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terça-feira, 26 de outubro de 2010

ANÁLISE - UFC 121: Velasquez VS Lesnar


Esse UFC 121 foi mais relevante do que bom. Conceitos foram alterados e certezas balançadas no evento que com certeza não foi o mais divertido, mas sai na frente na corrida pelo posto de mais importante do ano. A maioria das lutas compensou a falta de emoção com excesso de disposição por parte de todos os lutadores. Um evento de tração, pesado e intrigante. Se bons WEC são como fórmula 1, esse UFC foi um Rally.

Cain Velasquez VS Brock Lesnar

Alguma coisa vai acontecer, os índios apaches diriam. Acostumados a medir mudanças climáticas através do vento, da terra, antecipariam facilmente a furacão que se aproxima apenas pela movimentação selvagem e perigosa das nuvens escuras no horizonte. A relva levanta, as árvores balançam, um raio brilha, o trovão estoura e a tempestade do século se forma para anunciar a chegada da era de Cain. Sua destruição de Brock Lesnar entra para a história das lutas como um dia entraram outras que apontavam para um atleta que mudaria a história, para um lutador que entortaria o esporte da maneira que quisesse, colocaria o MMA a seus pés e se sagraria um dos maiores de todos os tempos. A colisão entre Wanderlei e Henderson no PRIDE 12, o espancamento que Fedor impôs a Minotauro no PRIDE 25, o nocaute de Randy Couture sobre Chuck Liddel no UFC 43, a vitória de Sakuraba sobre Royce Gracie numa luta sem limite de tempo no inesquecível PRIDE GP 2000 e poucas outras que agora são acompanhadas, sem vergonha, sem demérito, sem média ou frescutas, pela obliteração de Brock nas mãos de Cain Velasquez.

Brock Lesnar é uma criatura. Num mundo sem armas de fogo, Brock dominaria facilmente o continente com uma marreta na mão. Veloz, arisco, pesado, forte e resistente. Lesnar é um perigo para qualquer atleta justamente por não ser humano, por superar deficiências técnicas com uma brutalidade e velocidade que não deveriam pertencer a uma criatura nascida na Terra. Para haver um Brock Lesnar, 10 homens nasceram raquíticos em algum lugar do planeta. Simplesmente faltou muito material para alguns para sobrar tanto em Lesnar. Para os mais afoitos, Brock era imbatível. Fora uma finalização que ele desconhecesse, como haveria de se parar, com as mãos apenas, um atleta desse porte e com essas características? Cain Velasquez desmantelou esse inumano. Não numa questão de técnica superando força bruta, apesar de que houve muita técnica para driblar as mãos de bola de boliche de Lesnar ou sair debaixo do ground and Pound mais temido da atualidade. Mas foi um espancamento. Lesnar, simplesmente, não tinha como vencer Cain. E ele percebeu isso antes de todos nós. Ele tem coração de campeão, aceita o impacto, vai para a luta, não esmorece. Mas sabia que estava além de sua capacidade. O grande lutador não é aquele que se acha imbatível sendo ignorante para as qualidades do adversário, é aquele que não foge a luta, que dá a cara a tapa.

Se Brock quiser ser relevante do esporte daqui a uns 10 anos e não apenas um tsunami que destrói umas casas, mas não faz vítimas fatais, tem que aprender a fazer alguma coisa diferente de cobrir o rosto e se jogar no chão quando está em perigo. Uma nova luta com Mir está se desenhando. Vão alimentar o monstro. Mas o mundo do MMA, para ele, não poderá se resumir em dilacerar Mir na frente das câmeras mais uma vez. Brock pode se tornar um dos maiores se aprender os detalhes do esporte, mas estando rico e com 33/34 anos, não sei se ele quer ou acha que precisa.


Velasquez joga outro jogo. Encontrou os atalhos dentro do combate, resumiu o MMA, diminuiu a distância entre os pontos. Enquanto Shane Carwin tenta quebrar o muro, Cain encontra a rachadura, enquanto Minotauro se força a lutar a estratégia errada, Cain não tem vergonha de escolher a certa, enquanto o coração de Mir vira uma ervilha o de Cain explode, enquanto Brock só quer bater, Cain não tem medo de apanhar, enquanto Fedor luta desconcentrado contra Werdum, Cain não perde o foco nem em comercial de burrito. Velasquez é o futuro do peso pesado. Hoje em dia será mais temido, mas em alguns anos, apenas admirado. Grandes lutadores trilham caminhos secretos, especiais, lendas, criam seu próprio caminho. Cain Velasques vai trilhar a rota que ele quiser.

Cain vai defender o cinturão contra o brasileiro Júnior Cigano. Marco aqui minha expectativa com silêncio.

Jake Shields VS Martin Kampmann

O MMA tem algumas estrelas fora do UFC, e Shields é uma delas. Com vitórias sobre Yushin Okami, Carlos Condit, Dan Henderson, Jason Miller, Robbie Lawler, Paul Daley e Sakurai, Jake está sedimentado no top 10 do peso médio faz alguns anos. Por uma questão de marketing Dana White o convenceu a estrear no UFC no peso meio médio, antevendo um adversário digno ao trono de St. Perre. O erro de Shields foi ter concordado. No peso médio não perde uma luta desde 2005. Seria um adversário lógico para Anderson Silva, mas com Okami, Marquardt, Belfort e Sonnen com o ticket numerado para pegar o brasileiro antes dele, resolveram colocá-lo no peso de baixo aonde faltam novos desafiantes. Comercialmente, a lógica é boa, mas na prática vimos que não deu muito certo.

Shields estava lento, fraco. Lutadores de peso médio costumam ter de 93Kg pra cima no seu dia a dia. Estão acostumados com um certo nível de corte. Mas descer para o peso meio médio drenou as forças de Shields. Um atleta conhecido pelo vigor e gás, cansou antes do final do primeiro round. Para ele lutar nesse peso com um bom preparo vai ter que alterar seu peso natural para baixo. Se antes tinha 93kg e descia, agora vai ter que ter, naturalmente 85kg. Não é uma mudança fácil e envolve reeducação alimentar, anteração de ciclos de treino e suplementação. A questão é se ele vai conseguir sintonizar seu corpo para uma outra freqüência depois de 10 anos. Jake Shields, pelo que fez na carreira, é um dos maiores do mundo, merece disputar o cinturão mesmo que seja questionado por aqueles que não sabem da existência de forma de vida inteligente fora do UFC. Mas o Jake Shields que lutou nesse UFC 121 não merece nem ser considerado como desafiante. Ou ele acerta sua preparação ou vai ser mais um desmantelado, aos poucos e sem emoção, pelo campeão canadense.

Martin Kampmann é um esforçado. Quem o viu no começo da carreira quando só sabia trocar e vê agora um lutador completo que é perigoso em qualquer aspecto do esporte, entende porque MMA é apaixonante. È uma constante metamorfose, uma constante adição de informação a habilidades. Mas, mesmo assim, Kampmann não está entre os melhores. Não estivesse no UFC, não haveria manifestações na porta da casa de Dana White para ele ser contratado. Ele tem 3 derrotas nas últimas 7 lutas e uma delas foi o nocaute seco pelas mãos de dinamite de Paul Daley. Kampmann vai continuar no UFC dando trabalho a todos que entrarem no octagon com ele, mas não conseguirá ser a pedra no caminho de nenhum grande lutador.

Diego Sanches e Paulo Thiago

Uma das lutas do UFC mais WEC style de todos os tempos também foi a melhor da noite. Em 3 minutos velozes e furiosos testemunhamos o renascimento de Diego Sanches às custas do contrato de Paulo Thiago com o UFC, provavelmente. Aquele Diego, apelidado com precisão de nightmare (pesadelo) se manifestou pela primeira vez em anos. Quedas, briga incansável pelas posições no solo, ground and Pound incansável e muita raça. Os dois lutadores vinham com um dilema para essa luta. Os dois vindo de momentos irregulares na carreira e precisando mostrar que ainda são predadores do topo da cadeia alimentar. Mais do que a vitória, Diego renasceu como um grande lutador. Já Thiago, que se divide entre trabalhar como policial e treinar nas horas vagas, sucumbiu frente a um atleta em tempo integral. Coração é o ingrediente que todo campeão tem, mas é o ingrediente secreto que se mistura com tantos outros. Ele , por si só, não serve de muita coisa. Thiago tem que decidir que carreira quer tomar, abraçar uma paixão e abandonar a outra. É assim mesmo, coisas da vida. Ou vai continuar sendo um lutador duro, valoroso, mas não terá lugar entre os melhores do peso. E, quem sabe, nem no UFC.

Matt Hamill VS Tito Ortiz

Uma luta irrelevante entre um Matt Hamill mediano e um Tito Ortiz acabado. Quando no crescente mercado de MMA, com patrocínios robustos querendo estampar suas marcas em qualquer lutador do UFC, vemos um entrar com a bermuda sem nenhum anunciante, apenas com o endereço de sua própria marca, tem alguma coisa errada. Tito já apanhou tanto na carreira que leva um soco na direita e sangra na esquerda. Não é um homem velho, mas está velho para esse esporte. Cansou. Não defende quedas nem tenta aplicá-las. Tomando como base os vários chutes amadores que lançou durante a luta, creio que esteja assistindo mais competições de tae kwon do e K-1 do que o prórpio esporte que um dia praticou. E Hamill, um grande lutador do ponto de vista do exemplo de superação de deficiências e perseverança fez aquela típica luta que sempre faz. Bate, apanha, tenta não perder e, eventualmente, acaba ganhando. Uma luta desnecessária que só serviu para mostrar que, hoje em dia, Tito é melhor narrador de MMA do que lutador. E Matt, fez o dele, mas o que ele faz não é de grande qualidade. Dois atletas que não vão fazer a luta principal de nenhum evento durante um bom tempo. Talvez, pela eternidade.

Brendan Schaub e Gabriel Napão

Que Schaub e Napão acham que são bons de boxe, é visível. Mas Schaub só sabe fazer isso mesmo. È um híbrido, como ele mesmo se chama, mistura pouco de tudo. Um especialista em generalidades. Mas Napão é um faixa preta de jiu-jitsu. Mais um do pelotão dos bons lutadores de jiu-jitsu que se tornaram limitados trocadores em MMA. Qual o estilo do Napão? Hoje ele é um trocador, um brigador, como é Ben Rothwell e Travis Browne. Quando um faixa preta vira um boxer de baixa qualidade, tem alguma coisa errada demais em algum lugar. Vitória de Schaub que sabia um pouquinho mais, só um pouquinho mesmo, do que estava tentando fazer.

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domingo, 17 de outubro de 2010

ANÁLISE - UFC 120: Bisping VS Akyiama


Em 1989, numa partida entre Liverpool em Nottingham, o alambrado do estádio cedeu matando 96 pessoas naquela que é considerada a maior tragédia esportiva em solo inglês. Nesse UFC 120, apesar de nenhuma morte ter ocorrido, mais uma tragédia marcou o esporte na Inglaterra. Num card principal feito a mão para os fãs bretões se deliciarem com vitórias expressivas de seus maiores astros, o que viram foi, um a um, caírem melancólicos diante de adversários supostamente inferiores. Não fosse a vitória de Bisping, teria sido um sábado completamente negro para os ingleses. Mas, se ele salvou o evento para seu país, para nós, fãs, não foi suficiente. Um evento arrastado e sem inspiração que teve seu ponto alto nas vitórias de Fábio Maldonado e Paul Sass, no card preliminar.

Michael Bisping VS Yoshihiro Akiyama

Numa luta que prometia ser explosiva, vimos dois lutadores reticentes em engajar uma real trocação e se limitarem a jabs longos e diretos previsíveis. Era mais uma questão de quem ia se deixar hipnotizar primeiro por esse balé sem graça de antebraços e luvas a ponto de ser atingido, do que quem iria partir para o ataque efetivamente. Akiyama que chegou ao UFC com status de estrela asiática decepcionou mais uma vez. Tem raça para agüentar socos na cara, mas não tem raça para tentar desferi-los. É extremamente conservador na quantidade de golpes que distribui, mas parece bem liberal na quantidade que leva. Akiyama parece confundir disposição e show para os fãs com andar para frente e se deixar atingir. Não será cortado do UFC por ser importante estrategicamente para os planos de inserção no continente asiático. Um main event entre ele e Wanderlei, no Japão, é um dos sonhos de Dana White. Bisping venceu a luta, talvez, por querer um pouco mais. Encontrou um adversário com alcance curto e lento, e mesmo assim fez o suficiente para capturar uma vitória incontestável, mas que ninguém vai fazer questão de ver o replay. Se há um plano de carreira traçado para Akiyama, o de Bisping é menos ambicioso. Continuará como carro chefe do UFC no crescente mercado inglês e só. Pode vencer mais 50 lutas, que não disputará o cinturão do peso enquanto Anderson Silva, ou qualquer lutador realmente top estiver lá. O UFC não permitirá que Bisping seja desmantelado mais uma vez, como aconteceu contra Dan Handerson.

Dan Hardy VS Carlos Condit

Sempre fico admirado com a capacidade que algumas pessoas tem em cair e se levantar como se nada tivesse acontecido. É necessária uma alquimia bem especial, ingredientes como perseverança precisam ser misturados com doses exageradas de cara de pau. Dan Hardy parece saber essa receita de cor. Depois de se auto proclamar um dos melhores do mundo ao vencer o nada especial Mike Swick por decisão, e dizer que nunca um lutador o dominou no octagon, após a derrota para St. Pierre, aonde não conseguiu desferir um jab sequer, Hardy terá um teste de verdade para a eficácia de sua poção. Ser nocauteado, em seu país, no primeiro round, depois de ter registrado em cartório que faria o contrário, poderia ser uma questão desagradável de resolver, mas não para ele. Vai levantar a cabeça, sacolejar o moicano, dizer que ninguém no peso tem coragem de trocar em pé com ele e vida que segue. Carlos Condit, ex super estrela do WEC, aonde dominou o peso leve e se sagrou campeão, continua sua trilha no UFC. Se fizermos de invisível a derrota bem controversa para Martin Kampmann, ele acumula 11 vitórias seguidas. Condit prova que MMA é tão show quanto esporte quando apesar de grande atleta, ocupa apenas tirinhas e breves matérias na mídia internacional por conta de sua falta de carisma. Condit é um bom lutador que precisará mais do que de grandes vitórias para brilhar no mercado feroz do MMA, que consome tanto talento quanto personalidade. Hardy vai ficar um tempo sem lutar, tanto pela suspensão natural aplicada pela comissão atlética por conta do nocaute que sofreu, quanto pela dificuldade que o UFC vai ter em achar um adversário que não vá colocá-lo para dormir de novo.

Cheik Kongo VS Travis Browne

Kongo vem se esmerando na arte de fazer lutas chatas. Seja na vitória sobre Paul Buentello ou derrota para Cain Velasquez. Kongo não faz uma luta empolgante desde sua vitória sobre Mirko Cro Cop em 2007. Que também não foi uma boa luta, mas, pelo menos, foi surpreendente. Tantos outros lutadores com desempenho bem melhor foram cortados por estarem abaixo dos padrões do UFC. Mas Kongo é o lutador francês de maior destaque. Tem sua carreira cuidada com extra cuidado por conta de interesses mercadológicos do UFC com determinados países. O italiano Sakara, o filipino Munoz, o inglês Bisping e o japonês / coreano Akiyama são alguns exemplos de lutadores que independente de performance sempre terão uma segunda chance. Um movimento inteligente por conta do gerenciamento do UFC, mas injusto esportivamente com tantos outros mais talentosos cortados por conta de limites de orçamento. Browne, que não é garoto propaganda de país nenhum, precisa lutar melhor do que vem lutando para manter seu contrato em vigor. Lento, displicente e com preparo físico de amador, conseguiu um empate na medida já que nenhum deles merecia sair de lá com uma vitória no cartel. O resultado mais justo, mas que só pode ser dado no campo da moral, seria uma dupla derrota.

Paul Sass VS Mark Holst

Se o jovem inglês Paul Sass resolver abandonar a carreira de lutador profissional por algum motivo, poderia vir para o Brasil dar aula de jiu-jitsu aplicado ao MMA para muitos de nossos atletas, que insistem em afirmar que é difícil levar a luta para o chão como justificativa para trocarem socos durante 3 rounds. Sass não pegou ainda nenhum lutador de destaque, é verdade, mas é verdade também que sua volúpia e precisão na luta de solo são bem diferenciados. É um dos jovens lutadores que em uns 2 anos estarão no topo de seu peso, mesmo indo contra a tendência do MMA atual de lutar em pé e só derrubar se for para cair por cima. Holst é um lutador de mediano para baixo. Serviu apenas de carvão para a locomotiva de Sass. Vai fazer carreira profissional apenas porque o marcado americano é super aquecido e com infinitos pequenos shows. Mas fossem as possibilidades apenas os grandes eventos como UFC, Strikeforce e Dream, a sua carreira já estaria perto de terminar.

Fabio Maldonado VS James McSweeney

Desafia a biologia como há espaço no corpo do brasileiro Fábio Maldonado para suas artérias e veias e músculos e tripas e tudo mais que compõe o organismo humano, se seu coração enorme já deve tomar tanto espaço. Qualquer ser humano normal sairia com breve perda de memória se fosse atingido pela metade dos golpes limpos que Maldonado sempre leva na cabeça, mas ele parece não se abalar. Talvez seja a fina camada de kevlar que cobre seus ossos faciais e ficam escondidos por baixo da pele, ou seja apenas uma vontade imensa, incontrolável, de vencer. Se nossos sonhos são combustível da alma, ele tem dois tanques cheios. E lutou como quem quer demais uma coisa, como quem peregrina de joelhos até Meca. Resignado, firme e decidido. Apanhou no primeiro round e venceu por nocaute libertador no terceiro um McSweeney egocêntrico e desleixado, que lutou como um milionário que pede lagostas sem saber como abri-las. Esqueceu que estava abrindo o card preliminar e lutou com a empáfia de um campeão que tem certeza da vitoria. Maldonado, aditivado pelo seu sonho de se sagrar campeão de verdade, acordou McSweeney para a realidade com um direto no estômago. Vitória de um brasileiro de corpo e alma. Uma luta entre Maldonado e Thiago Silva seria de quebrar ossos.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CRÔNICA 7 - PAIXÃO DE SILVA (publicada na Revista TATAME edição 175)


Saudade boa acalma o coração, mas saudade com remorso é uma mistura ácida para a alma. Einstein teorizou a viagem no tempo, mas não podemos realizá-la sem sermos dissolvidos em partículas. Cabe então aceitarmos nossas limitações metafísicas e fazermos o melhor com o tempo que temos. Cabe admirarmos a magnitude da genialidade de Anderson Silva enquanto ele ainda coexiste nesse plano e caminha entre os mortais como Ares caminhava entre os espartanos. Um deus do combate incompreensível e imensurável.

Há 5 anos Anderson não tem adversários, tem oferendas. Lutadores entram no octagon como ovelhas sacrificadas a uma entidade. Em meio a movimentos leves e inacessíveis, sempre sai ileso, abandonando as carcaças ensangüentadas de seus oponentes pelo chão. Inevitavelmente tornou-se campeão bailando agressivamente com a contundência de uma piscina de giletes. Mas algo aconteceu. Ele, um tão diferente de nós, se apaixonou.

Anderson se apaixonou pelo brilho dourado da cinta de campeão. Quem haverá de culpá-lo por amar? Mas amor nos amolece. A maior de todas as dádivas, a capacidade de se completar no outro, é nossa, dos de carne e osso. Para lendas, pode ser espinhos na coroa. E o medo de perder uma luta, e sua paixão, o fez abandonar seu estilo incrível por um mais seguro. As lutas que eram antológicas se tornaram vitórias monótonas e ele que sempre nos presenteou com magia, parecia desdenhar de nós.

Muitos fãs entristecidos e sentindo falta dos instantes fantásticos que só ele oferecia começaram a torcer por sua punição. Como um senhor de engenho que acha de bom tom um leve açoite no negrinho, remontando a momentos desprezíveis de nossa história. Precisavam de alguém que desse um corretivo no Anderson para forçá-lo a voltar a nos maravilhar com sua beleza combativa. Como se pudéssemos forçar um colibri a cantar ou o sol a brilhar.

Chael Sonnen, um americano clássico, se prontificou impávido para a tarefa. Davi contra Golias. Passou meses ofendendo Anderson e até o Brasil. Parecia o homem certo para o trabalho sujo e no UFC 117 foi para cima e o espancou. Se Anderson estava no auge de sua forma e o adversário o dominava por totais méritos, se estava com a costela lesionada ou se estava apenas triste pela aparente vontade dos fãs, da multidão, de vê-lo perder, é irrelevante agora. Como entender o gênio?

A verdade é que Sonnen colidiu o couro de suas luvas com o rosto de Anderson com a maior violência e virilidade que suas artérias e músculos permitiam, num ato comovente de que podemos superar limites e desafiar o mais forte. No primeiro round até gostamos. Foi emocionante. No segundo, começamos a ficar apreensivos e a partir do terceiro, tudo mudou. Soco após soco nós voltávamos ao normal. Fomos tomados por um medo primitivo de presenciarmos o fim de alguma coisa da qual teríamos saudade. Aquela saudade trêmula de quem se arrependeu de não ter tomado posição, de ter ficado do lado errado, de ter se encolhido e se cagado ao invés de correr e fazer alguma coisa.

E nesse momento o Anderson, um, foi todos nós, milhões. Nesse momento cada soco doía dentro da gente. Ficamos de pé, torcendo para as coisas voltarem ao normal. Para que ele vencesse e nos perdoasse, porque nenhum de nós fez por mal. Se ele mudou por seu amor nós também mudamos por nosso amor ao seu show. Nós nos entenderíamos, só faltava ele sair de lá, e de lá ele ressurgiu. Como gênios fazem, sem explicação ou aviso, a tormenta acabou. Escreveu certo por linhas tortas. Num golpe corrigiu o curso da história. 1 segundo de Anderson em 23 minutos de Sonnen. Ele venceu e nos venceu. Nos comoveu. O coração do incansável Sonnen foi partido e o nosso explodiu. Presenciamos o espancamento de um dos maiores de todos os tempos e contemplamos sua mão erguida, novamente, mas tão diferente, ensangüentada e renascida. Um campeão inalcançável mostrou que é como nós no que temos de melhor. Nosso coração. Nesse momento, eu que não sou ufanista, que amo MMA acima de nacionalidades e bandeiras, me orgulhei de ser brasileiro.

Anderson é um gênio louco e intraduzível que brota e colhe a rosa do asfalto, que racha a realidade com cotoveladas, confunde as dimensões com os punhos. É lenda para ser contata aos filhos mais do que compreendida. Marrento para alguns, humilde para outros. É pedaço Bruce Lee, pedaço Jordan, pedaço Michael Jackson e pedaço Charles Chaplin. Anderson é para se admirar e não para entender. É mais água que pedra. Seu trono no hall dos deuses do combate já está esculpido em ouro. Amem ou odeiem, não importa, não dá para mudar a rota do colosso. O que podemos é, um dia, termos a saudade boa das vezes que o aplaudimos ganhar.

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sábado, 2 de outubro de 2010

ANÁLISE - WEC 51: Aldo VS Gamburyan


Dana White incansavelmente brada aos 4 ventos, twitter, entrevistas na ESPN e aonde quiserem ouvir, que não há eventos de MMA no mesmo nível competitivo, técnico e de qualidade que seu UFC. Mas é ele mesmo que nos prova estar errado em suas declarações com o WEC, outra organização dirigida por ele, ao oferecer evento após evento um aglomerado de lutas boas e competitivas que provam, para aqueles ainda incrédulos ou iniciantes no MMA, haver grandes lutadores fora do maior evento do mundo. Apesar disso, esse WEC 51 esteve abaixo das expectativas estelares a que já nos acostumamos, com alguns combates arrastados e muitas decisões dos juízes. Mas WEC é como pizza, mesmo quando é ruim, é bom, e esse, mesmo apesar de não despentear nosso cabelo ao passar zunindo a 200 km por hora como os anteriores, nos apresentou 3 grandes momentos. Uma grande certeza, uma grande luta e uma grande revelação.

José Aldo VS Many Gamburyan

Gamburyan é um dos lutadores mais perigosos no peso. Muito curto, seus cruzados se tornam velozes e mortais a pequena distância, tem um forte poder de fogo no ground and Pound, uma boa base de wrestling, é explosivo e arisco, determinado e tem um bom queixo. Já tinha provado ser um bom desafiante ao cinturão do WEC ao nocautear o duríssimo ex-campeão Mike Brown em sua última luta. Seria uma inverdade ou, no mínimo, imprudência afirmar que Many não tinha chances contra o campeão José Aldo. Mas, cá pra nós, Many não tinha a menor chance mesmo. E, quem teria? Quem, no planeta, no peso, fora as improbabilidades loucas e apaixonantes que o MMA nos impõe de num dia fora do eixo, qualquer coisa acontecer, tem chances de vencer o brasileiro? José Aldo é um dínamo, um átomo friccionando dentro de uma caixa de chumbo. Socos, chutes, joelhadas velozes e precisas, finalizações secas num jiu-jitsu justo muito bem afiado por André Pederneiras. Tudo isso energizado por uma calma e frieza de predador frente a presa. Se cada organização fosse um universo, posso dizer que a estrela de Aldo brilha com tanta intensidade que já ofusca alguns outros astros tão mais perto de nós, no universo UFC. Sua qualidade atravessa constelações como um cometa, destrutivo e magnético. Esportivamente, seus treinadores e ele podem achar que deve permanecer mais um tempo dominando o peso e fazendo de grandes adversários, míseros derrotados, mas, filosoficamente, ele não poderia nos privar de vê-lo contra outros astros do peso leve, em lutas memoráveis, antológicas. Aldo contra Penn, Gomi, Edgar são alguns exemplos de combates que tem que ser realizados. José Aldo trilha um caminho diferente da maioria dos lutadores, trilha o caminho fantástico que pode levar um homem a se tornar uma lenda. E Many vai voltar a fazer lutas excitantes e torcer para Aldo subir de peso para ele ter alguma chance de realizar o sonho de se tornar campeão no WEC.

Donald Cerrone VS Jamie Varner

O homem descobriu o fogo pelo atrito de duas rochas e Cerrone versus Varner poderia ter incinerado a lona do WEC tamanha a violência da colisão entre os dois durante 3 rounds. Como numa briga de facão, parecia que de cada golpe vinha um impacto raspado seguido de fagulhas. Houve técnica por parte de Donald Cerrone. Um boxe longo, jogado por fora, combinados de fintas e jabs com quedas tão precisas que conseguiram colocar o wrestler nível divisão 1, Varner, no chão algumas vezes. Mas foi a violência com que Cerrone buscou a vitória, a intensidade com que lançava golpes, não deixava um soco sem resposta, numa volúpia combativa, numa vontade de vencer que deu até dó de tantos outros atletas que entram num octagon olhando para o relógio e fazendo conta. Cerrone não só venceu essa revanche, como tanto queria e prometeu, mas provou que MMA é um esporte de atrito, de contato, e um grande atleta tem que estar disposto a disparar toda a munição que tem durante o pequeno tempo em que compete diante dos holofotes e agüentar o que é disparado contra si. Cerrone levou duros golpes no queixo de Varner mas, a cada golpe, parecia mais pensar em revidar do que dar um passo atrás e imaginar táticas de fuga. Uma grande luta, agressiva e temperada por um desejo de vingança esportiva. Normalmente quando dois lutadores se xingam demais antes do evento, tendem a estar latindo demais para vender pay per view porque não são muito bons em distribuir mordidas. Mas, nesse caso, os dois encheram suas garruchas de pólvora seca e muito chumbo grosso. Quando ao fim de uma luta queremos ver mais combates dos dois envolvidos, é porque os dois saíram ganhando. Cerrone, dá um passo a frente no ranking e Varner, um atrás. O que só muda a distãncia entre os dois, porque acima deles, apenas Ben Handerson e abaixo, todos os outros.

Tie Quan Zhang VS Pablo Garza

Outro destaque desse WEC 51 aconteceu nas preliminares, numa luta que marcou a estréia na organização de um dos lutadores mais promissores do MMA atual. O chinês Tie Quan Zhang que está invicto e tem todas as suas vitórias no primeiro round manteve seu cartel imaculado vencendo por finalização o também invicto, até então, Pablo Garza. Zhang, o lobo da Mongólia, é representante da China Top Team e um dos lutadores mais vorazes do mundo. Sua busca pela finalização é sempre feroz e seu boxe é extremamente agressivo e audacioso. Zhang tem um jogo sólido como a muralha da China. É um lutador com sede de vitória que entra no octagon quase que como carregando, sozinho, a bandeira de seu país. Quase um desbravador, quase um messias, com a atitude de superar seus adversários numa ode a sua pátria natal, China, como Fedor parecia se comportar com relação a sua amada Rússia. Zhang parece que entra para o combate com um exército de milhões dentro dele, pode se tornar o lutador que Dana White tanto procurava para ajudar na inserção do UFC /WEC, na Ásia. Zhang é mais uma prova de que o MMA derruba as barreiras alfandegárias dos preconceitos raciais ao criar ídolos primeiros em técnica, depois em nacionalidade. Temos que aprender a pronunciar seu nome corretamente porque é um lutador que vai escalar o ranking do peso leve em muito pouco tempo. Pablo Garza, apenas um bom lutador, fará outras lutas interessantes, mas trilhará um caminho bem menos iluminado que de seu oponente.

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domingo, 26 de setembro de 2010

ANÁLISE - UFC 119: Mir VS Cro Cop


Eu tinha dois ingressos para o WOCS 9, que aconteceu nesse dia 25 no clube de Regatas Flamengo, no Rio de Janeiro, só que jamais perderia um evento ao vivo do UFC por nenhum outro. Mas depois desse UFC 119, começarei a cogitar a hipótese.

Melvin Guillard VS Jeremy Stephens

Melvin Guillard e Jeremy Stephens mostraram que freqüentaram direitinho as aulas de boxe aonde ensinaram a dar jabs e diretos, mas devem ter matado todas aonde aprenderiam a combinar os dois. Uma luta cheia de testosterona e pouca ousadia, quase que como se os dois estivessem mais interessados em mostrar o pico de contração do bíceps ao fazer guarda do que relaxar o músculo e desferir golpes em seqüência. Guillard venceu por pontos, mas poderia ter sido Stephens e acho que, fora suas famílias e treinadores, poucos se importariam.

Matt Serra VS Chris Lyte

Acho sempre perigoso quando lutadores técnicos em várias áreas do MMA se limitam a trocar socos como se estivessem numa briga de quintal. Se isso virar moda o esporte vai virar boxe com luvas menores dentro de um octagon. Matt Serra e Chris Lyte, dois lutadores condecorados com a faixa preta no jiu-jitsu resolveram tirar as diferenças no soco. Vitória seca de Lytle por ter acertado mais golpes.

Ryan Bader VS Minotouro

Ryan Bader é uma usina de força muscular, mas parece que só há eletricidade para ela funcionar a plena potência por 5 minutos. Nesses 5 minutos ele pode nocautear, derrubar e massacrar qualquer um do peso. Depois disso, as luzes se apagam e fica difícil ele encontrar o caminho. Minotouro é um esforçado, no mais abrangente sentido. Não desiste, não entrega os pontos. Desde sua vida, trajetória como homem e atleta, mas ele, simplesmente, deveria ser melhor em tudo para vencer Bader hoje. Ter mais punch para ter nocauteado quando o atingiu no queixo, mais velocidade para aproveitar combinações quando o espaço se apresentou, melhor wrestling para ter caído menos vezes, melhor treino de jiu-jitsu para ter tentando pelo menos uma finalização em uma das várias vezes em que esteve por baixo. Minotouro lutou como pode, teve bons momentos, agüentou alguns socos destrutivos do atleta mais forte da categoria, mas não foi suficiente. Talvez devesse tentar triângulos, omoplatas, chaves de perna, de braço, quando se encontrava por baixo, ao invés de se levantar. Quem sabe? A maioria dos brasileiros acabou frustrada, achando que faltou alguma coisa de sua parte para vencer, mas era tão pouquinho a mais que faltava. Bader tem carcaça de Ferrari e motor de Palio. Venceu na brutalidade e no wrestling, mas cansando como cansou terá problemas contra lutadores mais ávidos a atacá-lo do solo ou mais velozes em pé. Minotouro deve ter se tornado mais um adepto do "Chuck Liddelismo", que é a tática de buscar a luta em pé e fazer de tudo para se levantar quando cair, porque é a mesma que usa em todas as lutas desde sua derrota para Rameau Sokodjou, em 2007.

Frank Mir VS Cro Cop

Antes de ser comprado pelos irmãos Fertitta e Dana White, o UFC estava em estágio quase falimentar, nos proporcionando lutas de péssima qualidade entre wrestlers que só sabiam agarrar, mas não tinham poder de nocaute no solo, e lutadores que se deixavam agarrar, sem capacidade de finalizar ou sair de lá. Ficavam atracados como dois moluscos dentro da mesma concha dor 3 rounds. Frank Mir e Mirko Cro Cop reencenaram esses momentos caídos do MMA numa das piores lutas de main event de todos os tempos na galáxia. Cro Cop é uma lenda, foi um dos lutadores mais temidos do mundo numa época cheia de grandes lutadores em seu peso, mas parece que tem uma fratura na ossatura da pélvis, já que o antigo atleta conhecido por seus chutes altos, mal os desfere em seus combates atuais. Será que na época do PRIDE ele ganhava bônus por chutes desferidos e o UFC se recusa a pagar? É um mistério. Frank Mir estava claramente desmotivado. Até ele sabia que uma vitória sobre um abatido e quase aposentado Cro Cop não o colocaria mais perto do cinturão, que é seu objetivo. Fomos expostos ao lamurio de uma luta entre um atleta que não fazia questão de vencer e um que tinha certeza que ia ganhar. Mir mostrou que a aplicação tática, sem ousadia, pode matar a beleza do MMA. Transformar em mecânico e repetitivo o que era para ser excitante, ao repetir vez após vez, mesmo sobre vaias, uma estratégia eficaz de segurar o croata nas grades, em pé. Como Shane Carwin havia feito com o próprio Frank. Quem apanha nunca esquece. E foi num lapso de estratégia, num momento aonde Mir não tentou fazer o que tinha sido programado tão bem nas centrais de comando, que alguma coisa aconteceu. Um joelho gigante saiu do nada e aposentou Cro Cop de vez, que se esparramou, nocauteado. Mir, agora espera por Minotauro ou Couture e Cro Cop vai dizer mais uma vez que está pensando em se aposentar, mas pela grana certa, ele luta sem vontade de novo.

Evan Dunham VS Sean Sherk

Evan Dunham mostrou que alguns americanos também não desistem nunca e superou um corte medieval no supercílio, litros perdidos de sangue e a visão turva para vencer Sean Sherk dentro do octagon na verdadeira grande luta da noite. Lá dentro ele venceu a luta, porque os juízes o alvejaram com uma flecha covarde vinda do lado de fora, na forma de vitória para o seu adversário na decisão por pontos. Sherk fez o que pode e mostrou mais uma vez porque tem apenas 4 derrotas em quase 40 combates. Agrediu, resistiu, machucou, contundiu, perseverou. Fez muitas coisas, mas ele não fez o suficiente para ganhar a luta. Dunham mostrou que é um dos jovens mais promissores da atualidade, versátil, agressivo, resistente. É uma pena esportiva quando uma grande luta é borrocada pela decisão dos homens de terno. Quando suor e sangue caem de joelhos frente a caneta e o despreparo. Sherk venceu nos papeis, mas a história será contada pelos especialistas de outra maneira. E Dunham ganhou mais com essa derrota do que ganharia se tivesse sido feita justiça nas papeletas. Ganhou o coração dos fãs.

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sábado, 25 de setembro de 2010

ANÁLISE - DREAM 16: Aoki VS Aurélio


Os eventos do PRIDE eram jornadas épicas de horas de duração que começavam de madrugada e terminavam com o sol raiando. Acabávamos exauridos e certos de termos presenciado momentos históricos. Mas, diferente do mais lendário dos eventos, esse DREAM 16 que começou 2:30 e acabou pouco antes de 8:00, me deixou mais cansado do que eufórico.

Shinya Aoki VS Marcus Aurélio

Numa das 3 principais lutas da madrugada, Shinya Aoki venceu Marcus Aurélio numa luta lenta e toda desenvolvida na lona. O japonês que já coleciona vitórias sobre excelentes lutadores de chão como Gesias, Hansen, Shaolin e Sotiropoulos, nunca havia testado sua técnica de solo, no solo, contra um verdadeiro às do jiu-jitsu brasileiro, e tinha nessa luta contra Aurélio, uma chance de saciar a nossa curiosidade e provar que é tão bom quanto os fãs e revistas nipônicas o consideram. Aoki fez Aurélio parecer um faixa azul sendo dominado facilmente por um faixa preta. Não por deméritos do brasileiro ou por fragilidade do seu jiu-jitsu que é de altíssimo nível, mas por Aoki se movimentar mais como uma estranha criatura de outro planeta do que como um ser humano. O japonês move as pernas como se tivesse olhos na sola dos pés e deu um nó em Aurélio que se limitou a absorver os cascudos desferidos em seu rosto durante 15 minutos. Uma luta que provou mais do que cumpriu o que prometeu. Vale pelas palmas de um humilde e honrado Aurélio para o esquisitíssimo e letal talento de Aoki ao ser anunciada sua vitória por pontos. Uma derrota que não desmerece o brasileiro, que saiu derrotado com a cabeça erguida como grandes lutadores fazem, e Aoki precisa preparar o visto para começar a lutar nos EUA se quiser continuar tendo adversários a altura. Porque, espalhados pelo resto do planeta, não parece haver muitos outros que possam lhe fazer frente.

Gegard Mousasi VS tatsuya Mizuno

Que não há grandes lutadores no peso até 93Kg com vínculo contratual com o DREAM, e que japoneses adoram ver seus ídolos apanharem de lutadores extremamente mais talentosos, numa ratificação de seu lado masoquista, é verdade, mas colocar Tatsuya Mizuno, com 8 vitórias e 5 derrotas para se estrebuchar debaixo da eficiência pragmática de Gegard Mousasi, é desnecessário. Uma luta por cinturão com sabor de primeira luta das preliminares. Mousasi que luta em câmera lenta, mas consegue por algum método ainda não descoberto pela ciência, sugar seus adversários para esse vácuo de movimentos, venceu devagar e sem dificuldade o japonês. Sagrou-se campeão do DREAM e adiconou mais um cinturão a sua crescente coleção. Se Mousasi quiser apenas ganhar dinheiro, pode continuar lutando contra adversários sem grande nível competitivo no Japão, e vai ganhar muito. Mas se quiser ganhar o status de grande lutador que ele pode ser, precisa ligar para o Scott Coker do Strikeforce e pedir para agendar uma luta com Rafael Feijão urgentemente. Enquanto isso, Mizuno deve estar mostrando para todos os amigos o autógrafo que pegou de Mousasi.

Sakuraba VS Jason Miller

Sakuraba é um semideus do MMA. O primeiro superstar do mundo moderno das lutas, o primeiro a transformar eventos em shows, dentro e fora do ringue, o primeiro a vencer os Gracies, mas parece que quer ser o último a sair da festa. O mitológico japonês que dizem ter apenas 41 anos mas parece ter uns 60, insiste em lutar e colocar seus filhos para chorar mais uma vez. Saku está rico, famoso e com cirrose hepática, só um contrato de vida ou morte com a Yakuza que se arrasta desde os tempos de PRIDE podem justificar sua permanência, e espancamentos, nos ringues de competição de alto nível. Jason Miller, que depois da baderna que arrumou no STRIKEFORCE após a vitória de Jake Shields sobre Dan Handerson, resolveu dar um pulo no Japão, aonde não há comissões atléticas, antidoping, restrições corretas de peso ou qualquer norma regulamentadora. Lugar perfeito para ele liberar seu estilo caótico, rebolativo, polêmico e anti profissional, que já rendeu problemas ao brasileiro Ronaldo Jacaré e tantos outros. Não é a toa que os asiáticos o adoram. Presenteou Sakuraba com sua primeira derrota por finalização, em todos esses anos. A lenda japonesa não pareceu se importar, nem os fãs, ao contrário de Miller que chegou as lágrimas. Talvez ele tenha mais noção do tamanho do mito que havia em sua frente, coisa que os próprios asiáticos, de tanto canibalizar Sakuraba ao longo de incontáveis anos, só enxerguem a ossada e alguma carniça. Uma vitória que não muda o ranqueamento de Miller e uma derrota melancólica para Sakuraba que deveria anunciar seu afastamento dos ringues de modo glorioso, como merece, antes que morra em combate sem essa honra.

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ANÁLISE - UFC Fight Night 22: Marquardt VS Toquinho


As edições do UFC Fight Night tendem a ser boas e surpreendentes, mas a essa edição 22 cabe apenas o segundo adjetivo. Com exceção de uma luta, as outras duas principais desafiaram qualquer previsão, e num mal sentido.

Nate Marquardt VS Rousimar Toquinho

Nate Marquardt deu sinais de ter superado a derrota vexatória para Chael Sonnen, aonde foi dominado como um amador, e se apresentou focado e arisco para a luta contra Rousimar Palhares. Toquinho, por outro lado, mostrou que o que sobra em força física e técnica de solo lhe falta em neurônios, ao desproteger o rosto para reclamar em português com um árbitro que só fala inglês, sobre uma suposta aplicação de vaselina na perna do adversário. Marquardt, que não entende português e não estaria nem aí se entendesse, largou a luva do UFC com a sua mão dentro na cara do brasileiro, que se virou e esperou o juiz interromper. 1 segundo depois se levantou, como se nada tivesse acontecido, abraçou seu algoz como se estivesse numa festa de play e ainda forçou seu técnico, Murilo Bustamante , a dar desculpas oficiais sobre seu comportamento inapropriado. Palhares começou a trilhar um caminho esquisito no maior evento de MMA do planeta. Polêmica dentro do octagon não faz muito a cabeça de Dana White, e Toquinho conseguiu temperar suas duas últimas lutas, uma vitória e uma derrota, com esse ingrediente. E um Marquardt ávido para buscar uma vitória a qualquer custo, a recebeu na porta de casa via SEDEX, numa luta que prova que a graça do MMA não está apenas em ser surpreendente.

Gleison Tibau VS Jim Miller

Gleison Tibau penou mais uma vez por nunca carregar um plano B anotado em seus arquivos. Ou a luta decorre como o previsto, e ele impõe sua força, alcance com braços longos e um excelente wrestling a gosto, ou fica completamente desnorteado e faz uma luta embaraçosa. Ver um competente Jim Miller superar um talentoso Tibau em quase todas as valências do esporte ajuda a levantar algumas questões incômodas com relação a sua preparação tática e mental. Miller, com menos alcance, conseguiu com rápidas e simplórias combinações de jab/cruzado superar o boxe de média distância e, normalmente, mais preciso de Tibau. No chão, Miller, um faixa preta americano intimidou Tibau, um Black belt brasileiro, que preferia levantar após derrubá-lo ao invés de passar a guarda ou tentar qualquer espécie de finalização ou dano. Entre rounds o técnico brasileiro o incentivava a derrubar para ganhar o round, e o técnico americano o motivava a ajustar os ângulos em pé para pegar Tibau desprevenido quando ele plantasse a base para golpear. Surpreendente, mais uma vez, mas chato. Bem chato. Miller vence de modo incontestável e monótono por decisão. Qual a próxima luta que cada um deveria fazer? Deveria Miller pegar um contender? Tibau deveria pegar outro lutador top 10 para se recolocar no jogo, ou deveria pegar um novato para ter uma luta mais segura? São várias as possibilidades e, depois dessa luta, nenhuma parece muito excitante.

Charles do Bronx's VS Efrain Escudero

Eu não vibro com lutadores em específico, amo o esporte como um todo e torço para boas lutas, independente de nacionalidade, mas a vitória surpreendente de Charles Do Bronx’s fez meu sangue ferver. Do Bronx’s fez o agressivo e veloz Efrain Escudero parecer omisso e lento, finalizando com um ataque ao pescoço que começou e terminou de pé. Tão novo e já ensinando veteranos que jiu-jitsu não é a arte de lutar no solo, é a arte de finalizar a luta, aonde quer que ela se desenvolva. Quabrando o paradigma de que se o adversário não quer levar pra baixo, não dá para finalizar. Verdade também que Escudero estava acima do peso, mas o que isso lhe subtrai em velocidade, adiciona em pujança física. É impressionante e comovente ver o nascimento e evolução de um lutador fantástico. Du Bronx’s evolui luta a luta como uma máquina de auto upgrade com milhares de processadores funcionando noite e dia. O lutador voluntarioso em pé e com um chão fantástico já se tornou um excelente trocador, com boas quedas e com um jiu-jitsu ainda melhor. Me pego intrigado ao imaginar em que posição do ranking ele estará daqui a um ano. Fez 4 lutas em 2010 e a sua última, e estréia no UFC, foi apenas mês passado, dia 1 de agosto no UFC on versus 2. Do Bronx’s parece incansável. Escudero tem que filosofar sobre o que quer fazer com sua carreira. Quer se tornar o grande lutador que ele tem potencial para ser e começar a levar a sério treinamentos e adversários, ou quer ser apenas um porta estandarte do povo mexicano no UFC e fazer comerciais de taco. Charles do Bronx’s é um menino de ouro, como já escrevi antes. Se a estrada que ele vai trilhar não vai ser bela e dourada como a de Oz, seu futuro será. Um menino feinho, com a voz estranha, simples e humilde, mas com o coração e colhões de campeão. A prova viva de que MMA é esporte para grandes homens, independente de tamanho.

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domingo, 29 de agosto de 2010

ANÁLISE - UFC 118: Edgar VS Penn 2


Cinturão em jogo, disputa pela chance de desafiar o campeão e um embate quase filosófico entre uma luta e o esporte que mistura todas elas. Esse UFC 118 foi melhor pelo que representou, pela essência do que vimos do que pelo produto final. Como uma manga rosa de aroma delicioso, mas que se mostra ainda meio verde ao corte.

Nate Diaz VS Marcus Davis

O melhor combate do card principal foi entre o menino problema que a América odeia amar, Nate Diaz e o contínuo do MMA, Marcus Davis. A granada irlandesa de Davis não explodiu e Diaz, fora uma gracinha no começo que lhe custou algumas carimbadas da logo UFC no crânio, não teve dificuldades para dominar com precisão e alcance. Um estrangulamento ao final do terceiro round quase custou a Davis mais do que a luta, já que o árbitro por ter achado que o mais irlandês dos americanos estava se fingindo de morto, demorou para dar a luta por encerrada, mesmo depois de balançar seu braço e não obter nenhuma reação como resposta. Mais alguns segundos e Davis poderia ter pago o preço da incompetência do árbitro com mais do que algumas células cerebrais. Parabéns para Nate que agora só precisa se decidir em qual peso vai tentar seguir sua carreira, já que flutuar entre as categorias se mostra mais vantajoso para o bolso do que para o cartel.

Gray Maynard VS Kenny Florian

Gray Maynard poderia ser patrocinado por uma marca de remédios para dormir já que toda luta sua nos induz a um sono profundo. Não fosse eu um amante de MMA e intrigado por ver como ele superaria o sistema de auto upgrade de Kenny Florian, teria marcado um encontro com Morfeu, com certeza. O pragmatismo tático de Maynard é tão preciso que chega e incomodar. Ele luta de maneira matemática, parece que cada movimento é calculado. Não há fantasia nem emoção, mas também não há erros ou fendas para o adversário aproveitar. Um adversário chato de ser vencido e de ser assistido, mas um digno desafiante ao cinturão. Kenny precisa passar alguns meses no Tibete ou tomar a pílula vermelha para expandir a mente e encarar lutas decisivas ou por cinturão, com a mesma coragem e criatividade que encara todas as outras. O resultado poderia até ser o mesmo, mas ele sairia do octagon se lamentando menos.

Demian Maia VS Mario Miranda

Demian Maia não lutou nesse UFC 118 ele passeou na terra abandonada chamada Mário Miranda. Esse é um bom exemplo de porque o casamento de lutas é uma arte. Agendar um confronto entre dois lutadores TOP é fácil. Mesmo que a luta não corresponda as expectativas, terá vendido bastante pay per view. Complica quando o casamento é entre um dos melhores no peso e um menos conhecido e competente. Num casamento inteligente, temos uma luta interessante e disputada como a de Minotouro e Jason Brilz, mas num casamento mal feito, temos Demian e Miranda. Vitória de um dos melhores atletas brasileiros sobre um que nem sabe ao certo porque estava lá. Miranda merece mais uma chance contra alguém que também esteja carregando nas costas o peso de ainda não se sentir em casa no maior evento do planeta.

Randy Couture VS James Toney

Os americanos amam Randy Couture, parece um cara legal, daquele que nos emprestaria dinheiro para pegarmos um ônibus, mas ele tem talento suficiente para não precisar fazer lutas bizarras como essa. James Toney parece um dos homens primitivos e brutais dos quais todos os seres humanos da atualidade um dia evoluíram. Uma criatura agressiva e intrigante que se adequaria melhor ao interior de um bloco de gelo perdido em alguma montanha do Alasca, ou aos ringues de boxe onde trucidou a maioria de seus oponentes durante anos. Para Dana White a vitória fácil de Couture provou que MMA é superior a boxe, mas para mim provou que ele está mais preocupado com cifras do que com a evolução do esporte.

Frank Edgar VS Bj Penn

A vitória de Frank Edgar sobre o lendário B.J. Penn em seu primeiro combate roubou do ex-campeão mais do que seu cinturão dourado, roubou sua alma também. O sempre eufórico e confiante Penn parecia empalhado antes da luta. Olhar perdido de quem perambula pela rua pensando num modo de contar para a esposa grávida que acabou de ser demitido. Alguma coisa estava desencaixada. Alguma conjunção astral não estava alinhada. Penn não estava lá. Seu corpo estava, seu espírito, não. Edgar, que não está nem aí para esses dilemas da alma, zapeou ao redor do ex-campeão com a velocidade de quem transita entre duas dimensões, como se fosse sair tremido em qualquer foto, independente de flash. Edgar parece um caiaque com motor de lancha, energia demais para um receptáculo tão pequeno. Incansável, leve, imparável, decidido e corajoso, superou Penn, sem dificuldade nos 5 rounds. Se Penn realmente estava com a cabeça fora da luta, podemos dizer que Edgar fez o que tinha que ser feito e terá em Maynard um desafio muito maior. Mas se Penn usou de todas as suas habilidades e apenas pareceu lento e sem foco por conta do dinamismo nuclear de Edgar, então presenciamos o começo de um longo reinado no peso leve.

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

CRÔNICA 6 - OS IMORTAIS (publicada na Revista TATAME edição 174)


Às vezes nossas vidas tomam caminhos inesperados, alguns nos levando até para longe de nosso coração, dos anseios silenciosos de nosso espírito. É dilema comum ao indivíduo habitante de uma sociedade civilizada ter que trabalhar, produzir, bater ponto, se conter, calar quando ainda tem coisas por dizer, numa taxa invisível de frustração e stress paga diariamente pelo nosso sentimento. Mas como um leopardo que não coloca as presas numa caça há dias, começamos a ansiar por alguma coisa maior. Algo por entre a retidão dos escritórios, algo para romper o nó da gravata, alguma coisa além da carne. Coisa que faça nossos glóbulos vermelhos aquecerem e bombearem mais rápido, o coração pulsar mais forte dentro da caixa torácica, os neurônios acelerarem as sinapses nervosas, nossos olhos marejarem e nos sentirmos vivos, num clamor atual por coisas ancestrais.

Séculos atrás gladiadores se enfrentavam em arenas para despertar um mar sensorial de frenesi e exaltação no povo, o que acabava por acalmá-lo. Hoje em dia, precisamos de mais. Nossa demanda é proporcional as nossas tensões, violência, preocupações do dia a dia. Precisamos mais do que apenas uma arena, precisamos de um espaço aonde caibam todas as nossas almas, precisamos do derradeiro palco para um esporte de contato, do maior dos circos de adrenalina, um festival de superações e derrotas num show de coragem e agressividade esportiva que só o MMA pode proporcionar. Precisamos do UFC.

O UFC é o nosso Coliseu, o maior palco para combate já criado, aonde convergimos todos, de qualquer cor, classe, sexo, como uma irmandade, incontrolável, num foco de energia intensa e constante. Não são os lutadores que estão presos dentro do octagon, somos nós que estamos presos do lado de fora, com os olhos paralisados como mármore, clamando por mais uma luta, mais um round, mais alguns segundos, numa sede e fome insaciáveis por glórias e fracassos. Por coisas além do comum. Um show que apenas gladiadores podem proporcionar.

Os lutadores, neo-gladiadores, murmillos, comandados pelo maior lanista que já caminhou nesta terra, Dana White, nos oferecem seu sangue, seus ossos para fissura, seus ligamentos para tensionarem além do ângulo, seus dentes para cambalearem dentro do protetor, seus sonhos para serem despedaçados, seus olhos para chorarem lágrimas derrotadas, oferecem tudo o que podem por um momento de glória. Por uma vitória que seja, de qualquer maneira, só para sentir o nosso silêncio aflito, incerto do fim do combate, que dura apenas um micro segundo, e depois explode em sons, palmas e gritos de euforia. Naquele momento, todo o treinamento, meses de esforço e dietas e, ouso dizer, até a vitória, não teriam muito gosto para o vencedor se nós não estivéssemos lá. Os lutadores são pólvora e nós somos fogo.

Nós somos a multidão, aquela massa furta-cor, sem rostos definidos, que rodeia o octagon, que vibra e vidra de frente para a TV. Não temos um nome porque desafiamos nomenclaturas, somos as milhões de gotas juntas que formam um oceano que nem Netuno domaria, somos nós que incineramos a paixão, transformamos vitórias em conquistas épicas, transformamos um gladiador, um atleta, um lutador, em herói. Não há glória sem nosso testemunho. Somos mais do que fãs, somos um exército unido por um amor frenético e poderoso pelo maior esporte da terra.

E no fim das lutas, ao apagar dos holofotes de mais um UFC, vamos desacelerando e diminuindo até voltarmos ao normal. No dia seguinte, nossas vidas continuam. Pais, filhos, empregados, empresários, apenas gente, misturados com tantos outros, aparentemente iguais, mas completamente diferentes por dentro. Nós, pelo menos uma vez por mês, transcendemos o osso e o sangue, tomamos parte de um espetáculo magnífico que desafia a percepção do indivíduo ordinário. Influenciamos na criação de histórias e lendas, aos moldes de como Zeus fazia do Olimpo. Uma vez por mês, nós somos como imortais.

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domingo, 22 de agosto de 2010

ANÁLISE - STRIKEFORCE: Lawal VS Feijão


Em mais um evento polêmico, foi a grande performance dos brasileiros que merecem mais destaque. Não pela sua nacionalidade ou meu ufanismo, mas pela constante afirmação, evento a evento, de que o Brasil é um dos maiores produtores de atletas no esporte que mais cresce no mundo. Só falta imprensa e fãs seguirem o mesmo ritmo para MMA passar de ser, aqui, apenas um lindo esporte, e ter status sólido de meio de inclusão social e gerador de empregos. Sobre o sempre negativo lado das polêmicas, tivemos golpes ilegais e decisões questionáveis dos juizes. Essas manchas num dos melhores cards do ano, apesar de não terem alterado o resultado de nenhuma das lutas, nos arranhou a garganta ao termos que engolir vitórias com um espinhoso asterisco do lado.

Se apenas tamanho ganhasse luta, os fisiculturistas dominariam o peso pesado do MMA. Exemplos de técnica superando força bruta temos aos montes, mas o gigantesco Bobby Lashley nos mostrou algo diferente. Apesar de parecer de titânio por fora, deve ser feito de isopor por dentro, já que, depois de dominar facilmente o esforçado Chad Griggs, resolveu parar. De modo quase abstrato, quase filosófico. Do nada. Do mesmo modo que um poeta resolve sentar no banco e escrever uma poesia, Bobby sentou na lona e disse que não queria mais lutar. Depois de vencer dois rounds, pensar na hipótese de ter que lutar esse esporte chamado MMA por mais 5 minutos pareceu insustentável para o gigante de ébano, que desistiu. Um corte abaixo do olho e alguns socos no fim de um round deveriam sem mais do que insuficientes para parar um atleta tão exageradamente maior que seu oponente. Bobby nos mostrou que não adianta ter os músculos enormes se o coração é pequeno.

Jorge Gurgel nunca entra no octagon para competir, ele entra para dar show. Vitórias ou derrotas são irrelevantes na sua trajetória em confeccionar momentos excitantes no combate. E ele foi bem sucedido mais uma vez ao ser nocauteado pela estrela em ascensão KJ Noons, numa luta sincera e explosiva entre dois lutadores que devem ter lugar garantido em qualquer card de alto nível. Por mais que um almeje ser campeão e o outro apenas transbordar testosterona.

Ronaldo Jacaré batalhou pelo cinturão dos médios do Strikeforce contra o perseverante boina verde Tim Kennedy. Jacaré optou por colocar seu talento estelar em grappling de lado para testar novas ferramentas de seu crescente arsenal. Por mais que seja sempre complicada a opção dos lutadores de solo em trocar socos e chutes durante uma luta inteira, essa pareceu ser uma tática precisa, já que Kennedy demorou para acreditar na opção do brasileiro e quando começou a ajustar seu jogo, já estava com o rosto ensangüentado e com a luta perdida. Jacaré, que já nos provou que luta de solo pode ser bem empolgante, dessa vez provou que uma luta só de trocação pode ser bem monótona, se sagrando campeão por pontos num combate morno de 500 rounds.

Com um boxe razoável, excelente grappling, jiu-jitsu, queixo e muito poder de nocaute, Rafael Feijão é um dos lutadores mais completos do mundo. Seu preparo físico, que sempre vinha se interpondo entre seu sonho de se tornar campeão, não fez muita diferença nessa noite. Não que ele não tenha cansado como sempre, porque cansou, mas desativou a usina elétrica que atende pelo apelido de King Mo Lawall antes de seu preparo físico o prejudicar. Lawall, que havia vencido os dois primeiros rounds, esqueceu por alguns segundos que MMA é mais esporte do que show, e pagou o preço ao tentar definir a luta a todo custo no terceiro round, ao invés de fazer uso do cansaço do brasileiro. Palmas para Lawall, um ex-campeão corajoso e vibrante que não senta na pedra da estratégia, e parte pra cima. Mais palmas ainda para Feijão que agüentou as porradas e wrestling de um dos lutadores mais promissores da atualidade, vencendo por nocaute com cotoveladas que só um verdadeiro atleta de MMA sabe aplicar com precisão. Lawall perdeu, mas não saiu derrotado e Feijão se tornou o merecido campeão da ciranda dos meio pesados do Strikeforce.

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domingo, 8 de agosto de 2010

ANÁLISE - UFC 117: Anderson VS Sonnen


Em matemática, triângulos medem ângulos, em MMA parece que alteram destinos. Se o triângulo de Werdum sobre Fedor abalou as estruturas do esporte como conhecemos, o triângulo de Anderson Silva em Chael Sonnen nesse UFC 117 manteve as coisas como deveriam ser. Sonnen parecia estar passando mel na bunda antes de sentar no formigueiro com as ofensas e piadas jogadas sobre o campeão durante 3 meses. Qualquer fã mais antigo e respeitoso com as habilidades do atual campeão achou que a vitória não tardaria a vir e viria sem dificuldades. No meu caso, apostei no encaixe do joelho de Anderson dentro na cavidade craniana nasal de Sonnen no primeiro round. Isso não aconteceu. Presenciamos um Anderson irreconhecível, lento, aceitando as quedas e aceitando ser controlado no chão, quase como se estivesse amargurado e ressentido com a reação hostil de tantos fãs nesses últimos meses por conta de suas últimas atuações, quase como se estivesse disposto a abrir mão do cinturão. E Sonnen, que não é brasileiro, mas não desiste nunca, preparou aquele mesmo arroz com feijão conhecido mas com o temperinho especial da vovó. O americano fez durante 4 rounds e meio exatamente o que ele disse que ia fazer, botou para baixo e espancou Anderson como se fosse um animal, como um fazendeiro pisoteia ferozmente uma cobra venenosa que estava prestes a entrar em casa e colocar sua família em risco. E continuava pisando e pisando, mesmo depois dela parecer morta. Esse é o resumo da luta até que Anderson, que estava irreconhecível, resolveu, sem mais nem menos para nós mortais, destilar uma única qualidade dentre todas as suas, uma única em meio a todas que não vimos nem com lupa nessa luta, mostrou uma resma, uma raspa, uma mini gota de genialidade e finalizou a luta rapidamente, quase que do nada. Criou o fantástico do caos, brotou e colheu a rosa do asfalto. Manteve o curso das coisas, escreveu certo por linhas tortas. Mais um acabou capturado na incompreensível teia do Aranha.

Uma das coisas gostosas em ser criança é, por sermos inexperientes e inocentes, nos surpreendermos com tudo. A luta entre Junior dos Santos e Roy Nelson me fez sentir criança. Poucas vezes uma luta foi tão surpreendente em tantos aspectos. Era claro que a única chance de Roy seria levar o Cigano para o chão, aonde iria derramar sobre o brasileiro seu jiu-jitsu excelente e seus 100 kilos de barriga. Mas isso não aconteceu. Fora breves tentativas de queda, Roy aceitou a trocação e ainda conseguiu acertar perigosos golpes, cambalear o adversário uma vez e abrir um corte em seu rosto. Cigano já provou que trocar socos com ele é como andar na contra mão na auto-estrada do Matrix Reloaded. Se Roy optasse por lutar em pé acabaria dormindo sem travesseiro e cobertor. Mas isso não aconteceu. Cigano bateu tanto que deve ter ficado com a mão em brasa, e o atleta que me lembra o Kung Fu Panda, permaneceu em pé, descabelado e persistente. Quem imaginaria uma trocação de 3 rounds aonde Roy não sairia nocauteado e Cigano, mesmo vencedor, sairia ferido? Só uma criança mesmo para inventar uma história maluca dessas.

Matt Hughes finalizou Ricardo Almeida, faixa preta de Renzo Gracie, que ele também havia vencido, como já venceu seu outro aluno Matt Serra e Royce Gracie. Se usarmos o esporte para trazer justiça poética aos questionamentos da vida, apenas duas lutas seriam relevantes para Hughes: Rickson Gracie e Kazushi Sakuraba. O maior dos gracies ou o lutador que mais venceu gracies. Não seriam lutas para alterar o ranking, ambos adversários estão longe de sua juventude e auge das carreiras, mas seria divertido demais. Seria uma jóia no cinturão do lado show do MMA. Uma jóia de puro entretenimento e de conseqüências mais históricas do que esportivas, como não vemos desde os primórdios do Pride.

Thiago Alves perdeu de novo para seu arqui-rival Jon Fitch, numa sacal decisão por pontos. Ver Fitch lutar é como montar um cubo mágico com todos os lados da mesma cor. Não interessa para onde vai girar, ou o que vai fazer, sempre dá na mesma coisa. Ninguém vence Fitch e Fitch não vencerá St. Pierre, porque os dois são iguais só que um tem motor 1.0 e outro 3.0 flex. Thiago é o lutador de MMA mais ressentido da atualidade. Enquanto outros atletas lutam para ficarem cada vez mais completos, ele deve mandar currículos com vídeo para o K1, porque ele só quer lutar em pé. Enquanto outros misturam, ele vai separando. Outros adicionam técnica, ele vai subtraindo. Alves era um excelente lutador de muay-thai, dava socos e joelhas, depois implementou seu jogo de chão e, por fim, afiou seu wrestling. Era um lutador completo. Aos poucos, como se técnicas marciais fossem roupas que vamos deixando pelo chão até entrarmos no chuveiro, ele parou de lutar no solo. Procurava se manter em pé com wrestling e usar muay-thai. Depois parou de usar chutes e joelhadas, ficava em pé apenas para boxear. Agora, parou de usar seu wrestling, sendo derrubado a esmo. O Thiago de hoje só quer, só sabe e só gosta de dar socos. Thiago é um bom boxer, mas é visível sua insatisfação com outros aspectos do MMA. Não há problema. Só deveria mudar de esporte para lutar com motivação. Quem acompanhou sua carreira percebe que ele não está feliz. E ver um atleta dentro do octagon sem vontade de estar lá me lembra rinha de galo. E isso não é bom.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ANÁLISE - UFC on Versus 2 : Jones VS Matyushenko


Eu gosto muito de eventos aos moldes desse UFC on Versus 2. Eventos que respondem mais perguntas do que levantam questões.

Tyson Griffin, talvez contagiado pela máxima de que lutadores asiáticos não lutam bem no ocidente resolveu testar seu excelente boxe contra o japonês Takanori Gomi. Gomi vem tendo uma carreira irregular, como se escrevesse a história de sua vida com caneta bic e uma folha de papel na mão, no banco do carona de um jipe numa etapa do rally Paris-Dakar. Mas como nenhum lutador ganha o apelido de “Fireball kid” a toa, deve-se sempre respeitar a chama secreta que queima no coração de todos os ex lutadores do Pride. Coisa que Griffin não fez e acabou dormindo com a ponta do nariz no chão em sua primeira derrota por nocaute. Tem lutadores que boxeiam com técnica apuradíssima, lutam um fino muay-thai, um karatê cheio de ângulos, mas nenhum desses é Takanori Gomi. Gomi trampa na porrada, abaixa a cabeça e larga a mão num estilo há muito abandonado pelos puristas do esporte, e, nesse micro mundo, ele é imbatível.

Questão respondida nesse UFC on Versus 2: dá para ganhar por pontos, raspar, botar no chão e até finalizar, mas não dá para trocar soco na cara com Takanori Gomi.

O japonês Yushin Okami paga um alto preço por seu baixo carisma. É um maiores lutadores do peso, duro, técnico, agüenta porrada, absorve, ataca e, mesmo assim, é visto como o azarão em todas as suas lutas. Mark Munoz provou mais uma vez, ao se tornar mais uma vítima de Okami, que em luta, os capítulos que fazem parte do livro de glórias são escritos dentro do Octagon. Um Munoz revigorado no peso até 84 não foi páreo para um Okami que, teoricamente, parecia se esvair para fora do UFC. Uma vitória clara e justa mas não sem mais uma lambança dos árbitros laterais, já que um deles conseguiu ver vitória para o filipino. No livro de regras desse árbitro, levar socos no queixo vale ponto.

Questão respondida nesse UFC on Versus 2: Okami quase perde todas as lutas em que participa, até as que ganha.

MMA é um esporte mundial e nenhuma organização entende isso melhor do que a empresa dirigida por Dana White. Lembrem do evento principal entre os brasileiros Lyoto Machida e Shogun, no Canadá. Mas é verdade que Jon Jones é o novo queridinho do UFC e eles querem, querem demais, mais campeões americanos, e o garoto tem carisma e habilidade para isso. Mas é desnecessário construir sua carreira com tanto cuidado. Ao o colocarem contra competidores extremamente abaixo de seu nível como Vladimir Matyushenko, podem acabar tornando-o letárgico e desmotivado mais do que lendário. Podem também acabar desagradando os fãs que o admiram pelo seu talento, aparentemente, infinito, mas repudiam esse apadrinhamento. Dessa maneira sua carreira está sendo mais estagnada do que protegida. Jones, que já mostra certa insatisfação com a falta de desafios, moeu o crânio empoeirado de Vlady antes dos dois minutos de luta. Alguns acham que o juiz poderia ter esperado um pouco mais, eu até gostaria que tivesse esperado, mas a esposa, filhos e netos do bielo-russo agradeceram.

Questão respondida nesse UFC on Versus 2: É um saco ver leão ser alimentado com ervilhas.

Charles do Bronx estreou transformando a estrela em ascensão Darren Alkins numa estrela cadente. Um triângulo relâmpago mostrou que não é só russo e invicto que tem a péssima idéia de entrar na guarda de um excelente lutador de jiu-jitsu antes da primeira gota de suor poder lubrificar algum centímetro do corpo.

Questão respondida nesse UFC on Versus 2: Do Bronx vai estar disputando o cinturão até 70Kg em dois anos.

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

CRÔNICA 5 - S.O.S. Minotauro


Quando precisamos da ajuda de um amigo um simples enrugar de testa pode ser o suficiente para ativar uma espécie de help mode, aonde tentam nos acarinhar, ouvir com mais cuidado e buscar soluções reais. Já um SOS, popularmente conhecidos por aparecerem desenhados na areia das ilhas em filmes de aventura, significa um pedido de socorro quando se acha que não há ajuda por vir. É uma tentativa desesperada de encontrar nos céus, no mar, um modo de escapar daquela situação. É um momento desprovido de amigos ou com amigos que nada podem fazer. É um momento de peeling teológico, de desconstrução de conceitos de esperança e fidelidade, aonde todo o foco volta para a única coisa que pode, talvez, manter o indivíduo vivo. Dizem que de cada 10 previamente ateus resgatados de naufrágio, 7 voltam acreditando em Deus ou alguma força para além do espaço sideral. É o desespero urgindo por mudanças. É na versão astral dessa ilha que Minotauro se encontra.

Antonio Rodrigo Minotauro Nogueira é uma lenda viva. É ídolo de crianças e idosos mesmo praticante de um esporte tão violento. Vai ser daqui a 20 anos lembrado como um dos maiores de todos os tempos, respeitado como um precursor, um visionário. Isso é fato. Mas é melancólico presenciar sua decadência luta a luta.

Minotauro é lendário pela sua capacidade de absorver dano como um zumbi, um jiu-jítsu aplicado ao MMA inigualável, coração de leão e, principalmente, a capacidade e inteligência para mudar o eixo da luta a seu bel-prazer. Se estava ruim em pé, ia para o chão e vice versa. Era um atleta de qualidades mitológicas, quase inalcançável, diferente do que vemos hoje. Um boxer de baixa qualidade trocando socos com qualquer adversário. É intrigante filosofar sobre o que pode ter acontecido. Parece que sua estratégia de luta é traçada pelo inimigo. Ele era chamado com carinho de “Rocky Balboa brasileiro”, numa alusão a sua capacidade de ganhar lutas impossíveis, mas me parece que ele próprio e treinadores ficaram meio confusos com esse apelido do apelido, achando que é chamado assim por boxear sem medo de apanhar.

Antônio é um cara simples. Ganhou dinheiro, se rodeou de colegas e quer ser amado pelas pessoas. Não dá para não torcer pelo seu sucesso. Mas num esporte em constante evolução, abrir mão de verdades doloridas e edificantes por bajulações corruptíveis pode acabar em nocaute.

O seu modo de lutar começou se transformar depois da segunda derrota para Emelianenko Fedor, aonde foi vencido em pé. Ele se lançou a aprimorar técnicas de boxe e tentar bater nos adversários mais do que finalizá-los. Na verdade, a finalização se tornou muito mais uma conseqüência do que um objetivo e isso mudou sua carreira para sempre. Tomo como exemplo a fatia de tempo atual, onde se encontra no UFC. 5 lutas, 2 derrotas. Venceu, mas quase foi nocauteado pelo Heath Herring ( lutador que ele já tinha derrotado facilmente antes) e Tim Sylvia ( um striker que não tinha nada a oferecer fora lançar diretos em seu rosto e dar graças a Deus por cada segundo que Minotauro continuava aceitando, desnecessariamente, a trocação). Com Randy Couture co-estrelou uma luta épica entre dois gigantes que já abriram mão do que os fazia especial em troca de lançar os punhos um na cara do outro. Na maior parte do tempo parecia uma briga entre sogro e cunhado no churrasco de fim de ano. Foi nocauteado por Frank Mir e Cain Velasquez.

Minotauro tem um Boxe apenas razoável, não pendula, não esquiva, não tem body shots, upercuts ou movimento na ponta dos pés, fica estático lançando os braços em linha como um lango lango. Enquanto seus treinadores, amigos e fãs continuarem o influenciando a lutar em pé, ele o fará, como um mártir.

Ver o Minotauro chorando uma derrota aonde ele não lutou absolutamente patachongas do que sabe é de quase fissurar meu coração de granito. É como ver uma baleia branca sendo estripada, é presenciar a morte lenta de uma raça em extinção. Para cada Minotauro tem 1000 Jardines, Rogers, Ciganos. Nada contra strikers, mas se fossem tão especiais assim o boxe não teria quase falido.

Apesar de sua cara abalroada nos levar a crer que poderia participar do programa feminino “10 anos mais jovem”, ele ainda é novo e genial. Seu jeito calado vai impedir de pedir ajuda, mas seu olhar vidrado junto à lona do UFC 110 é um aflito sinal de SOS para quem consegue ver. Minotauro tem que mudar para voltar a ser ele mesmo, tranquilo de que nós nunca vamos mudar. Sempre estaremos lá, juntos, mesmo à distância, esperando ávidamente por precenciar essa metamorfose às avessas. Esse retorno do glorioso mito à Creta.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

ANÁLISE - DREAM 15: Aoki VS Kawajiri


É fato que a maioria dos grandes lutadores da atualidade tem contrato com o UFC, mas também é verdade que vários grandes atletas ainda não têm. Nesse fim de semana vimos quatro dos maiores nomes do MMA em ação, lá do outro lado do mundo para quem mora na América.

Existia um Shinya Aoki que vimos em suas primeiras 22 lutas e outro que vimos contra Gilbert Melendez pelo cinturão Strikeforce. Um era o lutador com as finalizações mais agressivas e criativas do MMA. Um atleta que fazia de chaves e torções violência contra o corpo do adversário como outros só faziam com socos e chutes. O outro, contra Melendez, era lento, acuado, reticente e não tentou um só ataque em 25 minutos. Teria sido essa luta um marco na mudança de rumo em sua carreira ou um lapso? A vitória fácil sobre o incrível Tatsuya Kawajiri mostra que é a segunda opção. Kawajiri, com vitórias sobre Gesias, Buscapé, Azeredo, Hansen e Shaolin, é um dos mais dinâmicos e fortes atletas até 70. Solidificado no top 10 da categoria há anos, não foi páreo para suas finalizações sanguinárias. Kawajiri é famoso pela sua resistência física e relutância em bater em chaves e Aoki percebeu isso rapidamente. Uma torção ou um ligamento rompido não iriam pará-lo, então serviu um banquete de finalizações com o prato principal que já vimos algumas vezes, ossos quebrados. Kawajiri bateu ao perceber seus ossos do tornozelo estilhaçando e Aoki, mais uma vez reinou supremo. Uma revanche contra o campeão do Strikeforce, no Japão, seria um sonho de luta. Mas, Melendez, que ao final de sua vitória sobre Aoki, declarou que lhe daria a revanche quando quisesse, se pronunciou nesse semana afirmando que não pretende mais enfrentar o campeão do Dream tão cedo. Por que será?

Gesias Cavalcante parece ainda não ter se recuperado mentalmente da derrota para Shinya Aoki em 2008. O japonês interrompeu uma seqüência de 14 lutas sem perder do brasileiro com uma vitória unânime que o deixou sem rumo. Menos pela derrota em si e mais por ter sido vencido em seu próprio jogo, no jiu-jítsu. Depois disso teve mais um insucesso em 2009 e veio para 2010 tentando re-engatilhar sua carreira. Infelizmente, para seus fãs, o máximo que conseguiu foi uma vitória por decisão dividida sobre o apenas competente Katsunori Kikuno. Se JZ quer recapturar seu merecido lugar entre o top 10 da categoria leve tem que voltar a lutar com freqüência, e, principalmente, melhor. Bem melhor.

Gegard Mousasi tinha uma missão. Vencer a luta de modo a apagar a má impressão de sua derrota apagada para Mo Lawall pelo cinturão do meio pesado do Strikeforce. Considerado por muitos como um dos três melhores lutadores do peso, uma vitória sobre o fraco Jake O'Brien era obrigação. Como um biscoitinho que não mata a fome mas ajuda a esperarmos até a hora do jantar. Finalizou na marca dos 30 segundos e agora espera, torço para isso, por desafios a altura. Também torço para que ele mostre mais do talento que o fez tão aclamado contra o próximo adversário que lhe imponha alguma resistência.

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

CRÔNICA 4 - Lágrima Siamesa


Depressão tende a ser precedida de euforia. Uma alegria espasmódica e aflita, descabida, que acaba como começa, encaixando perfeitamente num sentimento igualmente exagerado, proporcionalmente inverso. Um dando passagem ao outro. É comum essa sensação quando nosso time está numa final de campeonato ou nosso lutador favorito está no octagon. O improvável são esses dois sentimentos nos tomarem o âmago ao mesmo tempo, num desafio as leis da física, química, ou seja lá o que for, estraçalhando conceitos emotivos, os dois ao mesmo tempo, na mesma hora, num yin-yang terrível e apaixonante. Se futebol é uma caixinha de surpresas, MMA é a caixa de Pandora, e ela foi aberta no último Strikeforce.

Como bom humanista, nem feminista nem machista, admiro a conquista justa. A vitória pela superação, pelo talento, sem erros de juiz, sem acasos. E a vitória de Cris Cyborg me comoveu. Não por ser ela mulher e sua vitória mostrar que as mulheres podem fazer as mesmas coisas que os homens ou esses atestados sexistas que sublinham mais as diferenças do que decantam. Foi comovente por ser visceral, pela violência de uma campeã que, mesmo superando facilmente sua adversária, suou e sangrou e tencionou os músculos até o fim da luta. Sem dança, sem firula, num respeito brutal que só um esporte de combate permite. Em MMA, respeito é soco na cara, é esforço, é o choque, é colocar em cada movimento os ligamentos em risco, os ossos para serem fissurados. E isso vindo de uma campeã, que poderia cadenciar a luta, poderia amaciar o impacto ou poupar o corpo, é lindo de ver. O beijo em seu marido, seguido de um “eu te amo” visivelmente sincero, com a adversária estirada na lona, ao seu lado, descabelada, destruída, ensangüentada, é um manifesto pela magia violenta e poética desse esporte. Um momento Quentin Tarantino que só MMA proporciona. Nesse segundo, metade de uma lágrima umedeceu meu globo ocular.

Como realista, não consigo forçar beleza aonde não vejo. Não procuro pote de ouro no fim do arco-íris. Mas como toda rocha que precisa de certa dose de umidade, busco, ávido, momentos fantásticos, histórias verdadeiras aonde o impossível acontece diante de nossos olhos. Testemunhar o aparecimento de lendas e sua performance, como se pudéssemos contemplar o titã Cronos caminhando com um castelo inteiro cravado em suas costas, clamando por vingança contra Zeus. Porém é vazio presenciar o contrário. Presenciar o fim da carreira de um astro, de alguém que subverteu as regras da normalidade e pingou gotas de esperança nessa existência. Deve ter sentido oco o coração quem presenciou o fim da carreira de Garrincha, Maradona, Jordan, Hendrix. Porque, com certeza, o meu ficou ao presenciar a primeira derrota de Fedor Emelianenko.

Desprezo os urubus de carniça que torcem para o melhor perder, para o monumento ruir, para ver o circo de Soleil pegar fogo. São pequenos os que pensam assim, já que esse mesmo ídolo sobre as quais entranhas vão se debruçar, foi o que os fizeram gostar do esporte. Como um parasita que mata o hospedeiro. Mas fora para essa minoria, sua derrota deixou um vácuo.

São vários os grandes atletas, Anderson, St.Pierre, Shogun, Brock, mas ele era o atleta dos atletas. Era o topo da cadeia. Era o que todos queriam vencer. Batman não seria nada sem o Coringa. Foi ele que, quase sozinho, quando MMA enfrentou seu momento mais difícil, quando o PRIDE já andava mal financeiramente por dívidas com a Yakuza e o UFC tinha como maior estrela o insosso Tito Ortiz, realizava lutas antológicas no Japão que até hoje são usadas como exemplo quando queremos mostrar para alguém momentos incríveis no esporte.

Todas as formas de competição precisam de sobre-humanos. Aqueles que vão muito além do que parece cientificamente possível. É da lenda que contamos para nossos filhos, é da lenda que lembramos e é pela lenda que devemos respeito. Mas ele foi suplantado pelo triângulo mortal do brasileiro Fabrício Werdum. A flecha acertou Aquiles.
O maior não cai, ele tomba. E toda a terra do MMA tremeu. A outra metade da lágrima se formou, uma gota seca, única e ainda assim siamesa escorreu, leve de um lado e pesada do outro, feliz e triste, esquizofrênica e incontrolável, como só o maior esporte do planeta poderia cunhar.

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sábado, 3 de julho de 2010

ANÁLISE - UFC 116: Lesnar VS Carwin


Num esporte de combate, vitórias são um passo a frente e derrotas são dois para trás, e nesse UFC 116 alguns atletas pularam algumas casas em vitórias, se não todas espetaculares, muito significativas em termos de ranqueamento.

George Sotiropoulos, fora um momento de desatenção que lhe custou um joelho no queixo e quase a vitória já consolidada, dominou no chão e em pé o excelente grappler Kurt Pellegrino. Supremacia no solo sobre um dos melhores praticantes de jiu-jitsu no peso e uma prévia passagem de carro sobre o ex contender Joe Stevenson, o colocaram no mapa como um merecedor desafiante do cinturão até 70. Numa categoria estagnada, com os mesmos atletas se revezando no meio da tabela, é refrescante o aparecimento de um contender tão completo e competitivo. Sotiropoulos saiu de "quem é ele?" para "agora ele vai pegar quem?"

Chris Leben estava a uma derrota de ser cortado do UFC no TUF Finale 11, apenas duas semanas atrás. Vinha de duas derrotas seguidas em exebições pouco inspiradas e um afastamento por uso de anabolizantes. Foi jogado como boi de piranha para o invicto Aaron Simpson, que ele acabou nocauteando. Dias depois, com Wanderlei Silva impossibilitado de lutar, foi atirado contra o superstar da conexão Koreia/Japão Yoshihiro Akiyama. Era uma segunda chance de cortá-lo e, de quebra, ajudar na consolidação do MMA no continente asiático. Só que Leben, numa prova de que se futebol é uma caixinha de supresas, MMA é a caixa de pandora, finalizou o japonês. Atrasou a escalada ao mundo nipônico, carimbou a primeira derrota de Akiyama no UFC, ganhou carimbo de herói nacional, ganhou selo com a cara dele no Estado de Portland e o catapultou para uma luta explosiva com Wanderlei. De quase deixado de lado em duas semanas a co-main event em seu próximo combate e TOP 10 no ranking do Sherdog em duas semanas. Quem apostou pesado no Leben nesses dois eventos quebrou a banca.

Com a derrota insossa de Fedor para Werdum dias atrás, a aura de melhor peso pesado do planeta estava em aberto. E até poderia ter continuado, caso o vencedor de Brock Lesnar e Shane Carwin viesse por meio de uma interrupção prematura do árbitro, um resultado inesperado por conta dos juizes ou uma luta arrastada. Nada disso aconteceu. Em MMA lendas surgem de batalhas lendárias. Quando um atleta parece suportar o que ninguém suportaria, fazer o que ninguém suporia, é porque alguma coisa especial está acontecendo. Se Shane nocauteasse Lesnar, ele seria esse cara. Ele teria nocauteado o atleta mais forte e veloz do planeta, aparentemente imbativel. Mas no caso de Lesnar, a vitória parecia poder vir apenas por um domínio de solo por conta de um wrestling superior, sem maiores emoções. Mas, novamente, nada disso aconteceu. Se Lesnar era um dos lutadores mais ferozes do mundo por sua força e agilidade, o que dizer dele depois de apanhar durante 3 minutos de um atleta que nocauteia seus adversários com 1 ou 2 socos? Se o homem que transforma todo adversário que toca num saco de batatas esparramado pelo chão, desce a mão até não aguentar mais, diretamente na cara de Lesnar e ele, não só aguenta, como volta para o segundo round e finaliza com um katagatame? Se nem Carwin consegue nocautea-lo ou impedi-lo de levar a luta para o chão, somado a sua temida força, peso e velocidade sobre humana, é seguro dizer que presenciamos o nascimento de uma das futuras lendas do MMA. Lesnar não é gente como a gente, não é feito do mesmo material e é, hoje, inquestionavelmente, o cara mais sinistro do planeta.

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terça-feira, 29 de junho de 2010

CRÔNICA 3 - Luto ao cubo


2010 começou de modo nefasto com o falecimento de três insubstituíveis ícones esportivos. Dois desses se desassociaram da matéria e já se encontram em outro universo, sobre uma nuvem fofinha e branca ou num céu dourado vivendo eternamente sua vida de sonhos, dependendo de por qual prisma religioso abordemos a questão do fim da existência física, já o outro, o terceiro, ainda perambula entre nós. Apesar de vivo em corpo, sua alma encontra-se estilhaçada, e essa talvez seja a pior das mortes.

Façamos luto por Armando Nogueira, que muitos dizem ter sido um dos maiores jornalistas do Brasil. Mentira. Foi um dos maiores do mundo. Extraiu do chute que erra a bola e perde o gol feito, ao invés do óbvio proferir de impropérios que a maioria de nós teria para oferecer na melhor das hipóteses, uma certa pena da bola, que sonhando o enrosco sensual com o fundo das redes, se viu largada, só, na grama verde sentindo-se não querida. Fez de vitórias simples de 1 a 0 jornadas multidimensionais entre o céu e o inferno. Desdobrou o normal em belo e livre, sem acanhamento de fazer de cada texto uma declaração de amor por momentos que a maioria teria como mundanos. Endeusou esportistas, transcendeu esportes, exagerou miudezas, tirou uma das trilhões de estrelas do firmamento e colocou para brilhar no peito de cada botafoguense, um artífice de palavras que sempre escreveu de modo interessado sobre as pequenas coisas que o rodeavam. Como o sol amando e falando baixo com os planetas. Armando norteou um caminho que só existe para quem consegue ver além dos olhos, caminho que, para José Saramago, a maioria não vê. Um caminho tortuoso pelo qual ele nos levava pela mão, sem sobressaltos, reafirmando em cada crônica o xeque mate do além sobre o aquém.

Façamos luto pelo Grão Mestre Luiz Alves, uma das maiores lendas não reconhecidas do esporte brasileiro. Manteve vivo o muay thai no Brasil durante um período em que a luta era mal vista e desprovida de glamour. Perseverou quase sozinho, guiado por aquela convicção de aço forjada no Olimpo com a qual apenas alguns homens especiais são agraciados, levando a bandeira de sua luta e sonhos. Vanderlei, Anderson, Shogun e outros, não foram seus alunos, mas são filhos do muay thai que tomou o Brasil de assalto apenas porque a célula mater se manteve pulsante no corpo do mestre durante anos a fio. Se o Brasil tem mais campeões de MMA, mais gente saindo da marginalidade por optar pelo caminho dessa luta e arte, mulheres fazendo aulas para emagrecer, Luiz é o responsável. Ele fez o Brasil um pouco mais campeão, seguro e saudável.

Façamos luto por Frank Mir. Um dos maiores lutadores de MMA de todos os tempos nos ensinou que a maior das estruturas musculares não se sustenta sem coração. O seu talento e sucesso prematuro nos fez acompanhar uma jornada auto-destrutiva ao longo desses anos de mais derrotas vexatórias do que vitórias relevantes. Como um amigo que insiste em contar histórias tristes e nos contaminar com uma dor que deveria ser só dele. Mir sofreu um acidente de moto anos atrás que partiu sua perna em dois. Contrariou os médicos que diziam não poder nunca mais competir vencendo alguns dos maiores lutadores do mundo anos depois. Mas algo foi desativado no dia do acidente. Frank não vencia mais lutas com o coração, vencia por conta exclusiva de sua técnica completamente diferenciada, mas nas vezes em que teve sua raça, sua alma testada, começou a fraquejar, vez após vez, num mau exemplo deprimente de que vontade supera talento. No UFC 111 presenciamos a definitiva morte por esquartejamento do espírito de Frank pelas mãos de Shane Carwin, num nocaute devastador, que arrancou pedaços de sua alma diante das TVs do mundo todo. Mir passou de um possível desafiante ao título a um lutador que precisa de acompanhamento psicológico.

Armando e Luiz não estão mais aqui em corpo, mas suas ondas vão sacolejar o mar da existência por muito tempo. Mesmo longe, parecem tão perto. Frank Mir está perto, mas ninguém parece ligar. Se a vida é mais do que só viver, se compreende o que somos e o que outros são, podemos afirmar que Armando e Luiz viverão para sempre conosco, já Mir, está morto para essa vida. Pensando bem, talvez essa coluna tivesse que ter feito luto apenas para uma pessoa. Para as outras duas, caberia melhor uma salva de palmas.

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domingo, 27 de junho de 2010

ANÁLISE - Strikeforce: Fedor Vs Werdum


Antes de entrar no miolo da fruta deixo clara a minha opinião que narradores e comentaristas, em MMA, deveriam ser, no mínimo, como árbitros em futebol. Os bons, você nem nota. Se quando acaba um evento, estamos comentando que eles não calaram a boca na hora da entrada dos lutadores ou das besteiras que disseram, é porque houve algum problema. Nesse sábado a dupla encarregada dos comentários no Strikeforce foi constrangedora. Deram um show de mal português e péssimo conhecimento do esporte, claramente lendo na listinha do www.sherdog.com o cartel e resultado de todos os lutadores. Ler e se informar é do jogo, mas ler ao vivo, fica desleixado. Da parte do português, bem, eles fizeram mais do que errar palavras, eles inventaram novas num neologismo doentio. Sambo (a luta praticada por Fedor Emelianenko) virou "sanbon", reversão virou "revenção", submission virou "submmíssio". Chegaram ao ponto de "traduzir" o nome de um lutador. Gilbert Melendez passou para GILBERTO Melendez. Nos EUA o Presidente Lula é chamado de President Squid? Impressionante. Mas, o pior de tudo, foi chamarem MMA de vale-tudo. Em bares, ruas e conversas informais aqui no Brasil vale-tudo é quase um apelido para MMA. Mas, profissionalmente, é MMA e ponto final. A transmissão toda foi um show de despreparo e desinteresse por parte dos dois envolvidos. A HBO tem poder financeiro para contratar bons profissionais que amem e entendam do esporte (Luciano Andrade, Carlos Barreto, Nico Anfarri, dentre outros), e obrigação de oferecer um produto de qualidade para seus espectadores. Ou, no mínimo, uma tecla SAP que nos permita ouvir a transmissão original, em inglês.

Sobre as lutas, foram três os destaques. A vitória quase coreografada de Cung Lee sobre Scott Smith, numa luta cheia de plasticidade e unilateral. Por falar em laterais, Cung e Lyoto são dos dois lutadores de MMA que melhor dominam os ângulos na luta em pé. Esquivas e golpes das diagonais num refinamento de precisão e inteligência característica apenas deles. É uma pena Cung Lee não ter começado a carreira de lutador de MMA aos 20 anos.

Cris Cyborg manipulou como quis e depois jogou fora a very sexy e very little cat Jan Finney. Apesar de ter começado a luta bonitinha mas ter acabado bem feia, tem um coração enorme e aguentou porradas que teriam colocado o Chuck Liddell de hoje em dia para dormir. Valorizou uma luta que todos tinham como fácil para a brasileira. Grandes lutadores precisam de adversários briosos para dar brilho ao seu cartel. Finney mostrou que pode enfrentar qualquer uma no peso e Cris Cyborg colocou mais um ladrilho de ouro na sua estrada para Oz.

Fedor Emelianenko nos mostrou que o melhor atleta do mundo só o é por aplicar suas habilidades ao extremo e isso só ocorre quando há respeito pelo adversário. Se é verdade que o russo católico ortodoxo respeita a todos como indivíduos pensantes e criaturas de Deus, também é verdade que, esportivamente ele vem pagando só a gorjeta em quase todas as suas lutas nos últimos 2 anos por subestimar o oponente. Nesse Strikeforce ele finalmente pagou a conta toda por entrar na jaula acreditando no papo de fã de que ele é imbatível. Para o fã, o atleta é um herói, um sobre humano, mas para o próprio, que treina , abre mão de dias com a família e sente dor, esse pensamente não pode existir. Fedor deixou claro que foi contaminado por esse oba oba mundial ao tratar um dos melhores lutadores de chão do planeta como se fosse apenas um de seus sparrings de sambo lá nos confins da Rússia. Foi finalizado em pouco mais de 1 minuto.

Já o brasileiro Fabrício Werdum nos mostrou várias coisas. Mostrou que jiu-jitsu é a arte marcial mais mortal já inventada. Verdade que em MMA como a luta começa em pé, o atleta tem que ter conhecimento de wrestilng para levar a luta para o chão ou de trocação para derruba-la para o chão, mas o jiu-jitsu bem aplicado é uma arapuca vietnamita. Me faz pensar porque Minotauro, Damian Maia, Minotouro e o próprio Werdum vem querendo apostar no boxe ao invés de lutar o que sabem no chão. Talvez tenham cansado da dinâmica da luta de solo, quem sabe. A questão é que sabendo essa ser sua única real arma contra Fedor, ao se perceber num embrulho na lona com o Russo, começou a atacar, incansavelmente, num show de raça e agrassividade por baixo que não vemos faz tempo. Só parou quando pegou e finalizou. Werdum mostrou para todos e para ele prórpio porque jiu-jitsu era uma arte tão temida e, principalmente, porque deve continuar sendo.

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