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segunda-feira, 9 de maio de 2011

CRÔNICA 13 - NAVALHA NA ROSA (publicada na revista Tatame 182)


Falar de mulheres sem ser brega ou piegas é quase tão difícil quanto comentar sobre MMA feminino e não parecer machista. De todas as coisas que uma mulher tem competência para fazer, trocar socos, chutes, joelhadas, estrangulamentos, com os lábios estufados por um protetor bucal, toda descabelada e ferida, não parece alguma coisa que devessem. Para mim não deveria haver MMA feminino e essa afirmação é tão verdadeira quanto o fato de que estou completamente equivocado. Mulheres são lindas para nossos olhos e sentidos de várias maneiras. São fisicamente mais frágeis, mais sensíveis, tomam conta de nossas fantasias desde muito jovens, são nosso young. São o que cobiçamos desde sempre, o motivo de quase tudo, sem as quais nunca seremos masculinamente completos. Isso tudo é lindo e não retiro nenhuma palavra, mas é uma percepção superficial. É um cheiro na relva sem saber até aonde vai a raiz.

Se admiro a beleza entranhada nas ranhuras da violência do esporte, porque não admirar a violência esportiva de quem poderia se contentar em ser apenas frágil? O martelo que poupa a rosa e a água que corta a rocha são igualmente admiráveis. Mais do que homens e mulheres, somos seres humanos. Esse é o núcleo. Prótons e nêutrons zunem dentro do mesmo átomo. Achar que mulheres não devem lutar apenas por serem o que são é estático, é como limitar uma raça pela cor ou hostilizar pela opção sexual. Se elas sabem que podem lutar MMA em alto nível que provem em sangue, ossos quebrados, músculos torcidos e impacto , sem dar moral para manifestos feministas e nem se intimidar com resmungo machista. A história do MMA começou e vai acabar dentro de um octagon e esse texto daqui de fora não pretende convencer ou provar nada. Esse texto é só uma carta de amor.

Não foram momentos históricos ou teorias sociológicas que fizeram a idéia de que mulheres devem lutar florescer no campo da minha certeza. Foi numa visita que fiz, no apagar momentâneo das luzes elétricas do cérebro, a meu coração. Fui consultar o oráculo e ele me lembrou das características da mulher que amo. Mulher para andar lado a lado, para me levantar se eu cair, me carregar se eu falhar. Fêmea que não quebra com qualquer impacto, não desiste, segue em frente, derruba mais do que é derrubada e sonha junto. È uma mulher poderosa e a única que já me apaixonou. E não há esporte com mais demonstrações de poder e paixão que MMA. Esse poder de ir além, superar, tencionar, agüentar, explodir, quebrar, remendar e continuar. A paixão pela glória, pelo fantástico, imprevisível, pelo próximo round. MMA feminino é um esporte para mulheres poderosas. Cris Cyborg e Gina Carano fizeram uma luta por cinturão digna do maior esporte do planeta. Afirmo que se tivesse ocorrido no UFC o debate sobre mulher nesse esporte estaria encerrado e teríamos no mínimo 3 categorias de peso.

Cris é olhada por muitos como a exceção que justifica a regra. A sua superioridade é tão magnífica que provaria ser impossível outras fazerem o mesmo. Pra mim é o oposto. Ela hoje é única, mas é o caminho evolutivo. È a prova de que dá pra fazer. È a primeira fagulha que estoura entre duas pedras. Dá para lutar em altíssimo nível. Ela não é uma lança para vazar o esporte, é o escudo que protege. Ela é um animal no octagon, rasgada, tensa, feroz, mais bicho que mulher. Mas essa é a natureza do esporte. Esse frenesi é que nos borbulha a adrenalina. Fora da luta ela é feminina, carinhosa e cordial. Sua brutalidade esportiva não dilui em nem um miligrama quem ela é como mulher. Ela é como é. Seu “eu te amo” para o marido ao fim das lutas é roteiro de cinema. Cris Cyborg faz poesia com os punhos fechados.

Dana White diz que não há mulheres talentosas o suficiente para abrir uma categoria de peso. Mais do que estar enganado, está mentindo. Já afirmou que Werdum era um lutador mediano, Fedor uma fraude, Overeem ser TOP 10 é coisa de ignorante, que o Strikeforce era um campeonato medíocre que só havia assistido 2 vezes na vida, mas acabou pagando R$ 40 milhões para tê-lo. MMA feminino só precisa de uma grande chance. Quando José Aldo estrear no UFC muitos que nunca viram graça em lutas abaixo do peso leve terão que baixar as cabeças frente a realidade explosiva do brasileiro. O mesmo vale para as mulheres. Cyborg X Carano, Cyborg X Jan Finney, Coenen X Carmouche são 3 exemplos de excelentes lutas que poderiam estar em qualquer card.

Meu amor é por MMA. A bela violência, a falta de frescura, a batalha constante por domínio, as técnicas, as estratégias, não pelo sexo do atleta. Mulher não sangra pétalas de rosa e é irrelevante se preferimos homens num combate, o fato é que elas oferecem tudo o que queremos ver quando assistimos a uma luta. Se for a Carano ou a Damm de shortinho oferecem até um pouco mais. O caminho para elas será bem mais difícil, terão que tombar adversários dentro e fora do octagon, lutar contra socos na cara e facadas invisíveis nas costas. A maioria vai tombar, é difícil agüentar. Mas que belas mulheres, apaixonantes e poderosas aquelas que conseguirem triunfar.

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quarta-feira, 23 de março de 2011

ANÁLISE: UFC 128 - Shogun VS Jones


É complicado ver a fina linha da realidade com os olhos cheios de lágrimas. Lutas como a de Anderson vs Belfort, Penn vs Fitch, Shogun vs Jones são poderosas bombas de efeito moral. Cada inalada de tristeza pela derrota ou euforia pela vitória sufoca nossos pulmões, dificultando perceber que apesar dos resultados e torcidas MMA está engatando a quinta marcha e muitos não estão conseguindo acompanhar.
A evolução é contorcer menos por lutadores em específico e nos desdobrar mais pelo esporte. Menos por glórias individuais e mais pelo show. Mais do que lamentarmos por Shogun, podemos admirar presenciar ao vivo a metamorfose de um homem em mágica. UFC 128 assinou a certidão de nascimento de Jon Jones em outra dimensão. Uma povoada pelas lendas do MMA. Ainda pequeno e microscópico comparado a outros que conhecemos, verdade, mas ele já caminha pelas mesmas terras secretas que apenas os grandes parecem conhecer.

Shogun VS Jon Jones

Shogun vinha de cirurgia. Talvez seja a explicação mais biológica para seus movimentos lentos e doutrináveis contra Jones. Ao final do primeiro round o buraco escancarado da boca aberta já não era mais suficiente para puxar todo ar que seus pulmões precisavam. Estava acabado. 5 minutos com Jones foram suficientes para machucar seu corpo, drenar sua resistência e aplacar seu ímpeto. Um pequeno e lento Shogun foi maltratado por um gigantesco e veloz Bones durante quase 3 rounds completos, mas tive a impressão de que o sofrimento poderia ter acabado bem antes se Jones não estivesse se divertindo em espancar alguém que, enfim, agüentasse. Shogun foi dominado em pé, no chão, nas transições. Se voassem , teria sido no ar também. Jon Jones simplesmente era bom demais para Shogun nessa noite. E provavelmente em qualquer outra.

È impressionante a velocidade dos detratores em formar opiniões negativas sobre uma estrela quando ela cai. Desde que Shogun é obsoleto e só pegou lutadores medianos até que ele nunca foi realmente tão bom. Muitos desses estão embebidos em sentimento, frustração e descarregam no lutador, como um pai alcoólatra que chega em casa e bate no filho porque foi demitido. Shogun foi e ainda é um dos maiores lutadores do planeta. Feroz, pesado, versátil e com um coração de mamute. Um dos primeiros lutadores a realmente lutar em qualquer área do MMA, foi um visionário e ainda hoje é moderno. Frank Edgar, campeão peso leve, só sabe segurar a luta em pé e boxear. Shogun luta em qualquer lugar. Um lutador fantástico, atual e franco favorito contra quase qualquer atleta meio pesado da atualidade. O problema não são seus defeitos, que ele tem poucos. Fora o famoso tanque de gás que já chega furado, tem quase zero buracos em seu jogo. A questão é que Jon Jones é um dos melhores lutadores que já existiu e enquanto fãs e adversários acharem que isso é exagero, muitos outros tombarão que nem folha seca a seus pés.

A vantagem de MMA ser um esporte tão novo é que posso, aos meus 33 anos, me gabar de ser um veterano no esporte. Vi todos os eventos do UFC, Strikeforce, IVC, MECA, PRIDE, Dream, Rings, King of Kings, Cage Rage, WEC (menos os 3 primeiros) e Jungle Fight. Fora tantos outros menores. Presenciei o surgimento de Fedor, Anderson, Sakuraba, Minotauro, Wanderlei e posso afirmar que Jon Jones tem potencial para ir aonde esses foram e além. Ouvi muito que Fedor não passava de um russo gordinho e grosso, que Wanderlei nunca seria um grande lutador porque só sabia dar soco na cara, quando alguém derrubasse seria o fim da luta e etc. No começo todos foram vítimas de desconfiança, é saudável. Mas tinham uma aura especial, um brilho de genialidade que os separava da maioria. O mesmo brilho que Jones tem.

Jon Jones despedaçou Shogun lentamente e com requintes de crueldade, com o prazer de quem se maravilha e diverte ao encontrar um louco e corajoso o suficiente para se deixar apanhar aonde outros teriam desistido. E foi tirando pedaço por pedaço e espalhando pelo octagon, sem ódio, sem emoção, cortando sashimi com serra elétrica. Quando cansou, atacou de vez, estraçalhou e cuspiu o que sobrou em algum canto da grade.

Lutar com Jones é tomar surra de vergalhão, é cair de costas na caixa de ferramentas, é tentar acertar soco em mosca, é puxar pra guarda e lutar jiu-jitsu com as pernas de uma mesa aparafusada no chão, é ser apagado por um feixe de antimatéria. Jones que só teve destaque em wrestling na faculdade derrubou e controlou no chão campeões mundiais como Bader e Hammil. Anulou e devastou Shogun em pé com o muay thai que ele treina faz apenas 3 anos. Jon Jones está muito longe de seu potencial máximo e mesmo assim luta e vence sem dificuldades, sem cansaço, sem se ferir, sem aparentemente usar força. Não parece nem justo ele lutar com esses seres comuns que se esforçam, sangram, suam e essas coisas humanas.

Jon Jones é flor de luz que nasce na grama negra do comum, um raio que marca o caminho para o diferente, vai envergar a seus pés muitos lutadores queridos, amados, lendas e tantos mais sob aplausos da geração Jones. Jovens fãs que não tiveram o prazer de presenciar o nascimento de uma lenda, como os mais velhos já. Jones vai arrastar multidões, vai ser o primeiro lutador contemporâneo a unir nações. Fedor, Anderson, Minotauro, Wanderlei, Sakuraba e todos os outros já no último ciclo de suas carreiras e o dele no começo. Um presente do destino para manter o fluxo das coisas. O show não pode parar e o dele só está começando.

Mirko Cro Cop VS Brendan Schaub

O pragmatismo comercial de Dana White que leva bons lutadores como Chiquerim, Ronnys Torres e Jamie Warner a serem cortados sumariamente sem muitas chances é inverso ao quase apadrinhamento por outros. Cro Cop e Brandon Vera parecem sempre ter uma nova chance. Cro Cop após as derrotas para Napão e Kongo lutou no Dream, apanhou do Overeem e voltou para o UFC aonde protagonizou algumas das piores lutas da história do evento e ainda foi nocauteado 3 vezes. Todo atleta profissional sabe melhor do que eu a dificuldade de parar. A adrenalina da competição é um doping mental insubstituível, fãs ainda gritando seu nome, como ele pode resistir? Como uma criança vai sair por livre vontade de uma festa aonde tem amigos para brincar e bolo para comer? Mas depois de ser nocauteado pelo quase mediano Schaub e se esparramar no chão como batatinha quando nasce, acho que deveria considerar seriamente a possibilidade.

Cro Cop foi um dos maiores, não é mais. Deveria aceitar a função de embaixador do UFC na Croácia porque ouvir de Schaub um misericordioso “você lutou bem” ao fim da luta, poderia levar lutadores menos estáveis psicologicamente a depressão.

Schaub vai indo. Vence de um lutador desmotivado aqui, de outro em fim de carreira ali. Um dia vai fazer uma super luta contra Pat Barry ou Struve. Um lutador inexpressivo que seria engolido vivo se entrasse na jaula do GP do Strikeforce.

Jim Miller VS Kamal Shalorus

Com apenas duas derrotas, uma para cada um dos envolvidos na disputa pelo cinturão dos leves, Edgar e Maynard, Miller já acumula 20 vitórias. Quem vem desdenhando de suas apresentações ou apenas não reparando mesmo por conta da sua irreparável falta de carisma pode não ter percebido como ele evoluiu. Deixou de ser um lutador completo, mas que colocava técnica e tática a mercê de seu sangue quente e saia dando braçadas, para se tornar um lutador violento e letal, com a precisão de uma cobra africana. Miller não precisa de muitas chances para terminar uma luta. Na verdade só precisou de uma para finalizar o veloz e incrível Do Bronx no chão e nocautear o inocauteável Kamal Shalorus. Com a revanche pelo cinturão já marcada e com o vencedor de Pettis e Guida agendado para ser o próximo desafiante, a chance de Miller ainda deve demorar um pouco. Mas que ela chegará é tão inquestionável quanto seu esforço comovente para sempre melhorar como lutador.

Shalorus não parece ser feito das mesmas moléculas ou fibras que nós. Não parece sentir dor e absorve uma quantidade nem um pouco saudável de dano. A sua luta contra Warner no WEC foi a maior demonstração de diretos e chutes limpos na cara já captado em vídeo num combate não ilegal. E ele absorveu todos como pedra batendo em pedra, mas Miller o nocauteou mesmo assim nesse UFC 128. Lutando dentro e sem medo. Se Shalorus não agüentou o peso de seus ataques, poucos conseguirão.

Miller e Dennis Siver seria uma luta de alto impacto.

ÚLTIMOS ROUNDS

Marquardt se especializou em fazer lutas chatas. Sua última luta realmente boa foi em 2009 contra Wilson Gouveia.

Van Damme entrou com processo por direitos autorais contra Edson Barbosa pelo chute rodado que acertou na cabeça de Anthony Njokuani.

Tibau, Banha, Benavidez, Cachorrão, Pellegrino, Raphael Assunção, Njokuani e Barbosa no undercard mostra porque o UFC é o maior campeonato do planeta. O Dream faria um card principal com eles como estrelas.

Urijah Faber é muito divertido de assistir, mas é impressionante como ele não evoluiu nada nos últimos anos. Seu olhar está fixo no cinturão do peso galo e saber que foi o único a vencer o atual campeão Dominick Cruz deve enche-lo de falsas esperanças. Faber ficou sentado no pedregulho da fama enquanto Cruz vem evoluindo ano após ano.

Gostaria muito de ver Anderson vs Jones e Do Bronx vs Sotiropoulos no UFC Rio.

http://twitter.com/nicoanfarri

segunda-feira, 14 de março de 2011

CRÔNICA 12 - AQUARELA DE SANGUE (Publicada na revista tatame 180)


Todo corpo de Quinton Jackson debruça sobre as cordas do ringue, pendurado quase sem tocar o chão, quase como um beija flor morto em pleno ar. Os gritos histéricos de 100mil fãs abafam os pedidos de socorro de seus treinadores que arrebentavam as gargantas a procura dos paramédicos. Papéis prateados caem do teto celebrando aquele momento mágico, refletindo a euforia de todos e as luzes do estádio, deitando levemente e colando no corpo suado do derrotado, se misturando à poça sangrenta que formava na lona e escorria para o chão respingando nos pés dos comentaristas. De sua cara escura jorrando sangue, cartilagem do nariz esfacelada, ossos da face fissurados e olhos apontando pra dentro vem à memória de um dos momentos mais poderosos do MMA. Uma obra de arte pintada em aquarela de glóbulos vermelhos. Ao fundo seu nêmeses, nem vilão nem assassino, mas um herói temido, branco, careca, tribal na nuca, uma criatura demente e sem controle chamada Wanderlei Silva subia nas cordas e urrava marcando seu território. Os silenciosos expectadores asiáticos, aflitos e em êxtase, aplaudiam de pé a besta fera que se erguia no topo da montanha chamada Pride e fincava suas garras no hall das lendas do combate.

Impossível falar de Wanderlei Silva sem sermos respingados de sangue ou pisar eventualmente em estilhaços de dentes. O mais brutal dos lutadores de MMA lapidou a machadadas sua rota traumática de violência, nocautes, frenesi e glórias. Essa não é uma crônica sobre sua carreira, mas um espasmo de memória. Pequenas fatias de uma grande história ainda inacabada tal qual flashs de imagem estourados entre um soco e outro.

Mais do que conceitos de luta, ele distorceu nossa percepção de heroísmo. Em MMA o mocinho não é aquele que dá declarações politicamente corretas, é o que entra sem medo de bater na curva, é quem nos entende e coloca o corpo para acelerar sem medo de queimar um fusível, rubrica as vitórias e não choraminga derrotas. Nossos gritos eram o hormônio que corria em suas veias, os litros de sangue que enchiam seus olhos, a corda que suas mãos davam ao girar. Foi o primeiro grande lutador a entrar em simbiose total com a massa. Wanderlei entrava nos rings do Pride sobre uma catarse de berros, palmas e música eletrônica, nosso carrasco, nossa máscara, enquanto a vítima esperava indefesa, paralisava frente ao inevitável. Um porquinho no abatedouro. Não importava quem estava lá, era mais uma questão de como Wanderlei iria despedaçá-lo. Nunca beleza e brutalidade se mesclaram tanto quanto em seus momentos, um lutador que poderia ser escrito por Quentin Tarantino.

Quem esteve lá, no IVC 2 em 97, diz que se apagassem as luzes do estádio cada golpe entre Wanderlei e Arthur Mariano explodiria em fagulhas que iluminariam momentaneamente todo o espaço, como uma briga de facão seco e em brasa. Quem ouviu o estrondo oco de seus pisadões esmagando a caixa craniana de Dan Handerson contra a lona, martelando o chão seguidas vezes, diz que o derrotado só saiu vivo por que seu destino era outro. O estalo chicoteado do ligamento do ombro de Sakuraba estourando ao ser quebrado no solo como coco se espatifando na calçada, deve ser ouvido por ele até hoje em pesadelos. Wanderlei marcava com ferro quente os derrotados.

Sua história envolve ainda muitas derrotas, o nascimento de seu filho, cirurgias plásticas, a abertura de sua academia, o racha com Alejarra, uma postura de vida menos agressiva e tantas mudanças, mas nada disso interessa aqui. Esse texto é reflexo apenas de seu momento áureo, do doentio no espelho com aquele olhar louco que vem da medula, que tem apenas um alvo, a eternidade.

Com as duas mãos trançadas numa nuca as suas joelhadas colocaram para dormir as dúvidas que restavam sobre MMA ser o esporte mais incrível do planeta. Foi mais do que um lutador, foi um monstro hipervascularizado de olhar vidrado, respiração pesada, uma besta fera acorrentada dentro do calabouço tenebroso de nossa psique de onde saia para matar nossa sede de agressividade. Não entrava no ringue, era solto lá dentro. Ele não dava desculpas, nem nós. Wanderlei fazia o que tinha que fazer e as regras do esporte pacificavam sua violência e perdoavam nosso pecado.

Hoje ele é um homem pacato, mas Wand o destruidor mora em nossa alma para sempre. É a criatura que ainda esperamos rever cada vez que entra no octagon. Seu corpo já caiu várias vezes, mas a lenda permanece de pé. A sua trajetória é poderosa e sem romantismos. É a rosa de aço aparafusada no asfalto. É o gole fundo de absinto. É o trauma que marca uma vida. Quebrou e foi quebrado por nós. Era parte gente, parte a gente. Ele era milhões. Wanderlei foi nosso maior exército.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ANÁLISE: STRIKEFORCE - Fedor VS Pezão


Num violento e comovente evento, Strikeforce funde esporte e emoção genuína num bom card que se desdobrou em ótimas lutas. O renascimento do Grand Prix, a queda mais funda do maior dos mitos e os primeiros passos de um grande lutador. Esse evento foi tudo o que o UFC sempre tenta ser e na maioria das vezes não consegue.

Fedor Emelianenko VS Antonio Silva “Pezão”

Pezão é um dos melhores pesados do mundo faz tempo, mas um caso mal resolvido de antidoping e a indiferença do UFC o vinham mantendo a margem do topo da mídia e conhecimento da maioria dos fãs. Enorme, pesadíssimo, bom jiu-jitsu, e com a caixa craniana e mãos recheadas de chumbo, é um dos lutadores mais complicados de se enfrentar no planeta. Difícil de derrubar, seja na mão, seja em quedas, assustador de se encarar numa troca franca de golpes e complicado de controlar no chão. Pezão é quase um animal e teve sua noite de gala nesse Strikeforce, brutalizando, sem respeito ou receio, o maior dos lutadores de MMA.

Tirando a realidade prática do caminho, uma questão ainda fica no ar. Teria Pezão conseguido suplantar Fedor se esse ainda estivesse no auge da carreira? Ou será que Fedor ainda está no auge e perdeu para um atleta mais completo? São essas questões que colocam em xeque sua qualidade que me fazem achar que ele deveria parar de lutar. Quando os fãs começam a achar que uma lenda talvez não tenha sido tão boa assim, é hora de abandonar o esporte. O agora é a cabeça do cometa, é o mais visível. È preciso o meteoro de dissipar, cessar o movimento, para podermos voltar a perceber o rastro.

Fedor já está em declínio faz anos, mas mesmo assim venceu lutadores TOP 10 na época como Arlovski, Sylvia e Brett Rogers. Mas luta a luta ele vem aparentemente perdendo a vontade de estar ali. Quando perguntando, anos arás, porque estava invicto, Fedor respondeu que talvez quisesse mais vencer do que seus adversários. Talvez seja isso. Wedum e Pezão pareciam querer muito mais derrotá-lo do que o oposto. O olhar de Pezão era uma mistura de fome, agonia, êxtase, ferocidade. O olhar de um cara que veio da Paraíba e tinha tudo para não contrariar as estatísticas e morrer seco e desnutrido. Esse olhar que diz muito mais do que a pupila mostra, é o olhar que fedor tinha. Mesmo calmo, mesmo frio, mesmo fundo, seu olhar escondia milhões de anseios e desejos e força e poder. Nesse Strikeforce não vi isso. Vi o maior de todos os tempos cumprindo um contrato, lutando apenas pelo esporte e não pela glória.

Fedor começou agressivo e se lançou a estourar as mãos contra a estátua da Ilha de Páscoa que Pezão tem no lugar da cabeça. Um primeiro round intenso, violento, mas que vazou o tanque de gasolina dos dois, que entraram sem gás no segundo. E cansados, o mais pesado e mais faminto se superou e superou o adversário. Fedor apanhou muito e agüentou. Por nós, pela sua religião, pela M-1, pela família, pela Rússia. Sabe-se se lá. O que está em vídeo é que ele agüentou quase 5 minutos e mais de 160 golpes diretos na cara de um lutador quase 30 kilos a mais. Só ele para passar por isso acordado.

Seu espírito agüentou, mas seu corpo não agüenta mais. O Capitão que afunda com o navio ainda está vivo quando sua embarcação, aparentemente tão mais forte, já foi destroçada.

Fedor perdeu aquela que deve ser sua última luta. E mesmo nesse que talvez tenha sido seu último round tivemos brandos lampejos de grandeza. Qual lutador conseguiria sair de um katagatame justo, encaixado e soldado, de Pezão depois de apanhar tanto tempo e possivelmente com os ossos do rosto estilhaçados? Só fedor. E pezão não desistiu da chave, Fedor saiu. Mais uma vez, só Fedor. E quantas vezes já não dissemos isso para nossos amigos, namoradas ou para nós mesmos? Fedor foi maior do que o esporte, foi mais alto que os muros nacionais, em sua bandeira russa tantos de nós viam a nossa própria, foi o incrível, o impossível, foi o “puta merda” que os narradores seguravam para não dizer ao vivo, foi o primeiro vídeo de MMA que mostrei para minha família, foi quem me fez deixar de apenas admirar esse esporte para amar. Para sempre será o maior porque ele transcende o momento e o espaço que respira, nos inspira, nos une, nos faz bem. Fedor é o maior lutador que o MMA já teve, mas hoje em dia já não é mais o melhor. Hoje, Pezão é melhor que Fedor Emelianenko.

As trombetas soaram anunciando o fim de sua carreira. Tomara que ele as ouça tão claramente quanto eu ouvi.

Sergei Kharitonov VS Andrei Arlovski

Arlovski começou a se confundir na carreira quando estreou seu protetor bucal em forma de dentes, que para ele são de pitbull, mas para quem conhece a raça, parecem mais de vampiro. A fama alcançada com o cinturão do pesado no UFC subiu a cabeça do nativo da Bielorússia. Afeito a noitadas, trabalhos como modelo, sonecas até tarde, Andrei não conseguiu fugir dos socos invisíveis que a mídia e o sucesso sempre soltam na linha de cintura das estrelas. Arlovski foi um grande lutador, mas muito menor do que poderia ter sido. Vindo de 6 vitórias até perder duas vezes seguidas para Tim Sylvia e entrar em conflito com Dana White sobre os valores de sua renovação de contrato, que acabou com seu corte da empresa, enfileirou mais 5 vitórias até encarar Fedor no Affliction.

Arlovski poderia ter sido mais do que um grande lutador, é verdade, mas aquele nocaute para Fedor sugou sua alma e a aprisionou em algum lugar remoto e desconhecido até para ele próprio, que hoje em dia entra para lutar vazio. Uma casca sem gema.

Kharitonov que não está nem aí para essas histórias do ocidente, rachou Arlovski ao meio. Verdade que Andrei estava melhor na movimentação, acertando mais golpes, mas um ovo nunca vai quebrar um pedregulho.

Dos grandes lutadores da era do Pride nenhum tem a carreira tão irregular quanto Sergei que parece ter renascido nesse torneio. Feroz, blindado e recheado de má intenção. Kharitonov não diz, mas veio para esse GP com o nervo pinçado pela vingança de ter sido esquecido de todos, isolado lá naquela terra do oriente chamada Japão, fazendo luta contra atletas de baixo nível, como se fosse um lutador qualquer. Alguém vai pagar por isso e ele já fez a primeira vítima.

Shane del Rosario VS Lavar Johnson

Grandes lutadores constroem seu legado vencendo outros grandes ou massacrando os menos qualificados para virar highlight no youtube. Shane está invicto em 11 lutas, apenas um adversário resistiu até o segundo round e o potente Lavar não conseguiu ser exceção. Um lutador veloz, explosivo, moderno e que vai ser bem conhecido em 1 ou 2 anos. Não troca de modo cadenciado, parte pra briga de braço mesmo, não tem medo de ser atingido nem de cair por baixo. Pensa rápido, tem um bom repertório de finalizações, carisma e nome de campeão. Cain Velasquez começou a carreira assim, espancando desconhecidos de modo empolgante.

Gostaria de ver Rosario contra Struve, Schaub, Cro Cop, Pat Barry ou Nelson no UFC. Seria uma aula para os mais jovens que pensam só haver grandes lutadores na empresa de Dana White e que o resto é segundo nível, ver um desses TOP 10 da organização ser facilmente desmantelado. Shane del Rosário é um grande lutador, mas a maioria dos fãs ainda não sabe disso.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ANÁLISE: UFC 126 - Anderson VS Belfort


Muitos fãs de futebol que viram Garrincha e Pelé jogarem dizem que depois disso ninguém foi realmente tão incrível. Outros dizem o mesmo de Fangio, Senna e Schumacher, Ali e Tyson e milhões dirão o mesmo sobre Anderson silva e Fedor Emelianenko com saudosismo daqui a anos. Num dos três melhores UFCs da década presenciamos mais uma apresentação com a assinatura do maior lutador que já caminhou sobre um octagon, a consolidação de um dos prováveis melhores lutadores de todos os tempos em Jon Jones e ainda Kid Yamamoto e Donald Cerrone escondidos que nem brinde de sucrilho nas preliminares.

Anderson Silva VS Vitor Belfort

Para os mais jovens e desinformados Vitor é um lutador de boa aparência, que aparece no Faustão, fez ponta em Malhação, marido da ex feiticeira e que iria “acabar com a marra” de Anderson. Para os mais antigos ele é bem mais do que isso.

Belfort nunca foi nocauteado, nunca foi posto para dormir. As vezes que perdeu por nocaute técnico é porque seu coração desistiu antes do queixo. Por algum motivo tem como habito se desinteressar pela luta quando ela se estende ou há muito atrito. Simplesmente deixava pra lá. Nunca foi conhecido como um lutador raçudo ou perseverante. Sempre que Belfort foi realmente atingido no rosto, perdeu a luta. Mas quando ele ainda está aceso, quando ainda está querendo estar ali, ele é quase imbatível. Tem o melhor boxe em MMA de todos os tempos, desde quando MMA ainda estava em estágio embrionário sob o apelido de vale tudo ainda não apareceram 3 lutadores com mais poder de nocaute do que ele, em qualquer categoria de peso. Excelente faixa preta de jiu-jitsu, excelente quedas e defesa de quedas, Belfort é o fenômeno. Um atleta completo e devastador enquanto ainda está focado na luta. E ele nunca esteve tão focado, querendo tanto uma vitória, tão ligadão nos reatores, tão vidrado e preparado quanto esteve nos poucos minutos em que coexistiu com Anderson no octagon.

Ele não foi nocauteado quando já tinha dado sua famosa esmorecida, ou quando seu gás ou meta haviam se tornado tênues. Ele foi desmantelado em seu auge, quando adrenalina deslizava veloz por suas veias, quando ele mais queria, mais achava que ia conseguir e com a força dos milhões de fãs junto com ele. Foi nessa hora que Anderson o tirou para quase nada. Anderson nocauteou a melhor versão, mais rápida, mais afiada, mais sedenta, mais preparada fisicamente do Vitor Belfort. Não se deixem enganar por quem disser o contrário.

È normal torcer contra um campeão. Para alguns é divertido vê-lo cair de tão alto. Eu prefiro torcer pelo magnífico, pela grandeza, mas entendo e respeito que alguns se permitam certa mediocridade vez em quando. Torcer contra Anderson é comum. È da natureza do esporte esse fluxo de sensações envolvendo alguém extremamente bem sucedido, mas posso afirmar que todos que o vaiaram no dia da pesagem e na entrada do UFC 126 sofrem de alguma espécie de distúrbio.

Parto da premissa de quem paga mais de mil dólares para ver a luta ao vivo ou pague uma mensalidade ao UFC club para ter direito a, dentre outras coisas, ver as pesagens, deve ser fã de MMA. E MMA só existe hoje dessa forma sólida e bem sucedida por conta de lutadores como Anderson Silva. Muitos que começaram a gostar do esporte hoje, com quase dois UFCs por mês, não sabem que o esporte quase faliu e se arrastava para colocar um evento de três em três meses. Foram lutadores como Anderson, Sakuraba, Fedor, Wanderlei e muito poucos outros que ficaram ao lado do MMA quando ele estava ligado a aparelhos. Foi o magnífico de suas apresentações que ecoavam ao redor do mundo e faziam o esporte parecer muito mais importante do que realmente era na época. Hoje há vários bons lutadores e boas campanhas de marketing, mas tempos atrás só havia performance. A grande propaganda era a qualidade da luta. Era mais cru, mais cruel. Vaiar Anderson, Liddell, Couture e outros é vaiar o próprio esporte que ama. È se chamar de bobão, é não saber quem descobriu o Brasil. Ou é, no mínimo, ser bem ingrato.

Anderson entrou na alma de Belfort logo no dia da pesagem. Vitor não é santo, adora dar desculpa para suas derrotas. Disse textualmente que foi roubado na luta contra Ortiz quando comentarista do SporTV (realmente foi prejudicado, mas a expressão “roubo” mostra que não teve nobreza na derrota), disse que o juiz interrompeu sua terceira luta contra Couture apenas por sangramento, quando na verdade estava sendo espancado sem esboçar reação. Mas é verdade que Vitor é um homem sério, apegado a família, vive fora de baladas e dessas vicissitudes a que muitos esportistas são afeitos. É um atleta profissional. Não ofende de maneira baixa, não xinga, não intimida. È um cara legal. Ele não esperava tanta agressividade e imponência vinda do campeão. Não se intimidou, mas Anderson jogou uma estrela ninja em sua psique.

Na hora da luta Vitor fez tudo o que falou que ia fazer, após um começo hesitante, partiu para cima, acertou dois socos quando Anderson começava a querer dançar, derrubou e já caiu soltando um cruzado cheio de maldade, forçou a luta como um grande lutador deve sempre fazer e teve o mesmo final de todos os que fizeram o mesmo. Acabou nocauteado, dormindo de olhos abertos. Tamanha foi a violência do chute e precisão nos dois golpes no chão que pode ter confundido as luzes do teto do estádio com a passagem para outra vida.

Anderson Silva presenteou mais uma vez uma maioria que insiste em querer vê-lo perder com um diamante. Reflete o insulto e as vaias com o fantástico. Transformou um chute bem conhecido em karatê, tae kwon do, capoeira e outras artes numa coisa única. Como a bola nos pés de Pelé deixava de ter vontade própria por respeito ao mestre.

O impacto desse chute só será realmente sentido daqui a uns dez anos, mas grandes ondas já começaram a sacudir a mídia nacional. Nunca foi tão comentado no Brasil um evento de MMA. Pessoas comentam no salão, na academia, no ponto de ônibus num boca a boca muito saudável antes exclusividade do futebol.

Estamos presenciando o último e mais magnífico ato de uma carreira grandiosa. Podemos assistir de pé, com o olhar fixo, ou sentados e vaiando. Cada um sabe o que mais lhe apetece a alma.

Jon Jones VS Ryan Bader

Da mesma maneira que Jon Jones afirma sentir que esse é seu momento, não sabe explicar, mas é como se sentisse que vai ganhar todas as lutas que fizer, posso afirmar que ainda escreverei muitas coisas sobre ele. Jones é um fora de série, não dá para medir apenas pelas sua credenciais. Já está bem além disso. Bader foi campeão da divisão 1 de wrestling e Jones apenas campeão na universidade. Mesmo assim Bader não conseguiu derrubá-lo e ainda foi dominado no chão como um iniciante. È o equivalente a um campeão estadual faixa azul de jiu-jitsu escovar um campeão mundial faixa preta em MMA. Pode acontecer é claro, desde que ele seja um gênio.

Jones é um caldeirão de influências. Treina e estuda tantas artes que sua mente ainda não consegue criar um padrão de luta. Vai dar um soco, muda de idéia no meio do caminho e vira uma cotovelada voadora. Seu cérebro parece ter mais capacidade de armazenamento que o normal. Parece que fica o dia todo na máquina de upload de habilidades do Matrix com aquela agulha encaixada na nuca. Simplesmente parece veloz demais, grande demais, inteligente demais, calmo demais, para qualquer peso meio pesado do mundo.

Percebi uma expressão de resignação no rosto de Shogun ao aceitar oficialmente a luta. Depois de se preparar para Rashad e saber que antes ofereceram a disputa para Rampage, pegar Jon Jones é como tirarem o sushi da sua frente, colocarem uma feijoada caprichada e deixarem para se virar com dois pauzinhos. Não vou dizer que o brasileiro não tem chances, qualquer pessoa com as valências mentais ainda intactas nunca descartaria Maurício Rua, mas nesse momento, Jon Jones parece simplesmente imbatível.

Bones fez Bader, invicto até então, parecer um lutador qualquer que nem sabia o que fazer no octagon ao finalizá-lo sem esforço no segundo round. Jones fica de pé, coloca as duas mãos junto à boca e abre os braços numa saudação de saltimbanco, de circo de Soleil, de David Coperfield. Ele sabe que o octagon é seu palco e o show está só começando.

Forrest Griffin VS Rich Franklin

Eu possuo extremo respeito por lutadores profissionais. Quem treina entende como esses caras são alguns dos maiores atletas do planeta, submetidos a alguns dos maiores regimes de treinamento suportáveis pelo corpo humano. Estar no topo, ou ter estado, é algo para se louvar e contar para os netos. È mais fácil escrever escrever cíticas num blog do que ser campeão como Forrest e Rich já foram. Mas quem, fora familiares, empresários e treinadores, realmente estava se importando com essa luta? Quem ganhar chega aonde e quem perder cai para onde? Para mim os dois são como o vovô que quer brincar com os netos de pique pega: “café com leite”. È claro que são lutadores competentes que vendem caro as derrotas, deixam o adversário sempre moído, fazem combates movimentados. Mas simplesmente parece que eles saíram do eixo, eles desencaixaram do quebra cabeça. A luta deles deveria acontecer em feiras de MMA como a UFC Fan Expo. Depois tomariam banho e dariam autógrafos rindo, como se nada tivesse acontecido. Até porque para eles vencer ou perder não faz mais diferença. Se apaixonaram tanto pelo processo que perderam uma meta maior.

Foi uma luta movimentada entre um enorme Griffin e um pequeno Franklin. Vitória do primeiro que não tem uma performance a altura de seu nome faz quase dois anos. A melhor coisa que Forrest Griffin fez nesse tempo foi seu excelente livro Got Fight.

ÚLTIMO ROUND

O UFC insiste em trazer estrelas asiáticas apenas quando elas estão em declínio. Kid Yamamoto está longe do auge de sua carreira, mas poderia ter vencido com facilidade Demetrious Johnson. Não venceu. Lutou de modo apático como Aoki lutou no Strikeforce, como Akyiama vem lutando, Gomi e Sakurai. Parece que colocam alguma coisa na água dos japoneses quando lutam nos EUA. Ou será exatamente o contrário? Impossível responder. Dana não ligou já que Kid deve ter sido contratado para fazer as pessoas curtirem a página do UFC no Facebook.

Sobre Donald Cerrone nas preliminares deixarei aqui meu silêncio em protesto. Basta dizer que ganhou o prêmio de luta da noite.

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CRÔNICA 11 - QUINZE BILHÕES DE ANOS (Publicada na Revista Tatame edição 179)


Quinze bilhões de anos atrás uma explosão chamada pelos cientistas de Big Bang deu origem ao universo, 60 anos atrás Helio Gracie enfrentou Masahiko Kimura no Maracanã, 18 anos atrás Royce estreou no Ultimate Fighting Championship 1 e mudou a lógica do combate para sempre. Nesse ano de 2011 o UFC vem ao Brasil e o MMA vai explodir e fazer todos os outros esportes sentirem o brilho de sua presença.

Falem o que quiserem os detratores, 2010 foi um grande ano, cheio de surpresas e momentos poderosos que vão ser lembrados por décadas. Lamentamos a queda do maior de todos os tempos, Emelianenko Fedor pelas pernas em forma de triângulo multidimensional de Werdum. Fomos comovidos pela brutalidade sincera da maior lutadora de MMA viva, Cris Cyborg. Curtimos, sofremos e testemunhamos juntos o açoite e renascimento da lenda Anderson Silva. Vimos Cain Velasquez despedaçar Brock Lesnar e largar sua carcaça ensangüentada junto às grades para os abutres terminarem o serviço. Vimos a queda mais dramática do mito inabalável chamado Minotauro e o brilho cada vem mais intenso do dínamo José Aldo. Vimos o inatingível Lyoto Machida ser posto para dormir e dois brasileiros fazerem evento principal no Canadá. Barreiras foram derrubadas. Presenciamos desenvolvimento de futuros grandes lutadores como Jones, Erik Silva, Phill Davis, do Bronx e fim do WEC celebrado pelo mais fantástico, super muthafucking-neo-ninja, Van Damme style chute na cabeça do universo mapeado pela ciência, desferido por Pettis. Um golpe eliminador de realidades, de certezas absolutas, que só existe de verdade no MMA.

Nem mencionei a força destrutiva de Cigano, a primeira derrota por finalização de Sakuraba, o reinado infinito de Aoki no Japão, as derrotas de Penn para Edgar, os cinturões de campeão de Jacaré e Feijão no Strikeforce e tantas coisas. Cada um ter para si outros momentos marcantes, mostra como esse ano foi grandioso.

2011 começa em ritmo frenético. Talvez pela absorção do WEC pelo UFC. O melhor agora é também mais veloz. Aditivaram a gasolina. Seria Anderson e Belfort a luta mais esperada de todos os tempos ou seria a revanche de Werdum e Fedor? José Aldo vai trilhar o caminho que parece predestinado e se tornar um superstar, ou vai quebrar sob a pressão? Cigano vai quebrar Velasquez ou será mais um derrotado pelo quase mexicano em sua rota para se tornar uma lenda? Minotauro sairá de Creta mais uma vez ou seu tempo como um dos melhores está esgotado? Ele contra Brock Lesnar seria suficiente para lotar todos os assentos do UFC no Brasil? Será o ano do Dragão ou Lyoto foi decodificado? Tudo indica que St.Pierre subirá de peso definitivamente para clamar o cinturão dos médios. Seu pragmatismo entenderá os movimentos geniais de Anderson? Se Anderson teve dificuldades contra Sonnen, aguentaria Pierre? Será que Anderson ainda será campeão? Jon Jones vai dominar o peso com a facilidade que todos prevêem? Ele é capaz de fazer a divisão mais difícil do esporte parecer fraca? Charles vai alcançar seu possível potencial? O DREAM vai falir? O Strikeforce continuará crescendo e fazendo mega shows? O que é certo é que o UFC virá ao Brasil dia 27 de agosto e eu estarei lá.

Esse será o ano 1 para o MMA nacional. Revistas, jornais e TV sentirão um impacto revolucionário. Somos o coração dessa forma de competição, a luta está na nossa aura, dentro do nosso olhar. Muitos brasileiros ainda nem sabem que esporte é esse, mesmo assim temos grande parte dos melhores lutadores, dos maiores campeões, das maiores lendas e somos um mercado que só cresce. Imaginem quando o país todo souber quem somos nós e que esporte é esse que amamos. Vamos ajudar a desenterrar o tesouro.

IVC, MECA, PRIDE e UFC são os quatro maiores eventos já criados. Descendentes de uma linhagem de grandeza, de megalutas inesquecíveis, lutadores e momentos eternos. Pelé Vs Chuck Liddell, Mariano Vs.Wanderlei, Kerr VS Gurgel, Sakuraba VS Royce, Fedor VS Minotauro e tantas outras lutas que foram, aos poucos, construindo nossa paixão de hoje. Nos cabe lembrar das gerações passadas para entender e respeitar mais a nova. O UFC voltará ao Brasil e o esporte mudará de novo porque voltaremos a ser parte da equação. Voltaremos a ter voz ativa, a tomar nosso lugar de direito como país influente nesse esporte fantástico que criamos quase sozinhos.

Em 2011 grandes lutas vão acontecer, estrelas vão nascer e apagar, vamos nos surpreender, testemunhar e vibrar, sem frescura ou dor de cotovelo. O UFC será bem vindo e que comece a catarse. Que rache a casca da semente. Que exploda aqui essa bomba mágica que só constrói. Todas as partículas da criação convergem para esse momento. Que montem nos cavalos junto conosco, os fãs, ou que sejam atropelados pela manada. O UFC não virá apenas para cá nesse ano, ele voltará pra casa.

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CRÔNICA 10 - A VIDA È UM OCTAGON (publicada na Revista TATAME 178)


O dia da luta está chegando, as fotos na coletiva de imprensa, a encarada na hora da pesagem. Você fala demais do seu adversário e depois passa a noite inteira pensando em como fazer metade do que disse ou fica quieto esperando o grande momento? É cachorro ou predador?

No vestiário, no dia da luta, é como estar no ônibus indo para o primeiro dia de trabalho, é o silêncio antes do trovão. É o momento em que pergunta se realmente queria estar ali. Você não conta, mas sabe a resposta. Se ficar nervoso segue em frente ou inventa uma lesão para não lutar? Desce do ônibus e chega atrasado ou dá as caras e mostra que merecia a vaga? Talvez vomite de ansiedade no vestiário, é normal, os músculos do abdome tencionam e contraem as entranhas. Você lava o rosto, coloca as luvas e segue pelo corredor de testemunhas, fãs, gente que vai contar a história real, ou pede ao treinador para esperar mais 10 minutinhos? Quando chega a sua hora, você olha os outros nos olhos ou fica com o olhar perdido? No último segundo antes de entrar no octagon, no escritório, no altar, você sente que era isso exatamente que queria fazer ou adoraria dar um passo atrás?

A luta vai começar. Nem que queira não dá pra arregar. Mas se pudesse, iria tentar? Quando ouve seu nome, sente o coração bater sangue para o corpo todo, todo vivo, sente que é agora, it’s time, ninguém vai tirar isso de você? Ou solitariamente sabe que não queria estar ali? Quando há problemas com alguém que você ama você está junto ou manda dizer que não está? Dá chilique ou resolve? Ajuda seus pais ou chama a mamãe? Quando anunciam o oponente você treme ou vibra com a chance de mostrar pra todos quem você realmente é?

Quando a luta começa você fica circulando, lançando jabs sem direção até ser vaiado ou faz o que deve fazer? Você sabe o que tem que fazer? Parte pra ganhar ou espera não perder? Se cair por cima, fica enrolando para ganhar pontos ou desce o cotovelo na cara? Vai ter pena ou vai lutar pelo seu sonho? Vai orgulhar seu filho, seu treinador ou vai amarelar? Se cair por baixo, vai ter medo de levar soco? Vai virar de ladinho e esperar o juiz parar ou vai sair para uma chave de perna? Abrir a guarda e pedalar e tentar levantar até conseguir? Se não conseguir vai desistir? Mesmo em desvantagem, encurralado na grade, vai se agarrar a vitória, forçar o adversário a desencaixá-la de você como se ela fosse parte do seu corpo e tentar ganhar de todas as maneiras até que eventualmente perca, ou vai entregar em troca do fim da luta?

Se sente invencível até que a realidade do combate, da vida, te prove o contrário ou já entra derrotado? Tem espírito de vencedor ou a resignação de um coitado? E mesmo que tenha sucesso, se dê bem, ganhe lutas e seja o fodão, você vai perder um dia. Todos perdem. Fedor Emelianenko perdeu. Mas quando cair, vai se levantar ou ficar no chão? Quando finalmente estiver de pé, olhará para frente ou para baixo? Chorará de tristeza ou vergonha? A derrota te incendeia ou te apaga? Enche seus olhos de sangue ou esvazia seus colhões? Já vai preparando a desculpa que vai contar para e imprensa, para a namorada, ou vai falar a verdade sobre seus erros? Reconhece ou desmerece o adversário? Quando se apagam as luzes, o sangue esfria, os machucados começam a doer, o coração pesar, você se promete nunca mais fazer isso de novo, mudar de ramo, deixar pra lá, ou absorve cada minuto, cada erro e acerto e está pronto para outra? Se pudesse mudaria de vida, de curso, de carreira depois de cada momento difícil, como um macaquinho que pula de galho em galho? Ou se sentiria vivo, por mais que decepcionado, ardendo com a vontade de fazer tudo de novo, ter outra chance, com a certeza absoluta e indestrutível de que encontrará seus sonhos em algum momento ao longo dessa estrada. Por mais que seja difícil. Se a estrada for de pedra, você será titânio.

A vida é um octagon e estamos com mini luvas pretas, invisíveis, todos os dias. Nossos adversários estão por aí, trabalho, fofoca, doença, mentiras e tanto mais. Como se estivéssemos constantemente esquivando socos ou escapulindo de um mata leão justo, sonhando em sermos mais do que já somos. Provar que amor, felicidade e reconhecimento existem sim é um combate duro contra a realidade imposta pela maioria que não tem espírito vencedor. São poucos cinturões em MMA, mas milhares de campões nas lutas do dia a dia, aonde ser feliz é a maior das glórias. Mas felicidade não é um lugar onde nascemos nem um presente dado. É uma dimensão que criamos. Um espaço nosso que abrimos na porrada, na marra, dentro da realidade sem graça da vida comum. Algo pelo que lutamos e eu vou lutar a minha vida inteira, até o último round. Você é um lutador?

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ANÁLISE: UFC 125 - Edgar VS Maynard


O técnico de futebol Luiz Felipe Scolari disse que “tudo que começa bem, acaba bem”, se referindo a um bom 2011 para o time do Palmeiras caso a pré temporada seja bem feita. Por mais que essa frase seja motivacional para a equipe, é de um tom romântico que não compartilho. Times ganham o estadual e são rebaixados no brasileirão eventualmente, Gray Maynard espanca Edgar no primeiro round e deixa a vitória escapar nos outros. È da natureza do esporte de alto rendimento. Mas seria um excelente ano se todos os eventos tivessem a mesma qualidade bruta desse UFC 125.

Frankie Edgar VS Gray Maynard

Só um dos maiores atletas do planeta conseguiria espancar Frankie Edgar por 4 minutos seguidos e só um verdadeiro campeão agüentaria. Aço é um dos metais mais fortes do mundo, mas não penetra titânio.

È difícil dizer que falta capacidade de decisão a Gray Maynard quando sobra coração a seu adversário. Gray é uma usina de milhões de gigatons. O lutador mais forte e estrategicamente rude do peso amassou Kenny Florian numa bolinha de papel em sua última luta. È um lutador franco, com discurso ríspido e objetivo. Ele quer ser campeão, só isso. E vai seguir em frente tombando qualquer objeto estático que ouse parar em sua frente. O problema é que Edgar não fica parado. Não fica quieto nem para apanhar. Maynard é visceral. Achar a resposta para quem pode vencê-lo não é fácil, mas é verdade que ele não conseguiu vencer Frankie. Um empate justo e frustrante numa das lutas que já será lembrada como uma das melhores do ano quando 2012 estiver se aproximando.

Frankie Edgar não é famoso por nocautes ou por finalizar lutas. De suas 15 apenas 5 não foram para os juízes e 3 foram suas primeiras contra adversários inexpressivos. Edgar é o Mr. Fightmetric, Mr.Compustrike. Nenhum lutador é tão procurado após um evento em sites que contabilizam golpes e ataques quanto ele. Parece que ganha de adversários que nós supomos que ele não deveria ganhar. O que mais justificaria BJ Penn ter uma revanche imediata após a derrota para ele e o mesmo acontecer agora com Maynard? Dana White parece querer que alguém tire Edgar de lá de qualquer maneira. Quase como não conformado com o cinturão ainda estar em sua cintura.

Edgar não fala mal do adversário, não nocauteia, não finaliza, não dá declarações polêmicas, não é modelo e não parece ter nada que o separe dos atletas comuns. De fora Edgar é um lutador franzino, bom menino, com um bom boxe, um excelente wrestling e só. Mas por dentro ele é um campeão de verdade. Um cinturão só marca a conquista, quem é realmente campeão nasce com alguma coisa diferente. Pode ser o sangue que bombeia mais rápido, os músculos que não cansam, os ossos que não quebram, a cabeça que não tonteia depois de 50 socos. É difícil explicar como Edgar agüentou o açoite de Maynard no primeiro round. Difícil explicar como ele voltou para o segundo com o nariz fraturado, mas com a esquiva, coragem e determinação de quem venceu o primeiro, e não de quem levou uma surra. Difícil explicar como ele continua melhorando tanto em áreas que ele parecia não ter mais como melhorar. Quantos atletas conseguiriam dar em Maynard o suplê que ele deu? Jogar um atleta tão poderoso, tão incrível nessa modalidade, quase que de cabeça no chão como se fosse um amador? Até o segundo round, todos afirmariam ser impossível.

Uma vez perguntado por que nunca havia perdido mesmo enfrentando adversários tão talentosos, Fedor Emelianenko respondeu: “talvez porque eu queira vencer mais do que eles querem”. Frankie Edgar quer demais ser campeão enquanto Gray Maynard acha que já é.

Brian Stann VS Chris Leben


Eu gosto de lutas rápidas. Elas tendem a ser o documento visual do talento de um atleta executado com perfeição, ou do despreparo total do adversário. Em qualquer um dos casos, é sempre uma luta importante para ranking, ou pelo atalho que um pegará para o topo ou pela queda do outro. Mas essa luta entre Stann e Leben não teve nenhum desses reflexos.

Leben não dá desculpas. Entra e luta. Todos sabemos e ele já provou mais de uma vez. Mas ele estava estranho e seu treinador mencionou que havia vomitado minutos antes de entrar. Vomitar por nervosismo é relativamente comum entre atletas de todos os esportes, mas não teria sido esse o caso. Leben tem a caixa craniana muito grande para seu peso e ainda é um lutador lento. Sem estar no auge de suas faculdades físicas para absorver quase 100% de todo soco que recebe direto, sem resvalos, ele não agüentaria muito contra ninguém. Ainda mais contra as mãos pesadíssimas e socos em linha de Stan. Leben foi nocauteado, mas se encontra estático no ranking, Depois das vitórias impressionantes que vinha encaixotando, uma derrota nessas condições não muda muito sua carreira. Uma luta contra Wanderlei seria de fissurar maxilares.

Stann tem uma carreira extremamente irregular. Muitos vão apontá-lo como um nome promissor e querer vê-lo contra TOPs da categoria mas estariam o jogando na cova dos leões. Stan tem história de vida e discurso para cativar o público. Nunca será campeão, mas com um pouco de cuidado o UFC pode transformá-lo num ídolo. Uma luta do “all american” contra o maior ídolo inglês, Michael Bisping, pode acelerar seu processo de canonização.

Thiago Silva VS Brandon Vera

A luta tinha tudo para ser explosiva, mas Thiago que tanto reclamou da estratégia de “amarrão” de Rashad contra ele próprio, aplicou a mesma contra Vera. Quando todos esperavam uma colisão sem piedade entre dois dos melhores trocadores do MMA, o que vimos foi um derrubando e batendo e outro caindo e apanhando. Mérito total do brasileiro por ser tão bem sucedido nas quedas e demérito total do americano, a essa altura na carreira, ter uma defesa de queda tão primitiva.

Thiago é um lutador feroz e tem os braços recheados de concreto. Quando ele luta seus adversários sempre saem avariados. Com exceção da derrota para Machida aonde ele entrou hipnotizado pelos comandos em japonês do pai de seu adversário e acabou nocauteado sem desferir um soco, até seu único outro algoz saiu com a cara amassada e quase foi nocauteado. Thiago tem 11 nocautes em 15 vitórias. É incontestavelmente um dos melhores do mundo e luta difícil para qualquer um, mas quando batucou nas costas do amaciado Brandon Vera, no terceiro round, ele não tirou onda com o americano. Tirou onda com ele próprio. Mostrou que mesmo pegando pelas costas um adversário indefeso e parado, ele não conseguia nocautear e nem era competente para finalizar, mas sabia como tocar pandeiro. A real maneira de um striker tirar onda é deixar o adversário com a cara na lona antes do fim do tempo regulamentar.

Thiago venceu a luta, mas perdeu aquela aura de lutador destemido, que vai para matar ou morrer. Antes, Thiago era sinônimo de trocação clara, sem receios. Agora parece ter adotado uma veia mais estratégica, mais moderada, que lhe renderá mais vitórias, mas as custas de lutas muito menos emocionantes. Tudo isso por ter sido derrotado por Rashad sem levar um soco, apenas em quedas estrategicamente perfeitas. Maldito Rashad. Uma revanche entre os dois poderia ser realizada sem luvas e num torneio de wrestling.

Para Vera não sobram muitas opções. Ele sorrir e brincar com o próprio nariz quebrado após a luta foi um barato. MMA é isso, é um esporte. Não há e não deve haver ódio ou rancor. Mas em esporte de alto rendimento, sorriso após uma derrota é muito pouco para valer uma bolsa de milhares de dólares no maior evento do planeta. Vera provavelmente será cortado.

Clay Guida VS Takanori Gomi

Durante o primeiro round, observando a movimentação errática de Clay Guida, me peguei lembrando da Joelma no show da banda Calipso. Ninguém no planeta se movimenta assim e luta ao mesmo tempo. È um padrão complicado de decodificar até para mestres na movimentação como Edgar, Cruz, Anderson, imagine para Gomi. Clay se moveu desprovido do constrangimento que grandes lutadores teriam em executar uma técnica de combate sem ter qualquer domínio sobre ela. Mas Guida não é um cara muito afeito a bons modos nem tem muita vergonha das coisas, vide os arrotos e cusparadas que já desferiu para nosso desgosto tantas vezes. Mas essa improbabilidade, essa tentativa incansável superando a lógica pragmática dos caretas, lhe rendeu mais uma vitória. Gomi é excelente em pé, tem precisão e um alcance enorme, mas nada poderia prepará-lo para esse tipo de lutador. Guida vence sem convencer de novo e continua subindo no ranking.

Quem começou a ver MMA hoje não sabe porque os fãs mais antigos adoram Gomi. Ele esteve envolvido em 5 das melhores lutas de todos os tempos. Contra Kawajiri, Pulver, Dias e as duas antológicas contra Azeredo. Um lutador tão fantástico em tão pouco tempo que se tornou, junto com Sakurada, um dos poucos asiáticos a realmente conquistar as mentes dos ocidentais. Mas isso foi há muito tempo atrás. Gomi ainda é novo e tem poder de nocaute, mas parece que o fogo secreto que arde nos lutadores especiais está só em seu apelido agora. Lutas dele contra trocadores podem render incríveis shows ao UFC, mas tenho dúvidas de o evento terá todo esse cuidado com a progressão de carreira do eterno Fireball Kid.

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ANÁLISE: DREAM DYNAMITE 2010 - Overeem VS Duffee


Milênios atrás os japoneses misturaram peixe cru com arroz e deu certo, mas achar que misturar regras e lutadores de eventos diferentes pode salva-los da falência anunciada, é “coisa de japonês”. O maior evento asiático do ano é confuso até no nome. Seria DREAM-Dynamite, K-1-Dynamite, FEG Dynamite, DREAM K-1-Dynamite ou apenas Dynamite? Nem os maiores sites de MMA do mundo chegam a um consenso e isso é reflexo de todo o conceito por trás dessa madrugada de lutas. Um evento enorme, arrastado, com casamento de lutas desnecessárias e 4 variações diferentes de regras. Lutas nas regras do K-1, lutas nas regras do DREAM, luta sem luvas não valendo socos no rosto e luta com um round nas regras do K-1 e outro do DREAM. Aqui seria uma sopa de entulho, lá, podemos chamar de sopa de tofu.

Um card com muitos bons lutadores e lutas por cinturão, arruinado por uma decisão desesperada por parte de seus organizadores. Se a história e o destino estavam esperando um péssimo evento para selar a falência dessas grandes organizações, pode ter sido esse. O DREAM de fim de ano foi um desastre.

Alistar Overeem VS Todd Duffee

Overeem mostrou que quando casam um lutador que sabe bater contra um que não sabe apanhar, o resultado é nocaute em menos de 20 segundos.

Overeem é um dos melhores lutadores de MMA do planeta, só Dana White não acha. E vai continuar não achando até conseguir contratá-lo para o UFC, aí começará a dizer que ele é TOP 10. Muitos dizem que o holandês toma anabolizantes, mas ele passou no antidoping olímpico para a luta contra Rogers no Strikeforce, outros dizem que ele só sabe bater, mas das suas 34 vitórias 19 foram por finalização, alguns ainda dizem que ele tem queixo de vidro, mas é o atual campeão do Grand Prix do K-1. O certo é que Overeem é um espécime que poderia ser saído do mesmo tubo de ensaio de onde um dia saiu Mark Kerr. Um lutador enorme, agressivo e decisivo. Um dos maiores da atualidade em peso e em violência. Uma luta dele contra Junior Cigano seria dinamite. Mas dinamite com pólvora seca para explodir, e não esse Dynamite de fim de ano que só faz puft!

Todd Duffee se divide entre ser lutador de MMA, estudante de direito, modelo fotográfico e garoto propaganda de uma revista de musculação. Como ele não é Georges St. Pierre, acaba meio confuso entre as atividades e não tem performance satisfatória em nenhuma, ou, pelo menos, não na que nos interessa. Nos ringues e octagons de MMA.

Sua vitória por espancamento sobre Assuério Silva no Jungle Fight 11 mostrou um atleta jovem, poderoso, com muitos buracos técnicos, mas que tinha tudo para se tornar um expoente no esporte. Dois anos depois ele continua com as mesmas qualidades e os mesmos defeitos, que um nível mais alto de competição não perdoa. Duffee vem com um botão de “snooze” no queixo. Parece que é só apertar que ele dorme mais 5 minutinhos. Perdeu por nocaute, o segundo seguido, e não pareceu muito abalado. Ele e fãs vão dizer que aceitou a luta em cima da hora e essas coisas, que são verdade, mas um lutador profissional que luta com a desculpa para a derrota na ponta da língua tende a acabar dormindo, debruçado sobre as cordas, com o nariz apontando para o chão.

Hiroyuki Takaya VS Bibiano Fernandes


Os comentaristas devem ter saído com a garganta arranhada de tanto que gritaram para tentar nos convencer que a luta pelo cinturão do peso pena do DREAM estava sendo emocionante. Numa luta sem shoyo, sem socos certeiros, chutes ou qualquer coisa que faça uma luta ser motivante, Bibiano perdeu na decisão para Takaya. Fosse essa luta nas regras do UFC, eu teria dado a vitória para o brasileiro que venceu os dois primeiros rounds, ou um empate, já que o segundo foi bem equivalente. Mas a luta não foi na América e o domínio no último round rendeu os louros ao japonês.

Marius Zaromskis VS Kasushi Sakuraba

Sakuraba já teve o osso do malar afundado, o orbital fissurado, ligamentos do ombro rompidos, várias lesões nos joelhos, fissuras na face e, nessa luta, quase ficou sem orelha. Um dos maiores lutadores de todos os tempos vai se desmantelando e deixando cada vez um pedaço diferente pelo chão, junto aos fragmentos do coração partido dos fãs mais antigos que já o viram até voar.

Sakuraba perde por interrupção médica quando sua orelha parecia prestes a se separar do corpo.

Zaromskis ainda vive da glória dos 3 incríveis nocautes seguidos que conseguiu em 2009 com chutes na cabeça no GP do DREAM para conquistar o cinturão do meio médio. Sua fama meteórica o levou a uma temporada fracassada nos Estados Unidos e retorna vencendo Sakuraba pela defesa de seu título justamente conquistado. Zaromskis sabe dar bons chutes altos e nada mais. Vai se manter campeão do peso no Japão enquanto a organização quiser vê-lo contra atletas asiáticos, independente de qualidade, ao invés de prová-lo contra competidores de melhor nível.

Sergei Kharitonov Vs Tatsuya Mizuno

Mesmo quem está de dieta, pode comer palmito. Não faz mal, não engorda, tem quase zero de carboidrato e etc. Quando os japoneses querem que determinado lutador saia do ringue com vitória certa é só colocá-lo contra Tatsuya Mizuno. Fora Manhoef, que ele venceu num dos resultados mais surpreendentes do século em qualquer esporte de combate, Mizuno fez 5 lutas contra lutadores mais renomados e perdeu as 5 antes do fim do segundo round. Um lutador tecnicamente medíocre que só ganha a vida nesse esporte por ser japonês.

Kharitonov fez sua segunda luta em dois anos. Uma derrota em 2009 e essa vitória em 2010. Só. Porque ele está tão fora circuito super aquecido do MMA é digno de estudos. Talvez o baixo custo de vida do país onde more não faça necessário mais do que isso para viver bem. Quem sabe? Dizer que ele faria frente aos melhores do peso lutando como luta agora, é uma inverdade saudosista. Mas que ele, em forma, seria uma excelente adição a qualquer card, isso é verdade.

Shinya Aoki Vs Yuichiro Nagashima

Eu tinha dado o prêmio de momento mais ridículo do MMA no ano de 2010 para a derrota de Duffe no UFC 114 e para a derrota de Marcus Aurélio para Aoki no Dream 16. Era um empate técnico. O primeiro, um gigante de 120 kilos espancar seu adversário por 3 rounds e acabar sendo nocauteado com um peteleco de raspão, o segundo, um faixa preta de jiu-jitsu ser dominado e colado ao chão por 20 minutos sem esboçar nenhuma reação fora tentar defender o rosto. Mas a derrota de Aoki nesse DREAM arrancou nos segundos finais e pegou para si o prêmio.

Clovis Bornay era Hours concours nos concursos de desfile de fantasias no Rio de Janeiro. Como ninguém conseguia vencê-lo lhe concederam essa honra, o consagraram como imbatível na categoria para outros poderem ter chance também. Por mais que ele continuasse desfilando, ele não competia mais. Essa derrota por nocaute de Aoki recebe a mesma honra. Nada na história do MMA, nenhum nocaute em um segundo, nenhuma fuga pelas cordas vai superar essa infâmia.

O primeiro round da luta era nas regras do K-1, aonde Nagashima é campeão. Aoki rodou, correu, pulou com os pés no peito, subiu nas cordas e fez tudo o que achava divertido na tentativa de humilhar seu adversário e desrespeitar uma outra forma de competição. Contou piada para ele mesmo rir, fez papel de moleque e tirou para bobalhões os milhares de fãs que estavam ali para ver um combate entre dois homens.

No segundo round, nas regras do MMA, Aoki partiu para definir. Já tinha mostrado que esse esporte chamado K1 aonde só vale soco e chute não é de nada mesmo, e entrou de modo amador nas pernas de Nagashima. Tão amador que levou uma joelhada no rosto e caiu dormindo, ridículo e desmoralizado em 4 segundos.

Nagashima vence nas regras do MMA um dos melhores lutadores do peso no mundo. E Aoki mostra que para ser um dos grandes é preciso ter um grande coração, ser homem de dentro pra fora, e apesar de ser um lutador fantástico, isso ele não é.

Último round:

Esse foi um evento de K-1, MMA, os dois ou nenhum? MMA precisa de seriedade para se firmar definitivamente. È um esporte que não para de crescer, mas ainda está na festa dos granfinos sob olhares desconfiados. É super violento, ultra explosivo, cheio de marketing e mídia poderosas, sem seriedade para juntar tudo num pacote profissional, se torna um circo.

Para mim, o ano acabou de modo glorioso no chute de Pettis.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ANÁLISE: WEC 53 - Pettis VS Henderson


Quando começava a tocar a música Illuminati do Fatboy Slim a nossa pressão aumentava junto com a velocidade acelerada dos BPMs. O sangue fluía junto com a sensação de que uma noite incrível de lutas estava para começar e nunca, nunca houve decepção. Mesmo quando um WEC era fraco, estava entre os 10 melhores eventos do ano. WEC chega ao fim de modo explosivo pelo peito do pé de Pettis, e garante seu lugar no hall dos grandes que já se foram, junto a Pride, IVC e Meca.

O site Sherdog publicou seu bem conceituado ranking e nenhum lutador do WEC está entre os 10 melhores. Sherk e Dunham estão na lista, mas Ben Henderson, Anthony Pettis e Donald Cerrone nem aparecem. Um erro tendencioso que será corrigido sem piedade por esses que são 3 dos melhores lutadores leves do planeta.

O UFC é inquestionavelmente o maior evento do mundo e a fusão com o WEC funcionará como uma hemodiálise. O evento que já era o melhor, agora também fica mais veloz.

Anthony Pettis VS Ben Henderson

A melhor luta do ano foi uma colisão entre dois dos lutadores mais incansáveis do MMA. Mais do que uma batalha física foi um choque de egos, de sonhos. Faltando 1 minuto para o fim do último round era difícil apontar um vencedor, na minha contagem estava dois rounds para cada um e o quinto estava, até então empatado. Os dois já tinham tomado prejuízo em pé, quase sido finalizados, sofrido reversões, achado que a luta estava mais para o outro e agora mais para si. Era o mar se chocando contra a montanha, o sol parado no horizonte. Não havia vencedor claro e, poeticamente, nem precisava. Até que, um minuto para o fim da luta Anthony Pettis manufatura um dos movimentos mais emblemáticos da história do esporte. Toma impulso e com o mesmo pé que serve de apoio para quicar na grade chuta o rosto de Ben, que cai e se esparrama pelo chão. Em segundos esse movimento foi um dos 4 mais tuitados no planeta e apareceu em mais sites que a coletiva de imprensa do UFC no Rio. Faltando 1 minuto para acabar a luta, Pettis mostrou que tem coisa que só acontece em MMA.

Numa luta tão parelha que poderia ser descrita somente em movimentos, sem nem citar nomes de atletas, o pé de Pettis resolveu a questão. Rasgou a poesia toda, foi um tufão que transforma o mar em tsunami e submerge a montanha, acordou quem estava dormindo. É o golpe que faz o gordinho querer emagrecer e virar lutador, faz o filho chamar o pai para ver, coloca MMA no highlight do maior canal de esporte do planeta junto com futebol, basquete e todos os outros. È o movimento que cria novos fãs e emociona os mais antigos.

O esporte precisava desse chute, dessa porrada na cara, desse movimento. O vôo de Sakuraba para pisar Royce no chão, o suplex de Randleman em Fedor, o bate estaca de Sapp em Minotauro, o nocaute com um jab de Anderson em Griffin e alguns outros. Não é um mero golpe, é um momento. Um momento que dissolve certezas, invisível para o impossível, quebrador de paradigmas. Um chute que será dado trilhões de vezes nasceu no esporte que mais cresce no mundo, na última luta do ano, no último WEC da história, no último minuto do último round. MMA é assim. Por isso eu amo esse esporte.

Pettis vai disputar o cinturão com o vencedor de Edgar e Maynard. Vamos ver se o pragmatismo técnico de um desses grandes lutadores será suficiente para agüentar a criatividade, violência e entrega total de um campeão forjado na categoria de peso mais disputada do WEC.

Benson Henderson tem tração, coração, ataca, finaliza, resiste e persiste. Foi vencido pelo incompreensível, pelo imponderável, mas não tem muitos atletas que tenham como fazer o mesmo. Ben vai dar muito trabalho a muito lutador TOP no UFC.

Dominick Cruz VS Scott Jorgensen

Cruz abaixa a cabeça e cambaleia pra frente, dá um passo de capoeira e corta pra trás, pendula para um lado, entorta para o outro. Parece que está em pé encima do caiaque. Ele não se move como uma pessoa normal. É uma colcha de retalhos de influências, de pedaços de estilos, e isso o torna um lutador único, indecifrável. Parece que tem imã nas mãos, porque não importa de onde ele as lança, sempre acertam o adversário. Seus golpes tem uma precisão enorme, mesmo disparados de um corpo em movimento tão errático. Parece que acerta o alvo equilibrado na corda bamba. Cruz tem carisma, aparência boa e um estilo peculiar. Ele e José Aldo são os dois campeões das duas novas categorias de peso do UFC. E que grandes campeões.

Scott Jorgensen é um lutador agressivo e dinâmico, mas Cruz não o deixou mostrar nada disso. No UFC, lutas dele contra Dunham, Sherk, Guida, Gomi, já vem com o carimbo de luta da noite.

Donald Cerrone VS Chris Horodecki

Se Cerrone se levasse a sério, coisa que nem seu treinador Greg Jackson consegue convencê-lo a fazer, ele poderia ter lutado pelo cinturão nesse WEC 53 e até saído como desafiante ao título no UFC. Mas Cerrone não quer ser campeão, ele quer lutar, quer ser maneiro, ter estilo e essas coisas. Por mais que seja de se lamentar sua falta de ambição, ele é talentoso demais e os momentos em que fez guarda contra Horodecki poderiam ter sido gravados por Paquetá e mandados secretamente para muitos treinadores de MMA no Brasil.

Jiu-jitsu pode ser uma arte agressiva, e em MMA, com limite de tempo, tem que ser. O rosto de derrota que muitos atletas brasileiros da arte suave fazem ao serem jogados ao chão, chega a ser digna de estudos. Como se cair por baixo fosse estar em posição de desvantagem. Nunca foi desvantagem para Minotauro, Sakuraba, Maia, Sotiropulos, Aoki, Toquinho, Royce e outros que agridem por baixo. Cerrone mostrou porque um faixa preta de jiu-jitsu tem que ser temido no chão. E se não for, se o adversário achar que é só se espatifar de barriga na guarda e ficar lançando socos, pagará o preço. Cerrone abriu a guarda e atacou, justo e preciso, até finalizar o jovem e experiente Horodecki.

Se Cerrone tivesse feito as lutas que fez no WEC, no UFC, já seria um favorito dos fãs. Todas as suas lutas são um barato, pra frente, chocantes. Revejam a primeira contra Ben Henderson ou a segunda contra Jamie Varner . O Cowboy ainda vai laçar e dominar muitos TOP 10 do peso no UFC.

Horodecki periga ser cortado ou fazer uma luta pelo contrato no card preliminar. Tem raça, luta e deixa lutar, mas não parece estar no mesmo nível estelar em que esse peso agora se encontra depois da fusão.

Último Round:

Esse WEC 53 foi o último da linhagem de uma raça em extinção, um evento voraz, faminto, com lutas agressivas e sinceras. O WEC acabou semana passada, mas continuará vivo por décadas influenciando lutadores e empresários, quase um documento assinado e registrado em cartório sobre como MMA deveria sempre ser disputado.

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ANÁLISE: UFC 124 - St.Pierre VS Koscheck


A maioria da mídia especializada adorou esse UFC 124. Pra mim foi um evento apenas razoável. Sem nenhuma luta incrível, mas com todas bem disputadas, me lembrou os dias de criança quando mamãe servia bife e arroz e perguntava se estava bom. Com batata frita estaria ótimo, se ao invés de bife fosse frango, estaria ruim, mas do jeito que estava, era “médio”. Esse UFC 124 foi um evento assim. Médio. UFC 117 com Anderson VS Sonnen, Fitch VS Thiago, Guida VS Rafael, Cigano VS Roy Nelson ou UFC 121 com Velasquez VS Lesnar, Sanchez VS Paulo Thiago, Schaub VS Napão são dois exemplos de eventos melhores. Para mim o ano fechará de modo explosivo com o WEC 53.

Georges St. Pierre VS Josh Koscheck

St. Pierre é o lutador perfeito. Causa a maior quantidade de dano sofrendo o mínino, não faz mais esforço do que precisa e o que faz é mais do que suficiente para desativar e desmoralizar seus adversários, não fere mais do que necessário seu oponente e faz wrestlers campeões da NCAA ficarem com vergonha de suas medalhas. Isso tudo sem palavrões ou ameaças, é capa da Men’s Health, atleta do ano no Canadá, modelo fotográfico e ainda distribui elogios e respeito para o derrotado. St. Pierre é a evolução do MMA por isso suas lutas tendem a ser chatas, como essa foi. Um atacando de esquerda e outro sendo atingido no olho direito. Isso resume bem a luta. As reviravoltas que adoramos ver, lutadores que saem de uma posição complicada para mudar a história, trocações violentas e despretensiosas, nada disso há nas lutas do canadense. São conseqüências de erros de estratégia ou técnicos, e St. Pierre não era mais. Errou uma vez contra Serra e foi nocauteado, uma vez contra Hughes e foi finalizado. As chances de erro foram calculadas e reduzidas a quase zero pelo seu sistema.

Mais do que assistirmos as suas lutas torcendo por algo muito emocionante, que não acontecerá, ou pela sua derrota apenas para vê-lo em uma situação diferente, é melhor aceitarmos que ele é um dos melhores atletas de todos os tempos e admirarmos suas performances. Admirarmos como ele consegue neutralizar lutadores excelentes como Fitch, Thiago, Penn, Koscheck, com uma aplicação estratégica visionária. Mais do que achar a luta legal, devemos estudar seus movimentos e escolhas táticas. St. Pierre faz lutadores incríveis parecerem que nem deveriam lutar MMA. Ele lhes tira mais do que a vitória, St. Pierre lhes subtrai de arrogância e acalma a alma. Dizem que as pessoas que tem uma experiência de quase morte e vêem a luz no fim do túnel voltam diferentes, mais simples. Quem luta com St. Pierre volta mudado. Como se fizessem um intensivão para monge no Tibet ou retornassem de um retiro espiritual. Até Dan Hardy abriu mão, mesmo que temporariamente, de seu moicano. Ao fim de cada luta Pierre está como sempre, inabalado e igual. Como um pai que não quer mais brincar de luta com o filho pequeno e o coloca para dormir. Cabe ao adversário diminuir e aceitar sua insignificância momentânea, optar pelo lado da grandeza em ser humilde do que ser humilhado tentando ainda se mostrar competitivo.

Freddie Roach já treinou 27 campeões de boxe incluindo o fenômeno Many Pacquiao e tem em Pierre seu melhor aluno oriundo do MMA. Freddie afirmou que Georges ganharia a luta com cruzados de esquerda.. E foram vários cruzadinhos e jabs de esquerda que definiram a luta.

St. Pierre é um dos maiores atletas do mundo, independente do esporte, treina com os melhores, viaja o mundo todo atrás de mais conhecimento. Sempre coloca mais carvão na sua fornalha. A máquina não para. Shields não tem a menor chance real de vencê-lo por mais que a máquina publicitária do UFC vá nos convencer do contrário. Pierre já admitiu que pode subir de peso e é o que deve fazer. Lutadores naturalmente mais pesados tem potência nos golpes e força muscular que podem estar além do que ele vem experimentando, e isso criaria lutas interessantes de verdade. St. Pierre conseguiria vencer Anderson Silva com jabs? Derrubaria Chael Sonnen? Em 2011 ele deve responder algumas dessas questões, até lá, vai passar por cima de qualquer adversário como Ghandi passeava por entre invejosos e detratores, transformando-os em seguidores ou seguindo em frente e ignorando sua presença.

Koscheck tomou uma surra de jabs nesse UFC 124. Sua explosão, cruzados perigosíssimos e quedas em nível de campeão mundial, tudo parou no couro da luva esquerda de Pierre. Parecia um touro doido indo de encontro a ponta da espada do toreador espanhol. Josh disse que ia fazer um monte de coisas e não fez nada. Era de se esperar. Pierre venceu, ao fim dessa luta, o trigésimo round seguido.

O Koscheck que fingia ter tomado dedadas no olho ou joelhadas na cabeça para prejudicar seu adversário saiu dessa luta um pouco mais homem ao aceitar continuar mesmo com o osso da órbita fraturado. Nesse tipo de fratura estilhaços de osso se agarram ao globo ocular zerando a visão, causando dor e impedindo a rotação. O médico insistiu em que abandonasse a luta, mas ele perseverou. Mais um que sai da luta contra Pierre com uma medalhinha de honra ao mérito. Foi assim com Hardy que teve o braço estalado algumas vezes e não bateu, Ficth que apanhou 5 ronds e continuou de pé, Thiago que teve os dois olhos fechados mas continuou em frente. Todos esportivamente vencidos, mas espiritualmente fortalecidos. Para eles, seu algoz poderia se chamar São Pierre.

Stefan Struve VS Sean McCorcle

Struve e McCorkle no co-main event. Sério? O co-main event é a segunda luta mais importante do card e será que alguém acredita que essa supera em importância Thiago e Howard ou Charles e Miller? Eu não. Para se ter uma idéia do absurdo, esses dois atletas fizeram suas últimas lutas no card preliminar. Struve pegou apenas 3 lutadores interessantes. Nelson e Cigano, foi nocauteado, e Paul Buentello que venceu na decisão dividida mais injusta e polêmica de 2009.

Isso acontece porque fora Velasquez, Cigano e Mir, todos os peso pesados relevantes do UFC vem de derrota. Carwin, Lersnar, Minotauro, Nelson. Também é conseqüência de Dana ter cortado Werdum, Arlovski, Sylvia e nunca ter contratado Pezão ou Overeem. 5 lutadores que passariam fácil por cima dos dois personagens desse ultrajante co-main event. O UFC precisa inventar novos lutadores pesados para colocar no mix.

A luta teve ritmo de rola, de treino. Tem gente que gosta dessas lutas cheias de giro displicente, raspadas de guarda fechada e lutadores sem expressão lançado a mão na cara do outro. Pra mim foi luta moderadamente divertida entre dois lutadores inexpressivos. O tamanho, carisma e nacionalidade holandesa de Struve o manterão por um bom tempo na organização. Stefan venceu por desistência, mas segundos antes poderia ter perdido numa kimura. Uma luta movimentada, mas sem emoção.

Após o evento, Dana White diz que Struve é um lutador de boa qualidade e está entre os melhores, mas que Alistar Overeem que só tem uma derrota no peso pesado, campeão do Strikeforce e atual campeão do K1 Grand prix é um lutador que ainda tem muito a provar para ser considerado top 10 no peso.

Jim Miller VS Charles Oliveira do Bronx

A maior das armas secretas de qualquer lutador é ser subestimado pelo adversário. Quando um excelente lutador é tomado por um lutador qualquer, o oponente tende a pagar o preço. Foi isso que aconteceu com Charles nessa noite. Miller é prepotente, acha que é melhor do que realmente é, mas é muito talentoso. Só perdeu para os dois que farão a luta pelo cinturão no UFC 125, é bom de chão, bom de mão e muito duro, mas os fãs brasileiros pareciam não se importar muito com ele e já davam Charles como vencedor. È verdade que tem muitos excelentes lutadores fora do UFC, mas também é verdade que 95% dos grandes lutadores estão lá. Em eventos menores como Itu Fight, Platinum, Predador FC, AVJ Events, Cage Domination e tantos outros pelo mundo, ainda podem ser encontrados lutadores que veriam aquele pé do Charles na cara pedindo para ser torcido e não fariam nada. Mas no UFC alguém vai se agarrar nele e aplicar uma chave de pé, joelho e etc.Foi o que aconteceu. Lutadores com as pernas longas tem que tomar cuidado redobrado ao tentar chaves de perna ou acabam se expondo para contragolpes letais.

Charles chegou como um campeão deve chegar, confiante, feliz, agressivo. Só que ainda não é campeão e talvez tenha se superestimado. Quando ele desferiu dois chutes altos a curta distância se expondo a dois cruzados que quase o atingiram eu percebi que, talvez, ele estivesse confiante demais. E ele atacou, lutou como gostamos. Não estou aqui para puni-lo pela ofensividade, pela coragem, mas ele tem que ter mais ajuste nas posições, tratar cada adversário como o melhor do mundo, se preparar mentalmente melhor. Estar com a cabeça legal pra luta não é só estar confiante, é estar concentrado também.

Charles é um lutador melhor que Jim Miller. Melhor no chão, melhor em pé, mais carismático, mais novo e mais promissor. Com calma e foco ele vai chegar longe e essa derrota pode te-lo ajudado. Deve fazer uma ou duas lutas com atletas de menor expressão e ir construindo cartel, o que é o certo. Ele ter sido colocado em sua terceira luta no maior evento do planeta contra um TOP 10, talvez TOP 3, foi uma falta de cuidado do matchmaker Joe Silva. Charles é importante para UFC e mídia internacional, que o adoram. Esse choque foi bom para desacelerar o processo de seu crescimento e dar tempo e espaço para ele se tornar o grande lutador que pode ser.

Miller é um bom lutador, tem em sua perseverança e concentração armas para se manter como um dos melhores do mundo, mas falta a ele a criatividade dos campeões. Depende demais de erros dos adversários para capturar uma vitória. Miller não consegue induzir os adversários a falha, não tem qualidade para isso, mas é constante. Está sempre lá, o tempo todo, tentando e tentando, esperando um erro. Se não vier, ele sairá derrotado, mas é impressionante como isso aconteceu poucas vezes. Miller será sempre subestimando e essa é sua maior arma. È o homem invisível.

Thiago Alves Vs John Howard

Numa luta unilateral Thiago fez o que adora, manteve a luta em pé e despedaçou seu adversário com um boxe seco e bonito de ver. Muitos acham que essa foi a melhor apresentação dele desde que entrou no octagon. Talvez não lembrem de suas lutas contra o Mendigo, Lytle, Koscheck e etc. Thiago pareceu tão melhor nessa porque vinha de duas derrotas para St. Pierre e Fitch. Dois lutadores que mostraram que Thiago de costas no chão só sabe tentar levantar ou proteger o rosto. O Thiago desse UFC 124 é o mesmo de sempre. Excelente em pé e fraco por baixo, mas pegou um adversário que aceitou trocar. Sempre que Thiago pegar lutadores que aceitem uma disputa de boxe, ele se sairá bem e parecerá um dos melhores do mundo, um que merecia lutar pelo cinturão de novo e etc. E sempre que pegar um lutador que consiga colocá-lo para baixo vamos achar que ele é fraco e que precisa melhorar muito se quiser o cinturão.

Thiago Alvez será o que o UFC desejar. Se quiserem que ele seja grande, o colocarão contra lutadores que só querem trocar. Como fizeram com Cigano. Vão dar carne para o dente morder. Se quiserem acabar com ele, é só colocá-lo contra bons wrestlers. Eu adoraria ver Thiago VS Anthony Johnson.

Howard vinha de derrota por TKO para essa luta contra Thiago. O Brasileiro tem qualidade para vencer lutadores melhores.

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ANÁLISE: TUF Finale 12 - Brookins VS Johnson


As vésperas da coletiva de imprensa no Rio de Janeiro aonde Dana White anunciará a data em que o UFC virá para o Brasil em 2011, um dos assuntos mais comentados da semana é o erro grosseiro dos juízes laterais nesse TUF FINALE 12. Da mesma maneira que dia 15 de dezembro marcará um momento histórico para o MMA no país, os erros consecutivos e crassos na avaliação das lutas respingam na reputação desse esporte que deveria medir quem é o melhor lutador baseado em qualidades técnicas, táticas ou atléticas, e não quem tem a preferência dos juízes ou quem deu mais sorte naquele dia.

Leonard Garcia VS Nam Phan

Garcia tem raça, coração, uma cabeça de paralelepípedo e nada além disso, mas são características suficientes para ser um lutador empolgante de ver. Todas as suas lutas são movimentadas ou bem disputadas e por mais que nunca vá disputar o cinturão, nos oferecerá seu crânio para impacto até que haja algum dano cerebral. Garcia luta por nós, pelos fãs, faz o melhor que pode sem dar desculpas ou fugir do contato. É um cara para ser admirado ou, no mínimo, respeitado. Mas ele não venceu essa luta contra Nam Phan.

Nam é veloz, tem um bom repertório de combinações em pé e tem um jiu-jitsu razoável em MMA, mas é a sua busca constante pela vitória, pelas brechas deixadas pelo oponente que o fazem um lutador interessante. Ele e Garcia fizeram uma luta bruta e rude durante 3 rounds que deveria ter sido o ponto alto do evento, mas não foi. Na verdade a luta perdeu quase toda importância tendo em vista os acontecimentos do lado de fora das grades.

Se Lyoto teve um pacote de figurinhas roubado na luta contra Rampage, Nam teve sua conta de banco devassada e cartões estourados contra Garcia. Lyoto foi vítima de um sistema complicado de julgamento, Nam foi vítima de incompetência ou má intenção. Phan venceu com clareza os 2 primeiros rounds e sobrou para Garcia o terceiro que, na minha opinião, ele também perdeu. Mas os juízes Adalaide Byrd e Tony Weeks viram diferente. Olharam para o cavalo e chamaram de bode. Nenhum profissional que tenha conhecimento claro das regras erra de modo tão bisonho. No McDonalds quem tentar fritar um hambúrguer sem ligar a chapa é demitido. Não tem conversa. Dana White chegou a pagar bônus por vitória para Phan tamanho o ultraje.

Temos que entender a proporção do problema. Boxe foi o esporte de contato mais rentável durante anos até que, dentre outros fatores, começou a ser acusado de ter lutas compradas e juízes vendidos. Essas suspeitas existem desde que o primeiro esporte foi inventado, mas quando um atleta que espancou seu adversário até quase a inconsciência por 12 rounds perde na decisão dos juízes, a mídia e fãs percebem que há alguma coisa nefasta. Não se trata de uma questão de decisões tendenciosas. Não é mais uma questão de manipulação de resultados controversos, é um roubo descarado. Se esse tipo de questionamento sobre a veracidade das lutas foi matando um esporte milenar como boxe, imaginem o que pode fazer com um esporte tão novo como o MMA. O golpe pode ser fatal.

O comentarista do UFC Joe Rogan disse ao longo da transmissão que há alguns poucos bons juízes cercados de um bando de incompetentes idiotas que não entendem nada do esporte. Deveriam todos ser mandados embora porque eles estão matando o MMA, dando a impressão de que há corrupção, quando o que há é muita incompetência. Steve Cofield, jornalista da Yahoo Sports, acha que Joe está falando demais. Que já está difícil regulamentar o MMA em Nova York por acharem ser muito violento e que declarações de que os árbitros são incompetentes só dificulta ainda mais. Ele foi além e disse que a maioria dos fãs se esquecem de resultados polêmicos depois de uma semana, então, a imprensa deveria bater menos nessas questões.

È verdade que a alta imprensa veicular a opinião de que todo o sistema de julgamento do esporte é falho e cheio de incompetentes não é positivo, mas é menos positivo ainda o que pode acontecer se quem tem visibilidade ficar calado. Primeiro pisam na nossa grama, não dizemos nada, daqui a pouco estão entrando na nossa casa. Todos nós, imprensa ou fãs, que em MMA ainda estão muito misturados, tem que se manifestar frente a demonstrações claras de má intenção ou incompetência nesse nível. Temos que defender o que acreditamos, tomar o remédio amargo antes que a doença se generalize.

Keith Kiser é o responsável pela NSAC. È ele quem contrata e demite os juízes e é verdade que já demitiu vários após erros como esse, mas não adianta mandar embora quem comete um erro por incompetência e contratar outro com as mesmas deficiências. MMA tem que ser julgado por amantes do esporte ou ex lutadores. Tem sutilezas dificílimas de serem percebidas por que não pratica lutas ou realmente amam o esporte.

Houve roubo nesse TUF FINALE 12. Nos roubaram a diversão, nosso momento de curtir o esporte que amamos, nos roubaram a verdade e a tranqüilidade, mas se ficarmos quietos é porque roubaram nossa vergonha na cara também.

Nam Pahn venceu Leonard Garcia nesse FINALE.

Uma curiosidade para quem gosta de teorias conspiratórias: Nos 3 resultados mais polêmicos do ano, os 3 lutadores prejudicados tinham alguma descendência asiática. Lyoto (filho de japonês) VS Rampage, Chan Sun Jung (koreano)VS Garcia, Nam Phan (descendente de vietnamitas) VS Garcia.

Jonathan Brookins VS Michael Johnson

A luta entre os dois finalistas da décima segunda edição do Ultimate Fighter foi uma das melhores lutas do ano. Um grande combate não precisa ser cheio de golpes no rosto até o último round. Em K1 talvez sim, em MMA não. Há vários modos de uma luta se desdobrar de modo emocionante. Apesar de alguns comentaristas terem como maior referência de Brookins a surra que ele tomou de José Aldo, eu prefiro ver pelo lado de como ele agüentou quase três rounds de espancamento nas mãos de um dos melhores do mundo.

Brookins saiu da derrota certa pelos punhos explosivos de Johnson para virar a luta nos dois últimos rounds. Quem diria que Michael, tão mais baixo e com menor alcance, acertaria tão claramente o rosto de Jonathan, quem diria que ele agüentaria a explosão com tamanha violência dessas luvas tão pequenas e cheias de mão dentro no meio da cara, quem diria que a chave para a reviravolta seria Brookins derrubar um excelente wrestler uma, duas, três vezes? Grandes lutas são assim. Diferentes do que antevemos.

Brookins tem um cartel sólido, é muito alto para o peso, muito competente no chão, sabe dar quedas, sabe agüentar adversidades, sabe apanhar sem perder a calma, é preciso, sabe quando golpear, sabe controlar o ritmo da luta e, quando tem a chance, quando consegue uma posição de domínio, raramente cede. Mas sua maior característica não é nenhuma dessas. É ser um cara muito legal. É feio pra caramba, mas é um excelente porta voz do esporte. Educado, humilde de verdade, tanto na derrota quanto na vitória, tem discursos sobre amizade e respeito. È importante para o MMA, que ainda é visto como esporte bárbaro para tantos, um atleta como esse. Um cara comum no dia a dia, uma pessoa agradável, que tem seu destaque aonde atletas de verdade tem que ter, dentro do octagon.

Michael Johnson é apenas um lutador esforçado e com um cartel irregular demais. Me surpreendeu St.Pierre e Koscheck apostarem tanto nele como o vencedor dessa temporada do TUF. Se Johnson quiser fazer carreira no UFC como é seu sonho, deverá começar por ajustar seu peso. Pequeno demais para o peso leve, ele deveria descer, da mesma maneira que Brookins acertou seu peso ao subir para os leves.

Demian Maia VS Kendall Grove

O domínio tranqüilo de Maia no solo mostrou que faixa preta gringa é azul aqui no Brasil. Grove, que é considerado um bom lutador de chão, se limitou a ficar por baixo e parado, encolhido dentro da toca com medo do bote da serpente. Sem um ataque ou qualquer coisa que provasse ser ele um lutador conhecedor jiu-jitsu. Parecia um amador com medo de ser finalizado no primeiro treino. Um desempenho constrangedor de um lutador que já almejou estar entre os 10 melhores do peso. Ninguém parece mais muito interessado em ver Grove lutar e acho que ele já percebeu isso.

Demian Maia sofre do mesmo mal que Okami e Condit. Não tem carisma e não voltará a disputar o cinturão fazendo lutas mornas como essa contra Grove e anterior contra Miranda. Não fossem os acasos da derrota de Sonnen e contusão de Belfort, ele não teria nem disputado o cinturão do peso contra Anderson. Se Maia quiser outra chance precisa terminar as lutas antes do tempo regulamentar. Mostrar que ele apesar de não concorrer ao prêmio de Mr. simpatia, ainda é um dos melhores lutadores do peso. Mas ganhando lutas, por pontos, de modo lento e sem emoção, isso não vai acontecer tão cedo.

Stephan Bonnar VS Igor Porkrajac

Bonnar não agüenta mais. Se ofereceu para espancar e ser espancado tendo os fãs como testemunhas por muito tempo. Seu corpo quebrou. Os ossos da sua cara devem estar cheios de rachaduras. Ele sabe disso. Um golpe bem dado por rachar sua cabeça como uma casca de ovo. O Bonnar impetuoso de antes, desmontou. O que vimos nesse Finale foi um lutador que ainda quer muito fazer uma coisa que não consegue mais. Era claro seu desconforto ao tomar golpes no rosto e sua vontade de levar a luta para o chão. Porkrajac tem socos fortes, retos, mas Bonnan já resvalou porradas muito mais fortes que essa sem andar pra trás. Bonnar está bem perto do fim da carreira no MMA e Porkrajac perto do fim do contrato com o UFC. Uma última luta entre Bonnar e Griffin, uma terceira revanche, poderia agradar aos americanos e finalizar de modo lógico sua curta e interessante carreira. Porkrajac vai acabar em eventos de menor expressão e por lá vai ficar.

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