha sido estratégica para a sua carreira e MMA no país, foi sobre um adversário medíocre que não tinha muito a oferecer.

Massenzio tinha perdido 4 lutas em suas últimas 7 antes dessa no Rio. Atleta irregular, com muitos médios e baixos, sem nenhum alto. Entrou assustado com a torcida, com o adversário, não dá para precisar. Talvez impressionado pelo histórico recente do brasileiro não afrouxar as chaves de pé quando encaixa, bateu um micro segundo depois de ter sua perna enlaçada pelo adversário. Se é para que tire alguma coisa de positiva dessa sua participação medíocre, não voltou mancando para casa.

Toquinho é pequerrucho e se enrosca pelos tornozelos que nem erva daninha. Tentar nocauteá-lo é como martelar um prego que já está afundado na madeira. E se ele cair vai ficar perto do pé e as coisas só pioram. Ele quando pega arrocha mesmo, vai para quebrar. Não faço julgamento de valor. Mais do que querer, precisa ganhar. Vai com sede demais ao pote e acaba estilhaçando alguns. Pega para arrancar, é dele. Num Japão feudal toquinho levaria literalmente pernas para casa, penduraria na parede e viveria satisfeito num latifúndio cheio de valentes mancos. Seu olhar é fundo demais, de quem viu mais do que deveria ter visto nessa vida. Enterrado no meio da cara estão os olhos de quem olha as coisas diferente dos outros. Não sei se é maldoso ou apenas bobo. Às vezes acho que é um, às vezes outro. O que realmente posso afirmar é que uma luta dele contra Maia já está na lista das coisas que quero assistir antes do fim da vida.

Edson Barboza VS Terry Etim

Etim é lutador esforçado mais do que habilidoso. Aceita a troca muito mais por vaidade e compromisso com ataque, do que tática ou chance real de superar seu adversário. Barboza é um dos mais perigosos lutadores de muay thai no MMA. Isso não tinha como dar em boa coisa para o inglês, mas a luta estava amarrada e sem emoção. Edson vinha vencendo mornamente por pontos e se dava por satisfeito. Terry, que já havia levado alguns bons golpes, parecia contende em ainda estar de pá. E estavam os dois nessa paz armada até que o espírito de moleque, quase um erê, se apoderou de Barboza. Resolveu, 1 segundo antes do nada cunhar uma coisa revolucionária, fazer como fazia quando criança. Dar um daqueles golpes que via em filme, mas nunca daria certo na vida real. E quase brincando, quase que por zoação, fez demais. Girou com a precisão de quem tem olho no pé, estourou o calcanhar na têmpora do homem que caiu boneco, repôs a perna na posição e fechou a guarda, numa reverência a perfeição do que havia criado, como Mohamed Ali não tocou Foreman em seu caminho para a lona. Paciência do criador com sua criatura.

Um momento pode fazer a luta ser boa? Ou uma luta boa são minutos seguidos de emoção mesmo que falte um grande momento? Independente da resposta Edson Barboza acelerou o MMA em 10 anos num movimento. Fez pelo MMA o que Pettis fez anos atrás. Num esporte ainda tão indecifrável para alguns, onde tantas explicações se fazem necessárias, um golpe, um momento, segundos que mostram mais do que tudo e cabem em qualquer noticiário, qualquer cérebro, formato, valem por trilhões de mensagens de texto, milhões em propaganda, horas e horas de entrevistas, escritórios do UFC num país. Um chute giratório que tombou junto com Etim restrições que alguns sites de esporte tinham em cobrir MMA. Se tornou assunto obrigatório para quem assiste TV. Algo que precisa ser visto, compartilhado. Num mundo cosmopolita onde imagem é tudo, empresas gastam cifras astronômicas para estampar o rosto de alguma personalidade, filmar algum momento emocionante, criar propaganda que fixe uma marca, um conceito, Barboza presenteou o esporte com seu nocaute. Violência e beleza poucas vezes caminharam tão juntas. Tão inegável a brutalidade do impacto, o perigo para o adversário, quando o fantástico do ato. Tão bom, tão fora do que é comum, tão importante para fazer nosso dia a dia mais divertido, que quase força a quem vê virar fã. Quase não dá opção para quem assiste senão querer ver mais.

Etim vai continuar por aí, e fora os fãs mais aficcionados, a maioria não saberá de seu paradeiro. Barboza vai trilar um caminho mais brilhante. Guillard ou Siver já lhe garantiriam cheque de luta da noite.

Erick Silva VS Carlo Prater

Não tenho memória de nenhum lutador que tenha evoluído tanto entre suas lutas em eventos menores para sua estréia no UFC como Erick Silva. De bom e promissor lutador para fantástico em dois combates. Entrou e venceu Carlo Prater em segundos. Se alguns atletas estão sintonizados em FM ou AM, Erick zoa o sinal em rádio pirata. Simplesmente está numa freqüência diferente dos que vem enfrentando. Independente do que o juiz Mario Yamazaki ou os cartéis por aí contarem, Erick venceu essa luta. E se os fatos apontarem para o contrário, azar dos fatos.

Carlo Prater está nessa carreira faz um bom tempo e ninguém sabe porque é um mediano. Entrou, fez o que pode, deu uma de coitado alegando ter sido duramente alvejado na cabeça e levou uma vitória técnica pra casa. Que se dê por satisfeito porque não virão muitas outras e vai poder contar para seus netos que um dia venceu um dos grandes. Só não vai poder mostrar o vídeo da luta.

Não acho que tenha que haver leniência com atletas brasileiros ou famosos, acho que tem que haver justiça. Se Belfort pode acertar diretos na nuca de Franklyn e Akiyama, Guillard na nuca de Miller, Dan Henderson na nuca de Fedor, por que Erick foi punido por um cascudo? Ou pode, ou não pode. Ou qualquer golpe na área, automaticamente para a luta, ou tem que ser usado do bom senso. E o bom senso deveria ter feito o experiente Yamasaki nem ter tomado essa decisão. Numa saraivada de milhares de socos, onde o adversário já tinha entregue a vitória, interromper o momento e perguntar para o atingido se ele está em condições de continuar é um erro amador. O mesmo Yamasaki que no primeiro UFC Rio deixou Banha levar diretos no rosto até quase ter perda irreversível de células nervosas. Lastimável. Não é sempre que surge uma estrela assim, dessa maneira, diante de sua nação. Yamazaki surrupiou fã, país e lutador desse prazer genuíno.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ANÁLISE: UFC 141 - Overeem VS Lesnar


Uma frase famosa no meio publicitário tem como verdade que “menos é mais”. Alusão a retirada de excessos desnecessários que desviam a atenção do que realmente presta em uma campanha ou peça. Fosse editado por Washington Olivetto ou qualquer competente Diretor de Criação, esse UFC 141 teria pouco mais de 10 minutos e mesmo assim não seria dos mais emocionantes. Lutas chatas, sem alma com atletas cheios de panetone, bolinho de bacalhau na barriga e com a cabeça no champanhe e fogos de artifício da virada de ano. O card preliminar que costumeiramente traz lutas explosivas aditivadas por sonhos e oportunidades acabou sendo um demonstrativo não de talento, mas de porque nenhum deles merecia mesmo nem estar no fraco card principal. 2011 teve um fim ingrato nas mãos desses atletas que fecharam o melhor ano do MMA com chave de bronze, alterando bastante as minhas previsões para 2012.

Alistair Overeem VS Brock Lesnar

Nem todo homem grande é um grande homem, e apesar de não querer me ater a filosofia para descrever essa luta que de profunda nada teve, é irônico perceber que nem os quase 300kg somados dos dois lutadores não foram suficientes para conferir grandiosidade ou impacto ao combate. A lona vibrou e as madeiras de sustentação rangeram sob os pés dos dois, na pratica, na vida real, mas reino da imaginação, da fantasia, onde lutas se tornam épicos eternos e meros atletas, imortais, nem uma poeirinha sequer foi levantada.

Brock Lesnar não é lutador. É atleta de alto nível, grande campeão de wrestling amador, uma mega estrela do WWE, evento de lutas armadas com coreografias e teatrinho, e um ser humano naturalmente maior do que quase todos que já surgiram nesse planeta desde o primeiro cro-magnon. Numa terra sem leis e sem armas de fogo, Lesnar dominaria o mundo inteiro com uma marreta na mão. Mas no mundo em que vivemos, a grande prova de supremacia física se dá dentro do octagon, e lá ele encontrou alguém do tamanho dele que, simplesmente, sabia alguma arte marcial. Quando a força física se equivale, o mais técnico leva vantagem. Força e peso que Lesnar tinha maior que quase todos os seus adversários até o momento, uma borda de vantagem bruta que lhe conferiu mais vitórias que derrotas. Mas contra Overeem o resultado já parecia decidido, a não ser que o destino resolvesse nos pregar uma peça.

Verdade que Brock é mais do que apenas um grandalhão. Mais veloz do que a maioria dos lutadores do meio pesado, arrasta seus quase 130Kg no dia da luta como pai que corre pelo parque com o filho de 2 anos nas costas. É fisicamente um prodígio. Carismático, excelente domínio de câmera, agressivo. Um lutador que se quisesse realmente seguir carreira em MMA se manteria no TOP 10 por muitos anos já que não é considerável a quantidade de adversários que podem vencê-lo atualmente. Mas Lesnar não quer ser atleta de MMA. Quer ser campeão. È como um bebê gigante que só quer determinada coisa, nada mais o sacia, nada mais o entretém. Cai no chão e faz bico. Lesnar, um adulto, ao invés de fazer bico anunciou sua aposentadoria mesmo com uma luta ainda por cumprir no contrato quando percebeu que não dava mais para brincar de ser campeão do UFC.

Brock Lesnar foi muito importante para o esporte mesmo em sua atrofiada carreira. Atraiu para o MMA milhões de novos espectadores que costumavam esnobar essa forma de competição. Milhares de jovens e crianças magnetizadas pela sua persona gigantesca, bem maior que seu tamanho, começaram a acompanhar eventos por acharem estar presenciando as performances de um super humano, de uma criatura ou coisa do gênero. Seu rosto e cabelo totalmente american way estamparam capas, jornais e TV nos EUA como nenhum outro atleta. Atraiu atenção de mídias que sequer cobriam MMA com sua comovente superação quase milagrosa de um caso de diverticulite. Foi muito relevante por pouco tempo, brilhou demais por segundos, foi fora do octagon o gigante que nunca conseguiu ser dentro. MMA ainda está tombando muros de tijolos tão velhos e pesados, atracados uns aos outros com a argamassa tão forte da ignorância. Lesnar atirou no peixe e acertou no gato, entrou nessa por vaidade, pensando só nele, e fez bem a todos nós. Sem querer, mas fez.

Previamente ao UFC 141 prometeu a família ser essa sua última luta caso perdesse. Independente de como o fã analisa o Brcok Lesnar personagem, ele é um pai, marido e filho. Uma pessoa normal que superou, duas vezes, uma doença que costuma incapacitar seus afligidos. Uma família sofre e chora junto, se aproxima. Em momentos assim nos despimos de fardas e medalhas, somos frágeis e finitos. Competir por ego, se colocar em risco por vaidade depois de meses e mais meses de lamurio e hospitais, se torna enfadonho. Chega uma hora que o homem quer parar, horas diferentes para cada um de nós, e ele foi enfrentar um dos mais letais competidores de MMA do mundo pensando em não se lesionar e não dar maiores preocupações para seus entes queridos. E com um chute na costela que poderia ter rompido seu baço e vários pontos internos, não conseguiu nem um nem outro e ainda acabou caído no chão, derrotado e inferior.

Uma mentira contada 1000 vezes pode virar verdade para quem não se dá ao trabalho de pesquisar no Google. A afirmação de que Overeem nunca perdeu uma luta depois de se tornar pesado é um factóide. Sua primeira luta acima de 100Kg foi uma derrota para Kharitonov, em 2007, no K1-Hero’s. A verdade é que nunca perdeu uma luta depois de ter se tornado gigante. Uma quase besta fera hipertrofiada e tensa que desafia o bom senso, ciência e comissões antidopagem a provarem seu uso de esteróides. E como numa sociedade ordeira as leis e regras ditam o que está certo e é normal, até que algum traço de hormônio irregular seja rastreado em seu organismo, podemos afirmar que Carina Damm e Royce Gracie, já pegos no antidoping, são mais bombados que Alistar Overeem.

Overeem é um dos atletas mais condecorados, carismáticos e talentosos da atualidade. Campeão do K1, já tendo nocauteado, para muitos, o maior trocador do planeta, Badr Hari. Acumulava até esse UFC onze vitórias seguidas, onde apenas uma não acabou por nocaute ou finalização. Simplesmente os adversários não agüentam entrar em atrito com Overeem muito tempo e continuarem acordados. Pesado demais, com alcance enorme, qualidade de trocação estelar, poder de nocaute e uma guilhotina que já teria decapitado muitos fosse uma luta sem regras na França medieval. Alistar só tem dois pontos fracos. Sua defesa de queda limitada, mas com um joelho enorme no meio do caminho que desmotiva a maioria a tentar esse atalho. E uma falta de vontade de agüentar porrada antológica. Estava vencendo as lutas contra Chuck Liddell e Shogun, dentre tantas outras, quando resolveu perder assim que levou o primeiro direto mal intencionado na cara. É um lutador sem raça. Mestre em opressão, mas se for espremido solta suco que nem laranja. Mas são poucos os indivíduos caminhando nessa terra que tem como pressioná-lo ou colocá-lo em algum risco real.

Overeem entrou no UFC como quem finalmente chega aonde sempre sonhou, com olhos brilhando de contentamento, com muita vontade de fazer alguma coisa e foi contagiante. Não pelo decorrer da luta, mas por mostrar um lampejo do competidor que sempre pode ser e parecia não estar interessado. Esse Overeem, afim, tenaz, treinado, fechado, com os reflexos na ponta do nervo, é lutador para se sagrar campeão e segurar o cinturão enquanto ainda estiver interessado em contrair o músculo.

Lesnar e Overeem fecharam o ano numa luta previsível. Brock só poderia vencer se derrubasse, e rateou, escamoteou, mal tentou e desistiu, não leu e disse que não gostou. Overeem sentiu cheiro de sangue, aquele odor de medo que só os cachorros farejam e atacou. Meteu a tartaruga pra dentro do casco sem dificuldade. Assustou a criança para só dar um tapa no bumbum. Poderia ter desmantelado Lesnar e apenas fez o necessário. Mostrou o tamanho de sua sombra imponente e assustadora para todo os pesados. Alistar contra Cigano vai ser uma luta fantástica e digna. Prevejo que o vencedor irá se manter no topo, inabalável, durante vários anos. E Brock, apesar de ter anunciado a aposentadoria precocemente deve ser convencido a realizar a última luta que ainda reza seu contrato, sob a promessa de disputar o cinturão em caso de vitória. Mimado. Só lutas que lhe credenciem ao título interessam e prevejo um combate contra Minotauro, aqui no Brasil como co-main event para Anderson VS Sonnen, que o aposentará de vez com uma chave de braço.

Nate Diaz VS Donald Cerrone

Não costumo questionar os méritos do vencedor. Quantas vezes um atleta menos talentoso se supera e tem uma carreira mais vitoriosa que tantos virtuosos por injetar em suas performances vibração, esforço e outras coisas que compõe um real grande lutador. Mas o desmantelamento de Donald Cerrone, mesmo assistido em câmera lenta, é difícil de explicar. Diaz é muito pior que Cerrone em pé, tem menos queixo, mais lento, cabeça maior e fácil de atingir, tem os pés estáticos, péssima esquiva e mãos sem peso. Dizer que um treinou mais do que o outro é querer simplificar o logaritmo. Alguma coisa aconteceu nesse UFC 141 que ninguém parece realmente entender. Teorias são muitas e abstratas. O fato é que um lutador inferior, de carreira instável e num dos piores momentos de sua carreira venceu, com exuberância e quase displicência, um dos melhores do mundo em sua fase mais inspirada.

Para os ansiosos que adoram descobrir novos gênios depois de uma vitória e decretar fins de carreira após uma derrota, a vitória de Diaz foi tinta suficiente para imprimi-lo em figurinha dourada, carimbada e assinada de homem que realmente pode vencer Edgar. Diaz é talentoso e ponto. Nada mais, mas tantas coisas a menos. Extremamente instável, despreparado em diversos momentos, resistente a táticas ou estratégias, só luta de uma maneira. Sempre. Fica em pé e troca. Simples. O que vier além disso é por conta de derrubar com socos o adversário ou ser derrubado. Não faz nenhuma menção de qualquer outra abordagem. Vinha de uma vitória sobre o melancólico e sem fogo Gomi e de duas derrotas. Uma delas, para McDonald, esse sim um real contender apesar de ainda tão novo, onde foi manipulado, esticado e amassado tipo massa de macarrão. Tirado por um pedaço de bife sem vida, batido no chão, dominado em pé e em qualquer lugar. Saiu do octagon humilhado, pela sua língua presa nenhuma provocação ou prepotência podia ser ouvida. Até essa luta eram 5 derrotas e 4 vitórias nas últimas 9. Cartel de lutador de card preliminar na Escócia.

Sua vitória contra Cerrone foi completa, suprema, mas o que seu adversário apresentou, independente de sua enorme qualidade, foi tão medíocre, que presenciamos o espancamento de um leigo. E Cerrone apanhou com chantilly, como um masoquista gosta de apanhar, no melhor estilo Roy Nelson. Apanhava e ria de nervoso. Diaz venceu, seria canalha de minha parte dizer que não convenceu, mas algo me diz que em uma revanche sairia nocauteado no primeiro round.

São tantas as opiniões sobre o que pode ter ocorrido com Cerrone. O próprio mencionou uma cabeçada involuntária logo no começo da luta que abriu seu lábio e teria prejudicado a performance. Sua própria teoria foi tão inverossímil que a retirou segundos depois e se desculpou. Tenho uma questão essencial com relação a pedidos de desculpa. Quando fazemos mal a alguém, sem intenção, um pedido se faz de bom tom. Quando fazemos mal a nós mesmos, a desculpa parece uma tentativa de dividir culpa. Cerrone deve desculpas a ele pelo ridículo, a nós, não deve nada. Até porque ver Diaz espancá-lo depois de desrespeitá-lo jogando seu chapéu longe na pesagem, isso é mortal para um cowboy, e ainda fazer gestos obscenos no começo do último round, foi impagável. Momentos viscerais que o MMA profissional demais não permite.

Cerrone é fantástico, Diaz não. Um é dos melhores do mundo, o outro vive mudando de peso para fingir ser relevante. Um começa o ano derrotado, o outro vencedor. MMA é isso. Sempre em movimento. Cerrone fraquejou em seus momentos mais decisivos. Nas lutas que envolviam cinturão contra Ben Henderson e nessa que o colocaria em chance de uma nova disputa. Donald não se leva a sério, e não estou falando do amigo do Mickey. Leva treino a sério, preparação, dieta e tudo mais. Mas não leva a luta a sério. O momento que faz tudo parecer relevante ou fulgaz. O ponto de exclamação ou reticências. Sempre comete erros infantis em lutas realmente decisivas. Entrou cheio de ódio, Diaz bagunçou sua gaveta de disquetes, e tomado por sensações menores e desprezíveis um homem tem dificuldade de ser grandioso. Cerrone foi uma versão minúscula dele mesmo, querendo se vingar mais do que vencer, bater mais do que boxear. Perdeu com justiça uma luta que poderia ter vencido facilmente.

Prevejo Cerrone voltando a sua corriqueira seqüência de vitórias e domínio sobre todos os adversários até que uma luta por título ou próxima se apresente, aí irá perder mais uma vez. E Nate Diaz não terá a mesma sorte contra outros adversários talentosos no peso. Siver e Miller estão em seu caminho e daqui a um ano poucos se lembrarão de que um dia venceu Cerrone, como poucos se lembram que já venceu Melvin Guillard ou até Maynard no TUF. Cerrone continuará relevante, mesmo eventualmente perdendo para inferiores, e Diaz irrelevante, mesmo eventualmente ganhado dos grandes.

Alexander Gustafsson Diaz VS Vladimir Matyushenko

É normal o casamento de luta entre um veterano em fim de carreira e um jovem em ascensão para a vitória fácil parecer relevante por conta do peso que o derrotado traz no nome. Mas colocar Matyushenko contra o mestre em espancamentos Gustafsson é pedir para os paramédicos trabalharem. Alexander deu uns socos e a luta acabou quando o primeiro atingiu o assustado Vladimir.

Gustafsson é enorme e nervoso. Parece moleque com a primeira namorada. Quer resolver logo porque o amanhã ela pode ter mudado de idéia. E parte pra cima, com socos compridos, retos, aríetes para derrubar portão. Esconde sua ansiedade de garoto, incerteza e insegurança atrás de seus punhos de granito. Vai derrubar muita gente enquanto o UFC tiver carinho de colocá-lo contra irresponsáveis que não se importem em ter os ossos da cara espatifados, e Matyushenko vai seguir apanhando de jovens estrelas e vencendo um ou outro mediano, nessa batalha inglória que o UFC inventou de popularizar o MMA na Bielorússia.

Johny Hendricks Diaz VS Jon Fitch

Hendricks entrou, deu um soco e acabou. No primeiro momento realmente relevante de sua carreira vence uma luta, sem luta. Deve pedir para Bruce Buffer o anunciar como Johny “Lucky” Kendricks, dar muitos autógrafos e vender logo os direitos de uma biografia, porque se a direção do UFC quiser colocá-lo contra outros atletas do nível de Fitch, sua carreira pode tomar uma precoce guinada pra baixo e acabar despontando para o anonimato. Para Fitch, nada muda. Foi um acaso, uma picardia do destino que estava azedo nesse fim de ano. Muda é para nós, que por um tempo não vamos ter que ouvi-lo resmungando que é o melhor do mundo e como é injusto não disputar o cinturão contra GSP.