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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANÁLISE: UFC 136 - Edgar VS Maynard 3


Num evento cheio de estrelas e lições de vida, vimos algumas brilharem ainda mais forte e outras começarem a apagar melancolicamente. José Aldo mostra mais uma vez porque mesmo sendo superstar do WEC e campeão do peso pena, nunca fez um evento principal do UFC, enquanto Edgar, que tantos acham não valer o cinturão que carrega, mais uma vez cala a boca dos críticos e de seu maior nêmesis na porrada. Maia mostra que de tanto treinar uma arte podemos acabar desaprendendo outra, Sonnen VS Stann dão uma amostra de porque casar luta entre amigos não é uma boa idéia e Guillard personifica a batida realidade de que prepotência adora dar rasteira de frente no talento. Diferentes lições numa agradável e pouco surpreendente noite de lutas.

Frankie Edgar VS Gray Maynard

Edgar pode nocautear o King Kong que ainda vão achar que deveria descer de peso porque é muito pequeno para a categoria que vem dominando. Opinião se torna tendenciosa quando nega fatos, e é claro que Frankie pode até descer de peso e continuar campeão por lá, mas até aparecer alguém que consiga tomar o cinturão que ele agarrou e não quer largar, afirmar que deveria ir para outra categoria é, no mínimo, estranho.

É fato que Edgar é pequeno para seu peso. Leve na balança e ainda com um percentual de gordura mais alto e com menos massa muscular que seus adversários. Maynard, Cerrone, Ben Henderson, Miller, Siver, Guillard e quase todos os atletas de ponta do peso leve tem menos gordura e mais músculos que o atual campeão. Mas que injustiça usar o que o qualifica como gênio, para tira-lo do posto. Incrível é quem faz o impossível, o improvável, e isso Edgar vem fazendo faz anos. Ai de mim se assistisse a suas lutas sem ver beleza num cara tão pequeno subjugar outros tão grandes e fortes. Como poderia amar artes marciais negligenciando a realidade básica e primeira da arte marcial, que é a técnica suplantando a força? Edgar é pura habilidade e coração. Um campeão genuíno e pequenino. Pequenino para nós, espectadores, porque para o recém nocauteado Maynard, que lhe aplicou dois espancamentos que não foram suficientes para fazê-lo desistir, deve ser gigante.

Maynard faz o que faz e pronto. Não tem poesia, não tem fantasia, purpurina ou show. Seu comprometimento com a violência aplicada com o único objetivo de vencer é o que faz ser tão temido. Florian, Diaz, Huerta, Miller e o próprio Edgar, já sentiram o peso de seu pragmatismo chato e eficaz. Entra pra ganhar, vaias ou aplausos não alteram seu processo. É quase robótico em sua execução de estratégia e foco. Entra para desmantelar aos poucos, se necessário, progressivamente desgastando e vencendo por querer mais do que o adversário. Por cortesia de seu excelente wrestling e dos músculos de sua lombar feitos de cabos de platina, luta aonde quer. Em pé ou no chão, nunca é escolha do outro. E se garante num queixo de pedra para desferir contra golpes duros e constantes, ou num anti-jiu-jitsu de kriptonita, para largar a mão no chão sem risco de ser finalizado. É assim que faz desde 2006 e é assim que vem dando certo. Não inventa, não progride, não muda, não dá errado. Gray é quase mecânico. E quase venceu Edgar nas duas vezes que disputou o cinturão. Quase.

O que pode consolar Gray Maynard? Que acontecimento apaga as cãibras das entranhas de ter o sonho escapulindo por entre os dedos duas vezes seguidas? Os torcedores do Botafogo sabem bem do que estou falando. Sentir os ossos do queixo e do orbital e da têmpora de seu adversário racharem contra seus punhos de ódio. E soco a soco que acabariam com qualquer um, ver seu sonho mais perto. E em cada queda de Edgar, ansiedade, e a cada levantada, aflição. E porque esse moleque não fica no chão? O que tem nele que não tem em mim? Nem eu agüentava essas porradas. E pensamentos assim foram nocauteando Maynard de dentro pra fora, seu corpo ainda não tinha se dado conta do que a alma já sentia. Edgar não era maior do que ele, mas era mais. E quanto mais batia e mais quebrava, menos o campeão agüentava e mais ressurgia. Um lutador infinito, um microcosmo.

Enquanto Edgar estiver caminhando a terra dos seres humanos, Maynard sentirá sua presença. Até o fim de seus dias. Quando andar no shopping, trepar com a esposa, brincar com seus filhos ou até, quem sabe, eventualmente ser campeão sobre outro lutador. Essa derrota ancorou seu espírito. Prepotentes não tem canino forte para mastigar carne de pescoço. Para Gray desceria doce um fundo gole de absinto com duas gotas de cianureto.

Edgar é um dos maiores da atualidade e pode ser bem mais do que isso. Sua falta de carisma só vai dificultar as coisas e fazer o show ser ainda mais emocionante para nós. Um herói relutante. Defendeu o cinturão três vezes e as três lutas foram revanches diretas. Nem a direção do UFC se conforma com ele ainda ser campeão. Venceu Penn e Maynard, dois dos atletas, até o momento, considerados os mais perigosos da categoria. Agora falamos do fantástico Ben Henderson (e com razão), de Cerrone e outros. Mas sempre haverá um novo que precisa ser batido, é da natureza do esporte. E até que Edgar perca, temos que engolir que ele é o favorito contra qualquer um.

Se é tão veloz carregando massa adicional lutando nesse peso e sabemos que quanto mais leve, mais rápido o atleta se torna, caso descesse para o galo, seria invisível. Edgar faz o incrível luta a luta. Não é só a apresentação de grande técnica e determinação, são exemplos comoventes de superação. Ver Edgar lutar me inspira a ser um homem melhor, uma pessoa mais correta, tentar mais uma vez onde falhei, me dar mais uma chance. Quando Frankie caiu quase nocauteado pela segunda vez, foi sangrado na segunda luta contra o mesmo adversário e, mais uma vez se levantou, se recusando a aceitar o que parecia ser o destino lhe metendo cara a dentro um roteiro pré escrito, rachou mas não quebrou, com os olhos lacrimejando de dor, continuou esquivando e levando e fazendo o que acreditava. Porque é só assim que corremos atrás de sonhos, só levando e agüentando chegamos lá. Quando minutos depois nocauteou Gray, se lançando num direto, seu corpo arrastado pelo peso certeiro de sua luva com uma tonelada de expectativas, seus pés fora do chão, toda a sua existência num só golpe, com força para transformar carvão em diamante, o seu maior oponente num corpo caído, eu abracei minha namorada. Feliz. Não torço para atletas em específico, e o sonho alcançado por Edgar veio as custas do despedaçado de outro, mas de alguma maneira, aquela vitória, naquele dia, daquele jeito, pareceu certa. Pareceu um exemplo de coisas boas. Uma lição de perseverança e esperança que tanto precisamos de tempos em tempos. Edgar reescreveu seu destino no UFC 136, e inspirou que tantos outros façam o mesmo.

Jose Aldo VS Kenny Florian

Aldo era um dínamo, uma usina nuclear comprimida dentro de pouco mais de 1,70 de altura, voraz, audaz, móvel, imprevisível, perigoso. E por mais que ainda seja um dos maiores lutadores do mundo, não é mais nada disso. Era tanto, que mesmo em sua pior fase, ainda é mais do que a maioria. Mais do que todos em seu peso, para ser exato. A crítica vem por querer ver um Aldo estelar, não apenas o melhor do peso. A evolução aparentemente constante daquele que poderia ser um dos maiores de todos os tempos, parece ter estancado. Assim, sem mais nem menos. Parou de repente.

Aldo era um atleta selvagem. Como ele conseguia manter a frieza de matador da máfia mesmo sob dificuldade e alto frenesi eram emocionantes. Como mesmo nos momentos mais caóticos seus finos braços não largavam as rédeas das técnicas refinadas aprendidas e doutrinadas por André Pederneiras. Era letal. Uma borboleta com asas de gilete. Era o Aldo do WEC. Fãs apenas do UFC devem até ter dificuldade em entender porque tanto se falava dele. Em mais uma performance burocrática e reticente, venceu sem convencer. Foi mais uma vez superior a seu segundo adversário no evento, mas nada mostrou de grandiosidade, genialidade ou ímpeto. Parece que o tanque está furado, alguma coisa não está como era antes. Difícil ser específico. Pode ser psicológico, a pressão de ter que ser uma estrela, quando antes ele apenas era. O corte de peso, levando em conta a possível subida de categoria, já o preparando para ser maior no dia a dia, entrar maior, se acostumar a lutar carregando mais massa muscular. Pode ser que apenas tenha tido dois dias ruins, acontece, Anderson teve alguns contra Maia, Cote e Thales. Quem sabe. O que dá para afirmar é que ele está lutando quadro a quadro. Se subir para o peso leve, tento que ficar ainda mais pesado, vai se metamorfosear numa tartaruga e ser chutado para fora do octagon por atletas bem maiores e rápidos do que ele. Toda a expectativa que o planeta tinha, inclusive eu, de vê-lo protagonizando combates antológicos no peso leve ara baseado em suas performances no WEC. Esse Aldo de agora, pelo seu próprio bem, deve permanecer no peso pena.

Florian, que alterna comentários extremamente positivos com declarações depressivas, afirmou após mais essa derrota numa luta por cinturão: “...tem lutadores que simplesmente não nasceram para ser campeões.” No mesmo bar aonde Gray vai tomar seu absinto, Florian poderia ir junto e pedir uma dose dupla. Até como comentarista de MMA, onde se sai muito bem, não vai conseguir tirar a vaga de Joe Rogan.
Florian é um lutador excelente, quando está bem, quando seu jogo encaixa, quando não amarela, é um atleta que domina bem várias áreas. Mas em lutas por título, metade dele fica em casa, ou a metade ruim vem junto, quem sabe. É um mistério. Mas é claro que no octagon está enfrentando seu adversário e ele próprio. E contra dois, só Jon Jones. Lutou mal, com mais medo de fracassar de novo, do que raça para vencer pela primeira vez. Nessa matemática do ego, saiu negativo novamente. Não aproveitou a lentidão de Aldo, não foi agressivo em pé nem quando o brasileiro parecia cansado para segurar a guarda alta, não atacou por baixo nem percebendo que o campeão estava ali apenas para segurar e nenhum golpe iria desferir. Deu uma lição de fraqueza, um passo a passo de como não alcançar seus ideais. Mesmo de bermuda, camisa e boné do patrocinador, seu espírito estava desnudado e o tamanho minúsculo de seus colhões ficou a mostra para quem quisesse ver. Florian ainda pode fazer excelentes lutas, se abrir mão do cinturão, mas seu ego maior do que a coragem deve fazê-lo repensar a decisão de continuar na carreira. Vai lutar o que falta para finalizar o contrato e não o veremos mais usando as mini luvas.

Aldo é mais do que vimos, tem que ser mais. Não é possível que tenha nos enganado tão bem no WEC. Hominick não é melhor que Faber. Um dos lutadores mais empolgantes e promissores parece um veterano desmotivado. Dizer que ele cair por cima de um assustado Florian, e não desferir um soco ou cotovelada faz parte da estratégia, é fazer vista grossa para problemas que podem se tornar mais graves depois. Hominick só queria ficar em pé e Florian entra sempre derrotado em lutas assim, mas seu próximo adversário, Chad Mendes, é de outra raça. O antigo Aldo, o que tanto defendi, aquele sobre o qual já tão bem escrevi, o paralisaria com uma joelhada voadora no meio da cara, entre os dois olhos e diretamente acima do nariz. O deixaria com a cara no chão e a bunda pra cima, enquanto gritaria e celebraria subindo na grade do octagon. Mas o novo Aldo será derrubado, sistematicamente, sem magia ou beleza, por um incansável e invicto Mendes, que sem vergonha na cara vencerá uma luta chata por pontos onde velocidade e ímpeto superarão lentidão e desmotivação.

Que Jose Aldo me prove errado, que o faroeste do caboclo toque mais uma vez no UFC Rio 2, que ele vença contundentemente e que os fãs digam que eu torço contra e não entendo nada. Não me importa. E me entregar como mártir se minhas palavras podem lhe devolver sangue aos olhos, não é por torcer por ele, mas sim pelo MMA show e incrível que ele tem como por em prática frente aos meus olhos crédulos, ao vivo, e Chad Mendes nunca conseguirá.

Chael Sonnen VS Brian Stann

Chael Sonnen esteve assombroso de tão perfeito e eficaz nesse UFC 136. Um atleta com essa objetividade, essa capacidade de derrubar com tanta velocidade, sem tempo pra pensar, e dominar com socos e transições no solo um competente Stann pode, realmente, impor real perigo a Anderson Silva. Mas a questão é se Sonnen e Stann realmente lutaram nesse UFC 136.

Sonnen e Stann são amigos. Quem acompanha MMA pela mídia internacional sabe a admiração e vínculo que une fortemente os dois. Não creio que houve armação, apesar de Sonnen adorar uma, mas por parte de Brian isso não aconteceria. Uma pessoa séria que reverte grande parte de tudo o que ganha com MMA para instituições que cuidam de ex soldados, companheiros de guerra que não tiveram a mesma sorte que ele, feridos em combate. Um homem com memória e gratidão é um homem de fibra. Quem não tem fibra, nunca vai entender essa frase. Stann tem. Homens assim não se vendem. O que parece ter acontecido é que ele não tinha a mesma motivação para lutar contra seu amigo. Por mais que seja um esporte, é violento. E não é qualquer indivíduo que consegue praticar violência contra um ente querido, mesmo que apenas esportivamente. Eu não entrava de sola no meu irmão quando jogávamos futebol. E foi isso. Stann não entrou de sola, não veio pra vencer. Veio pra cumprir um contrato como um bom profissional faz, pela grana, pelo show. Mas o desejo de superar o adversário, que em MMA vem com pequenas doses de raiva, agressividade e coisas assim que temperam o momento, ele deixou na prateleira da cozinha.

Apesar das boas performances recentes, Stann não é um grande lutador. Agressivo e displicente, tem uma carreira bem irregular. Sua derrota não foi surpreendente, ainda mais levando em conta que era claro não querer muito estar ali. Sonnen aproveitou, mas não maltratou. Fumou mas não tragou. Não é tão bom quanto pareceu ser, mas ainda é bom o suficiente para vencer Stann mesmo que lutassem a vera. Em qualquer situação normal desceria o cotovelo na cara, depois de 3 rounds por cima, e rasgaria Stann para mais de 20 pontos juntarem. Não fez isso. Sentiu o amigo amuado, dominou sem trauma e venceu convincentemente para quem olha com olhos inocentes. Levantou e clamou por Anderson Silva. Dana White que tem olhos de serpente, percebeu nessa uma vitória café com leite e agendou uma luta sua contra Munhoz. Outro lutador longe de ser realmente bom, mas um adversário que lutará de verdade.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ANÁLISE: UFC 135 - Jones VS Jackson


Minhas zapeadas constantes no Rock in Rio durante a transmissão desse UFC 135 mostra que alguma coisa saiu muito errada. Vários tiros saindo por várias culatras. Card com Jones, Rampage, Gomi, Diaz, Hughes e Koscheck não render uma noite explosiva de lutas é como toneladas de dinamite sem detonador. Talvez o excesso de combates entre jovens atletas de ponta e estrelas em fim de carreira tenha sido a razão. A vitória de Ortiz sobre Bader foi emocionante simplesmente porque essas coisas não costumam acontecer, e sem contrariar nenhuma estatística, não aconteceram nesse UFC. Um evento estéril muito mais marcado pela apatia dos derrotados do que mérito dos vencedores.

Jon Jones VS Quinton Jackson

Quinton vinha de 10 vitórias em suas últimas 12 lutas. Em 6 anos apenas uma derrota controversa para Griffin e uma por pontos para Rashad e pronto. Rampage era um desafiante genuíno e bem credenciado ao título dos meio pesados. Para traçarmos uma linha comparativa, nos últimos 6 anos Wanderlei Silva perdeu 7 lutas. O que aconteceu com Jackson nesse UFC 135 é o que ainda vai acontecer com muitos atletas. Sucumbiu aos pés da aura de invencibilidade de Jon Jones. Perdeu a luta mesmo antes de entrar no octagon. Começou o round mais preocupado em não perder rápido e ser humilhado, do que partir para dentro e executar a estratégia e tentar ganhar.

Quinton declarou que Jon Jones não tem queixo, que tem medo de ser atingido no rosto. Que iria se meter por entre os socos do campeão até achá-lo e nocauteá-lo. Exaltou sua resistência, seu queixo, sua coragem de aceitar golpes para desferir um fatal, falou de seus momentos no Pride e o que separa os campeões eternos dos eventuais. Quase Don Quixote. No embate contra moinhos de vento saiu vencedor, mas na hora da luta nada disso aconteceu. Esteve apático, pequeno, obsoleto, tentando cruzados curtos sem o menor indício de sucesso e aceitando chutes na perna sem o menor esboço de defesa. Petrificou diante da medusa. Paralisou na luta porque parou no tempo. Seus cruzados funcionam com lutadores curtos que lutam por dentro, e funcionou tantas vezes, mas a chance de funcionar contra o segundo maior alcance do UFC era remota. Quando começamos a nos apoiar demais em improbabilidades e sortes para validar uma tática, é porque o objeto está longe do alcance racional. Quinton não tinha armas físicas ou técnicas para vencer Jones sem auxílio do acaso.

Chega um momento na carreira de um veterano que ele para de evoluir. Ele para de ser tornar cada vez mais perigoso porque para de aprender. Rampage, Wanderlei, Couture, Liddell, Hughes, Ortiz pararam de melhorar para apenas lutar. Apenas aparecer no octagon. Espertos aqueles que já se aposentaram antes de se machucar realmente. Como preparar uma estratégia contra Phil Davis, Rashad, Cerrone, Ben Henderson, Jones, se eles estão sempre se afiando, sempre em movimento? Dando passos além, sejam físicos, técnicos ou táticos. O mesmo não vale para a maioria dos veteranos. Basta pegar uma fita VHS surrada, colada com esparadrapo, que podemos montar uma estratégia para vencer Quinton Jackson sem surpresas. E foi isso que Jon Jones fez. Assistiu a todas as lutas do ex campeão, apesar de que poderia ter assistido apenas uma ou duas que daria no mesmo, e montou um plano de ataque sem falhas para uma luta aonde venceria mesmo sem plano nenhum.

Verdade que Jackson foi o que chegou mais perto de vencer o atual campeão e superstar Jones com uma chave de carisma no dia da pesagem. Conseguiu o impossível, fazer um dos lutadores mais queridos do planeta ser vaiado enquanto ele, o desafiante, saiu aplaudido. De foragido da polícia, quase mal caráter no TUF, desinteressado em continuar competindo em MMA para ser artista de cinema, até dar a volta por cima, disputar o cinturão e ser aclamado pelo público como herói. Coisa que só uma lenda do Pride poderia nos proporcionar. Mas foi só isso. Como tempos atrás Jackson conseguiu seu status de imortal dentro dos ringues e octagons, o mesmo vale até hoje. È lá que ouvimos o discurso que não precisa ser dito, a verdadeira história contada pelas luvas, no terreno aonde nasce o para sempre. E lá Jones vem construindo seu império com ossos e almas dos derrotados.

Jon Jones venceu sem dificuldade, quase como se não quisesse realmente machucar seu oponente e ex ídolo juvenil. Dominou completamente lutando pela metade, como vem sempre fazendo e parece que vai continuar durante muito tempo. É da beleza do MMA revigorarmos nossos interesses depois de uns dias e sempre acharmos que um novo desafiante, uma revanche, pode trazer mais emoção, algo de diferente. Faz parte do ciclo de adrenalina e expectativas que nos abastece, mas friamente, sob olhar clínico, cínico e sem paixão, ninguém no meio pesado pode oferecer algum perigo a Jones. E do mesmo modo que isso é incrível de presenciar, pode acabar se tornando bem chato.

Jones pode iluminar o caminho para uma nova era do MMA, ou ser o buraco negro que só destrói atleta após atleta até que nada sobre, nem emoção. Se liberar seu estilo, se entrar no modo turbo, se quiser ser incrível mais do que apenas vencedor, pode figurar entre os maiores de todos os tempos rapidamente. Mas se pensar como GSP, em se manter campeão destilando doses homeopáticas e precisas de técnica apenas quando necessário, vai se tornar imbatível e irrelevante. Caso opte por usar sua superioridade técnica e física para dominar sem emoção e vencer sem paixão, vai ser mais um daqueles campeões que não motiva. O cinturão vai estar com ele, vai ficar milionário e ter várias mulheres. Não nos enganemos, um possível desprezo não afetará nada disso. Mas no fundo de sua alma vai estar um buraquinho, um vazio, uma sensação perene de desconforto. A presença da ausência de nossos aplausos.

A carreira de Jones só começou e já achamos que ele tem que fazer mais do que apenas desmantelar Shogun e vencer com facilidade Jackson. Fazer o que? Culpa dele que nos mostrou traços de genialidade e fantástico e nos acostumou mal. Bones pode ser um lutador incrível de assistir, ídolo de nações inteiras, estrelar nossa new age, mudar a capa do livro do MMA, ou pode continuar sendo o que parece preferir, respeitado e temido, mas muito pouco querido.

Matt Hughes VS Josh Koscheck

Koscheck é top 10 do meio médio e Hughes é um veterano em fim de carreira que não figura nem no TOP 12. O casamento dessa luta não só foi desnecessário como foi desrespeitoso. Qualquer análise breve do cartel recente dos dois mostrava que era um estorvo e deveria ter sido evitada.

Após a derrota para Thiago Alves em 2008, Matt já dava claros sinais de queda física, performance, competitividade e anunciou que deveria se aposentar. Não via mais motivo para competir não fosse para figurar entre os melhores. Apenas uma luta conseguiu mudar sua idéia, uma suposta última luta contra o pseudo arqui-rival Matt Serra. A possibilidade de vingança colocou fogo em seus olhos novamente. Os dois se arranharam numa luta monótona e sem brilho onde venceu um Serra gordinho e desmotivado em 3 rounds de trocação de baixíssima qualidade. Revigorado pela vitória e com sonho de reconquistar o querido cinturão que repousou com méritos em sua cintura por tantos anos, resolveu voltar a ativa. Venceu Renzo que pode ser mestre em jiu-jitsu, mas atleta de MMA não era mais, e Cachorrão num resultado tão surpreendente que deveria tê-lo feito negar a revanche contra Penn. Quem é azarão contra Cachorrão vai ser pulverizado pelo fenômeno BJ. Quem acha que não, pagará o preço pela ignorância com células nervosas e Matt pagou. Ao colidir com o primeiro lutador realmente de ponta nos últimos 2 anos acabou pulverizado. Sorte que não estava ventando em Michigan ou nem as cinzas do ex campeão iam sobrar para colocar no jarro. A aposentadoria merecida foi soterrada pelo casamento de mais uma luta, dessa vez conta Koscheck (antes era Diego Sanchez), simplesmente veloz demais, forte demais, resistente demais atualmente para ter alguma chance de sair sem o machucar.

Matt que tem o coração maior que o queixo e que o bom senso entrou para definir e acabou nocauteado sem dificuldades. Não tivesse abençoado pelo excesso de respeito do adversário, teria dormido antes. Acabou com a cara no chão e a bunda pra cima. Um lutador lendário que já superou tantas adversidades e venceu tantos grandes atletas, merece lutar mais uma, mais uma, mais uma e mais quantas vezes achar de deve. É problema dele. Mas quem admira o esporte não acha agradável ver esse nível de derrota. Espatifado, tirado pra nada. Matt foi um dos maiores e, por respeito a si próprio, deveria parar ou aceitar lutas mais equivalentes apenas contra veteranos. Uma revanche contra Royce é uma idéia que me agrada. O que não me faz a cabeça é a organização do UFC canibalizar estrelas antigas para alimentar as jovens.

Koscheck venceu, mas não provou nada. Teve até mais dificuldades do que deveria. Deixou claro que o rombo em sua guarda que GSP expôs com jabs e cruzados de esquerda ainda está ali para quem quiser usar. Um buraco incorrigível, um abismo técnico que nunca vai conseguir atravessar para disputar o cinturão novamente. Não é vencendo um veterano em decadência que vai prosseguir na carreira. Deveria ter seguido o exemplo de Rashad Evans quando negou a luta que lhe foi oferecida contra Randy Couture: “não tenho coragem de bater num homem de 40 e poucos anos e depois dizer que quero disputar o cinturão”.

Nate Diaz VS Takanori Gomi

É de se lamentar que Gomi não tenha se provado contra as estrelas do UFC quando estava em seu auge, quando era um dos lutadores vai vorazes e violentos do planeta, freqüentador assíduo dos TOPs P4P e estrela de alguns dos maiores combates já testemunhados no esporte. Gomi contra Kawajiri, Pulver, Azeredo, Nick Diaz e Sakurai são inesquecíveis. Contribuição eterna e incandescente do fireball kid para o hall da memória que cada um de nós guarda dentro de si. Momentos que ajudaram a construir e ajudam a manter esse esporte. Quando presenciamos Browne, Struve e outros no octagon, é a lembrança de momentos como os de Gomi que nos faz tolerar e sempre acreditar que coisas melhores virão.

Gomi era invulnerável, feito de alguma liga impenetrável vinda lá da ásia, não sentia dor, não se machucava por mais que fosse atingido. Não caía, quase não bambeava, partia pra cima e trucidava. Durante alguns anos nenhuma estrela ofuscava o brilho da sua. Uma presença que causava temor e expectativa. Foi tanto em tão pouco tempo e depois não foi mais. Acendeu e apagou em segundos. Um dos maiores por apenas uma fagulha de tempo.

O Gomi que finalmente chegou ao UFC anos atrás já estava desativado. Não me perguntem porque. Lutava igual, partia para definir igual, tinha o mesmo coração, mas alguma coisa não estava lá. O sangue havia estancado. Fora um brilhareco contra Tyson Griffin, suas performances eram melancólicas e culminaram com um fiasco nas mãos de Nate Diaz.

O sonho de ver uma versão vintage de Gomi não poderia ter melhor condutor do que Diaz. Um lutador sem poder de nocaute, franzino, prepotente na trocação e ávido por sempre testar se o oponente agüenta mais porrada que ele. Grama seca perfeita para Gomi incinerar e voltar ao lugar que achamos ser seu por direito. Mas o que vimos foi o japonês sem precisão, sem resistência, tentando derrubar um Diaz que bateu como quis, derrubou com jab e fez parecer fácil. Takanori fez demais pelo MMA, mas acabou. It’s over. Antes eu torcia por uma luta entre ele e Melvin Gullard, mas essa performance me fez ficar contente de nunca ter acontecido ou no UFC 135 poderia estar assistindo do Japão, de cadeira de rodas.

Nate continua irregular. Capaz de fazer uma luta parelha contra o poderoso Gray Maynard, ser manipulado tipo massa de bolo pelo inexperiente Rory MacDonald e superar Gomi no boxe. A falta de padrão em suas lutas é o que o mantém sempre distante do topo. Um lutador emocionante, querido e odiado na mesma medida, capaz de vencer os melhores e ser derrotado por qualquer outro. Trabalho não faltará para Nate que sempre aparece e faz o melhor que pode, mas seu melhor nem sempre é proporcional a expectativa que gera. Sua cabeça de vento e displicência com tática e treinamento sempre vão mantê-lo longe do tão sonhado cinturão. Se é que ele sonha com isso.

Mark Hunt VS Ben Rothwell e Travis Browne VS Rob Broughton

Duas lutas que juntas não valem por uma, tão ruins e desprezíveis da mesma maneira que não poderia ser misericordioso ao mencionar só a outra. Nem teria porque escrever sobre apenas um se o texto valeria para os dois. Gêmeos siameses, deformados, uma versão distorcida e errada do que amamos. Um erro por parte da organização e ainda maior da minha que assisti até o final.

MMA não é mais vale tudo e nunca foi briga de bar. A diferença de um esporte de ponta e de uma competição é o esporte é praticado por atletas profissionais. E não há atleta que leve sua carreira e os fãs a sério e carregue 50Kg de barriga. Pode ser guerreiro, brigador, orgulhar a mãe e o bairro onde nasceu, mas não é atleta. Vimos 4 transeuntes do esporte, 4 obesos se esfregando durante um total de meia hora apenas por grana. Sem paixão por MMA, sem ambição, sem técnica. Qualquer faixa azul de jiu-jitsu, qualquer menino que treine wrestling ou boxe durante 1 ano faz melhor do que eles. Habilidades mal passadas, falta de resistência, apatia, incapacidade de finalizar o combate. Conterrâneo e Mondragon fariam frente a qualquer um desses e Lula Molusco já despontaria como franco favorito.

Salvo alguns caroços de técnica de trocação que sobraram na panela de Hunt, nada mais havia para saborear. Poderiam ir todos juntos com Roy Nelson para aqueles programas de emagrecimento. O primeiro que descesse para meio pesado ganhava um contrato de volta. E os outros, talvez a dignidade.

Dois dos piores momentos da história do MMA, no mesmo dia, seguidos. Um caminho de Santiago de Compostela sem garrafa de água, a trilha de Machu Picchu sem parar para pegar ar, a escadaria da Penha de joelhos. Quem assistiu até o final, de ponta a ponta, pode tanto se considerar realmente fã como aceitar sofrer de certo masoquismo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ANÁLISE: UFC 134 - Anderson VS Okami


Se cortarmos o Banha só sobra filet mignon nesse UFC Rio. Tudo deu certo, quase como se os lutadores tivessem combinado antes com o destino. Minotauro apanhou, bambeou, assustou, mas acabou vencendo, Shogun foi pra cima de modo quase displicente, visceral, desmantelando o adversário e Anderson fez o impossível mais uma vez, expondo com precisão para a mídia brasileira o que sempre esperamos deles e porque amamos esse esporte, num show de gala frente a mais comovente platéia do MMA mundial. Emocionante e incompreensível para Milton Neves.

Nosso MMA está de volta, crescido, adulto, e nós o abraçamos como pai que acompanhava o filho de longe faz tantos anos, com tanta saudade. Nesse UFC 134 foi provado e transmitido finalmente pela TV aberta a verdade de que bem maior do que o esporte, mais incrível ainda do que os atletas, é como isso faz bem. No HSBC arena pulsou o coração gigante, feliz, milhares artérias bombearam energia que contagiou competidores e fez cafuné num país tão carente de eventos positivos e ídolos. Nosso coração foi ouvido uma vez e as veias da mídia já se expandiram, o fluxo aumentou, o batimento acelerou. Isso é MMA.

Minotauro VS Brendan Schaub

Razão é a coroa mais pesada que um homem pode carregar, mas vez em quando colocá-la de lado é a única maneira de enxergar com clareza. Minotauro não venceu Schaub se expondo demais, com esquiva ainda lenta, continuando por optar em ser boxer mais do que um mago na luta de solo, nem o lance derradeiro que colocou o adversário na lona foi idêntico ao lance que terminou bem diferente na sua luta contra Velasquez, muito menos empunhou as cores do Internacional quando todos ali eram Brasil. Nada disso aconteceu pra quem olhou da maneira correta esse momento que só pode ser observado em sua plenitude pelo coração. O que eu vi foi uma catarse, o quadragésimo nascimento de um ícone nacional, amarrotado, sangrando, colocando toda a carreira a mercê do acaso, dos detratores, do corpo pós lesão, só para lutar aqui, para nós. Em seu labirinto que todos já conhecemos de cor forjou uma vitória aflita, um berro ao pé do ouvido de um país que parecia não lhe dar atenção. Minotauro entrou ídolo do MMA e saiu ícone nacional.

Dentro do octagon não havia dois lutadores, não era apenas Schaub contra Minotauro, era um capítulo contra um épico, uma fagulha contra a eternidade, um menino contra um homem. E Minotauro levou socos diretos e não caiu. Brendan que não sabe apanhar, mas é excelente em bater, largou o braço e acertou bem, mas não derrubou. E ninguém derrubaria Minotauro naquela noite. E ele ia aturar cada impacto, engolir cada gota de sangue, apertar o protetor, nadar os olhos dentro da visão embaçada, ir pra frente e só parar quando vencesse. Porque é assim que fazem as lendas, aquelas de outra época já tão distante que parece outra dimensão. Os dois já estavam com a bolsa depositada no banco, mas só um lutava por algo mais, por paixão. E qualquer um que está nesse esporte apenas por grana vai cair frente aquele que luta com o coração e os colhões.

Schaub é um ex jogador de futebol americano que entrou nessa de MMA porque está na moda, porque paga bem, porque dá status. Minotauro só ainda está porque, como nós, ama demais tudo isso. E não achem que deveria ter sido essa a sua última luta para fechar a carreira com chave de ouro, porque atletas como ele, Fedor, Sakuraba, Liddell são pra sempre. Vitórias ou derrotas já se confundem no eterno. Há fãs limitados pelo resultado de uma luta, mas nenhuma luta limita uma lenda.

No UFC Rio Minotauro retornou a Creta.

Maurício Shogun VS Forrest Griffin

Quando olho para os grandes momentos de Shogun no Pride ou Meca, e comparo com o atleta que se tornou no UFC percebo que uma coisa sempre estava faltando. Uma característica que o fazia um dos atletas mais perigosos do planeta: selvageria. Shogun tirava ordem do caos. Lançava seus adversários num roda moinho, roda pião em alto frenesi de onde poucos saíram ilesos. Era quase displicente no uso de suas técnicas de trocação e solo afiadas. Para o observador menos atento Shogun era um brigador , quando na verdade estava mais para gênio louco.

Esse ímpeto foi contido quando iluminado pelos holofotes mais brilhantes do UFC. Desde sua derrota para Griffin até em seu melhor momento, nocauteando o invicto Lyoto, Maurício parecia ter perdido aquela voracidade de antes. Menos carvão, mais diamante. Havia sido promovida toda uma revolução em seu treinamento e aplicação tática. O caos deu lugar à ordem. Instinto à razão. Um atleta com fúria e violência contidos e distribuídos apenas na medida exata que vinha fazendo tudo certinho, até que Jon Jones apareceu e rasgou o bloquinho de notas. Tombou frente a um lutador caótico e eficaz, um aglomerado de táticas refinadas revestidas por um ímpeto vencedor e criativo. Um atleta que entrou pra lutar do modo mais agressivo e contundente que pudesse desde o primeiro segundo. Exatamente como o brasileiro costumava fazer. Uma derrota devastadora que poderia transformá-lo em pó, acabou por assoprar o pó de cima do velho Shogun, que estava encostado em algum canto na prateleira.

Um Maurício Shogun Rua limpo, sem incertezas, na vanguarda por aceitar que nem sempre revolução é uma evolução, de volta as raíz, à semente, eviscerou em segundos um dos lutadores mais resistentes do MMA. Fez o que faz de melhor, desligou os sentidos, acordou a roda viva, confiou no peso da mão, na precisão dos golpes, no queixo sem pudores, no coração, se lançou para dentro de Forrest e o partiu ao meio. Esse novo Shogun que teve que mudar para voltar a ser ele mesmo, é um dos lutadores mais perigosos do planeta hoje, porque era antigamente.

No UFC Rio Shogun finalmente fez sua estréia.

Anderson SIlva VS Yushin Okami

Para termos idéia um pouco mais próxima do inacreditável que Anderson Silva desfilou nesse UFC, precisamos antes entender quem é Yushin Okami. Dana White costuma construir ou destruir carreiras quando lhe bem convém. Dan Handerson estava “acabado” quando não quis renovar o contrato com o UFC e Hammil virou lutador TOP 10 quando precisou colocá-lo no main event do UFC 130. Mas as suas bravatas pró Okami são sinceras. Na verdade acabam parecendo jogo de marketing por conta dos anos em que Dana manteve o japonês escondido na gaveta para impedi-lo de vencer os TOPs no peso e ter que lutar pelo cinturão. Não era interessante um asiático, sem carisma, sem força nas vendas de pay per view (bad draw) e sem fãs nem em sua terra natal figurar um main event ou primetimes e countdowns. Okami se arrastou para o topo, na marra, sozinho, por entre lutas preliminares e adversários inexpressivos, chegando em seu auge e sedento de vingança ao UFC Rio.

Fato indivisível é que Okami, desde 2006, venceu 12 lutas e só perdeu 3. E as 3 para lutadores TOP 10 e ex campeões na época (Shields, Sonnen e Franklyn) em derrotas extremamente controversas e na decisão dos jurados. Nas minhas contagens Okami venceu Franklyn e empatou com Sonnen. Tivesse um pouco mais de sorte ou carinho por parte dos árbitros laterais, estaria invicto desde 2006 e White não precisaria nem fazer propaganda.

Okami não é dos atletas mais talentosos, mas tem queixo de concreto, muito tamanho para seu peso, grande alcance, bom wrestling e muita virilidade. Do primeiro ao último round sua performance, foco e força não parecem diminuir. Distribui ataques e pressão de modo industrial, sem hesitação, do começo ao fim de qualquer combate. Esse foi o Okami tombado com jabs da guarda baixa, por Anderson, e subjugado como amador.

Nem em treino um professor de boxe ou muay-thai consegue abaixar a guarda e permitir ser atacado por um aluno do mesmo peso e moderadamente graduado. Ou, para quem já presenciou essas demonstrações de esquiva e confiança de algum mestre, como eu já, no mínimo é um aula de desvios, evasão. Nunca vem acoplados de golpes decisivos. Simplesmente porque com a guarda baixa não há velocidade para esquivar, acelerar o movimento e conseguir torção de tronco o suficiente para atingir o adversário com precisão e contundência. Isso vale para qualquer ser vivo, menos Anderson Silva.

Da mesma maneira que para uma luta contra Jon Jones ter real graça e ser competitiva ele deveria entrar no ringue contra dois ao mesmo tempo, Anderson poderia começar a lutar com um braço amarrado nas costas para os adversários terem alguma chance real. Claro que no manjado filhote de pensamento de que em MMA tudo acontece, até Sonnen poderia finalizar Toquinho com um triângulo, quem sabe? Mas na vida real, no esporte tecnicamente analisado e levado a sério, Anderson está num nível fora da compreensão até para ele mesmo. E com o manguito rotador lesionado, Anderson venceu um dos maiores lutadores do peso com um braço só, com jabs cruzados. Nem jab sólido da base estática, nem jab de encontro, mas jabs de direita se esquivando para o mesmo lado. Enquanto a cinética se apóia em vários livros para explicar porque esse movimento não pode carregar real força, ele torce as leis da física e o maxilar de Okami.

Anderson já deixou de ser apenas o melhor lutador de todos os tempos para ser um dos maiores faz tempo e sua carreira está no grandioso ato final. Se por justiça dos homens Sonnen, Stann ou Belfort depois de mais uma boa vitória mereceriam desafiá-lo novamente, pela justiça astral ele deveria lutar contra GSP, Jon Jones, Velasquez, Fedor. O que ele tinha que fazer pelo esporte, já foi feito. Agora poderia se dar ao luxo, e a nós o prazer, de fazer mais do que lutar por cinturões, por esses meros pedaços de ouro com diamante, ele lutar pela imortalidade em combates de lendas contra lendas onde títulos não tem nenhum valor.

Sua técnica chegou ao nível de arte, como estão as comidas de Eliot Graham, os dribles de Garrincha, as esculturas de Rodin, pinturas de Diego Velazquez ou as coleções do finado Alexander McQueen. Ele é maior do que o corpo. O que tem dentro não dá para ver por fora, é difícil até dele se explicar, por isso às vezes parece metido, prepotente ou bobo. Simplesmente vai e faz, por isso Chael Sonnen, que só fala, o odeia. Se estudiosos, pessoas com alto QI, técnicos experientes, lutadores, poetas, tem dificuldade para colocar em palavras seu talento, imagine ele, pessoa simples que só nasceu com super poderes. Anderson Silva apenas é, foi mais uma vez nesse UFC e será contra qualquer um até o fim de sua carreira.

No UFC Rio Anderson jogou o sushi de Okami no chão e esmagou como se fosse o olho da Black Mamba no Kill Bill.

ÚLTIMOS ROUNDS:

1) Edson Barbosa e Erick Silva estarão entre os lutadores mais importantes do peso e flertando com o cinturão em menos de dois anos. Mesmo num esporte em tão rápida evolução são poucos os lutadores que alcançam esse amálgama de violência objetiva, técnica e raça.

2) Banha nunca esteve tão bem fisicamente, mas foi mais contaminado do que contagiado pela torcida. Mais eufórico do que motivado, se expôs e levou vários mata cobras cegos e sem qualidade de seu adversário até que um, obviamente, acabou pegando, justamente quando estava prestes a nocautear. Banha saiu correndo e só lembrou no meio do caminho que não podia pular pra fora da grade. Acabou nocauteado por um atleta muito inferior que ele venceria 9 vezes em 10. Ainda tomou vários socos já em estado de inconsciência por negligência do excelente Mario Yamazaki, que também sentiu o peso da torcida. Lutar com a torcida apoiando é que nem bebida, tem que apreciar com moderação.

3) Johnny Eduardo é muito melhor do que vimos contra Raphael, mas talvez tenha alcançado seu sonho de lutar pelo YFC um pouco tarde demais. Temos um reloginho em nossa mente que marca a hora de alcançarmos objetivos. Chegar muito antes ou muito depois costuma trazer conseqüências desagradáveis. Torço para que Dana lhe dê mais uma chance. Seu dinamismo e velocidade ainda podem render excelentes lutas.

4) A entrada de Paulo Thiago que detonou milhares de vozes cantando a música do filme Tropa de Elite e frases de apoio ao BOPE, foi uma manifestação poderosa e sincera de apoio à polícia eficaz, paz, segurança e ordem.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ANÁLISE: UFC 133 - Rashad VS Tito


Esse UFC 133 foi o mais previsível que um bom evento de MMA pode ser. E se é verdade que não houve grande surpresa, também é fato que quando MMA se desenvolve como esperamos é, no mínimo, um bom sinal. Excelentes performances dos favoritos que não lhes rendeu mais do que vitória no cartel, porque a progressão de suas carreiras já estava sedimentada em concreto por Dana White. Em caso de vitórias, Rashad disputaria o cinturão do meio pesado, Belfort não teria sua revanche contra Anderson, Ebersole não se credenciaria como TOP contender do meio médio e McDonald continuaria a uns 2 anos de distância de ser considerado postulante ao título. Mesmo assim, com futuros já decididos em caso de bom resultado, os quatro tiveram suas melhores performances nos últimos anos num evento mais justo do que emocionante.

Rashad Evans VS Tito Ortiz

Rampage, Thiago Silva, Forrest Griffin, Chuck Liddell, Michael Bisping e Stephan Bonnar eram todos considerados TOP 10 do peso quando foram vencidos por Rashad, que além de ser ex-campeão meio pesado, também venceu o TUF que catapulta quase instantaneamente qualquer lutador ao status de estrela do MMA. Mesmo assim o americano é vaiado sempre que entra no octagon. Na verdade é vaiado até em pesagens e coletivas de imprensa. Contrariando a desinformação por parte da imprensa nacional de que lutadores brasileiros são hostilizados no exterior, Rashad foi vaiado quando ainda era detentor do cinturão em sua luta contra Lyoto Machida. Evans pode ser eleito presidente que vai ser vaiado na Casa Branca, mas a altura dos decibéis de seus detratores não abafa a realidade de que é um dos maiores lutadores da atualidade.

MMA é tão show que constantemente esquecemos de ver beleza na performance estritamente física e tática. Luta após luta Evans dá exemplos de evolução em preparação física, estratégia e objetividade. Da mesma maneira que meio milhão de dólares do valor de qualquer quadro de Basquiat está sem sua trajetória de vida e condições aonde o pintou, e a outra metade na arte que vemos na tela, Rashad só é admirado se for valorizado por completo. No dia da luta é cansativo de assistir. Insiste demais no que dá certo e transforma o combate numa seqüência de tentativas e acertos aonde sobra eficácia e falta emoção. Mas Rashad é especial por tudo que sempre envolveu sua carreira, de dramas pessoais até a transformação de um peso pesado parrudo e sem resistência aeróbica, em um meio pesado veloz e com o melhor condicionamento da categoria.

Esse Rashad reinventado pelo desejo de vingança contra seu ex treinador Greg Jackson e seu ex companheiro de treinos, atual campeão e projeto de lenda viva , Jon Jones, dois que acusa de terem o traído, talvez tenham colocado mais sangue nos vasos de seus globos oculares do que Tito Ortiz estava preparado para suportar. Verdade que Tito aceitou a luta apenas um mês após vencer o TOP 10 Ryan Bader muito mais por motivos financeiros e por ter lhe sido prometido que em caso de derrota não o cortariam do evento, do que real desejo ou presunção de vencer. Ortiz entrou com o espírito dos atletas das antigas, foi para encarar mesmo, o show não pode parar. Foi linda sua vitória mês passado e foi comovente seu esforço. Acredito que lá no fundo de seu ego tinha um filhote de sonho de vencer e desafiar o campeão, mas a realidade em MMA é violenta e mastiga ilusões. Nem o coração enorme que sempre teve foi suficiente para amortecer tipo air bag a joelhada que Rashad encravou em seu tórax. Tito tombou e a coragem que restava vazou pelo furo no peito, tipo embarcação com convés rachado.

Tito perdeu, mas foi aplaudido antes e depois da luta. Vai curtir as férias, seus filhos e voltar na corda bamba mais uma vez. Diferente de Joe Stevenson que só foi cortado depois da quarta derrota seguida, Ortiz vai estar sempre a uma derrota de ter sua carreira terminada. É assim mesmo, faz parte das regras do jogo. Parte culpa nossa que nos desinteressamos muito rapidamente por determinados lutadores, parte de Dana que está construindo um monopólio aonde fora do UFC não há mais grandes bolsas para mega estrelas, parte culpa desse esporte mesmo, onde épicos e tragédias caminham juntas.

Rashad venceu sem vibrar. Se preparar para encarar o puro sangue Phill Davis e pegar Ortiz é como acordar para ir a escola num sábado e lembrar que não tem aula. Estávamos até preparados para ir, mas é tão gostoso poder voltar a dormir. Rashad quer o cinturão e vai ter que passar por dois arqui rivais para consegui-lo. Ou uma revanche contra o nêmeses Rampage, ou o clássico ainda não escrito contra Jones. Venha quem vier ele tem que estar preparado para mais vaias. Depois de vencer os queridos do público Chuck e Forrest e o querido vintage, Ortiz, uma vitória sobre um dos dois mais populares não vai adicionar pontos ao seu carisma.

Vitor Belfort VS Yoshihiro Akiyama

O debate sobre quais são os melhores lutadores, quem merece ser chamado de lenda ou não vai se desenrolar para sempre. Não há consenso em temas que envolvem paixão e opinião. Mas é fato que Vitor Belfort é um dos maiores porta vozes do MMA. Sempre com um papo direto oferecendo aos fãs respostas objetivas, um cara cordial no dia a dia, junto a sua família tanto fisicamente quanto em discurso. Belfort inspira idéias positivas de saúde, luta por ideais e etc. Independente de qual religião que sigamos, torcendo contra ou a favor, ele é um ícone positivo do esporte. Belfort entrou extremamente preparado contra Akiyama e se lutassem 10 vezes, o brasileiro venceria 11, mas o golpe que selou sua vitória foi ilegal.

Claramente um atleta com a explosão, velocidade e força destrutiva de Belfort não precisa nem tem a intenção de desferir golpes não permitidos para se sagrar vencedor. Não precisa tecnicamente desse recurso e não aplicaria propositalmente por questões morais. Belfort não tentou trapacear, como parte da imprensa afirma, mas ele aplicou sim um diretaço ilegal na nuca do adversário praticamente inconsciente e sem defesa. A culpa, no entanto, não é do atleta e sim do juiz.

Belfort alega que Akiyama já estava praticamente apagado quando acerou o golpe ilegal sem intenção. Concordo, mas a luta só é dada por terminada quando o juiz interfere. Seja verbalmente, seja em movimento. Se o adversário está caído com a cara no chão, mas o juiz não faz nenhuma menção de parar a luta é porque, para ele, ainda está valendo e considera o atleta em condições de reagir e está dando alguns segundos de tolerância. Se nesse micro milésimo de segundo um golpe ilegal é desferido, a luta tem que ser parada, o atingido levado para avaliação médica e dado 5 minutos para recuperação. Caso não tenha condições lhe é concedida vitória por desclassificação. Essa seria a regra interpretada sem gorduras. Apenas depois que Belfort dispara o direto na nuca é que o juiz dá um passo em sua direção para terminá-la. Belfort ainda atinge um segundo golpe, mas aí sim, depois do fim. O ponto decisivo é que o juiz foi levado a tomar a decisão de interferir após o golpe ilegal. Não após a saraivada de socos, não após Akiyama cair com o rosto no chão. Mas sim após o golpe na nuca. Portanto ele deu o combate por finalizado após um golpe ilegal. Por menos que isso Charles DoBronx teve sua vitória contra Nik Lentz Anulada.

Juiz de MMA é como bandeirinha em futebol. Uma questão de timing difere a interrupção perfeita que protege o atleta, de um gol irregular por 1 centímetro de impedimento. È assim mesmo. Belfort fez o que tinha que fazer. No frenesi do combate, quando a criatura está solta, enquanto o juiz não puxar a coleira quase nenhum atleta para. Ainda mais num momento decisivo da carreira. Diferente de Dan Handerson que claramente queria assassinar Bisping, Vitor apenas continuou atacando. O que me intriga é porque a luta não foi parada quando o japonês caiu de rosto no chão e com um braço reto para traz, claramente fora de combate.

Belfort preparado é quase imbatível e é assim que vem se apresentando desde que resolveu baixar do meio pesado. Rápido demais, consciente e naturalmente talentoso demais para quase qualquer adversário. A chance de Akiyama já nasceu morta no dia que assinou o contrato. Nem golpe de sorte poderia dar a vitória para o asiático que acabou por ir ao chão após dos potentes socos que só atingiram o ar e a parafina de seu cabelo. Ou talvez tenha sido atingido pelo mais poderoso dos golpes, o medo. Um golpe invisível e preciso que o colocou a se arrepender de ter entrado no octagon depois de não agüentar nem Bisping ou Leben, para enfrentar Belfort. Levando em conta o desnível de preparo, força e tantas outras coisas temperadas com lambança de juiz, tem sorte de estar caminhando em linha reta atualmente.

Dana White disse que tentou convencer Akiyama a descer de peso, sem sucesso. Não há mais espaço para lutadores parrudos em MMA de alto nível, fora do peso pesado, e talvez nem o público nipônico que a Zuffa quer tanto seduzir seja suficiente para mantê-lo na organização.

Se tem alguém no peso que eu realmente gostaria de ver contra Anderson é Vitor. Apesar de derrotado rapidamente é verdade que ninguém impõe tantos reais problemas para o campeão. Uma vitória de Stann sobre Sonnen talvez o creditasse como desafiante mais justo, mas desde quando o casamento de lutas em MMA se dá por justiça de cartel? Vantagens e desvantagens de ser um esporte/show. Pelo show, Belfort seria o melhor adversário, imagino a batalha verbal sincera que seria reativada como ogivas nucleares que estavam apenas escondidas. Emocionante. Não dá para casar muitas outras lutas com tanto talento real de ambas as partes. Mas Dana declarou que essa não ocorrerá agora. São reais as chances de Dan Handerson assinar com o UFC e ter sua revanche imediata com Anderson, ou se a luta pelo cinturão foi mesmo para o vencedor de Stann/Sonnen, talvez sobre até um Handerson VS Belfort. O peso médio que tantos diziam ser fraco, hoje em dia pode não ser o mais técnico, mas é um dos de maior apelo emocional.

Belfort venceu com soco na nuca, mas venceria de qualquer outra maneira. Um lutador fantástico e devastador que deveria tirar da cabeça essa obsessão da revanche e entender que seu legado e importância para o esporte vão muito além de vencer ou não Anderson Silva.

Brian Ebersole VS Dennis Hallman

Brian Ebersole é um veterano do esporte mesmo sendo mais novo que Rashad Evans. Com mais de 60 lutas, 15 sendo realizadas no mesmo ano de 2002, seu corpo já pagou o preço. Se Juba e Lula são vovôs garotos, Ebersole é garoto vovô. Uma criança que presencie guerras, tragédias ou dramas familiares cresce cicatrizada, se desenvolve de maneira diferente das outras. Um atleta com essa quantidade de lutas, mesmo ainda novo, tem dificuldade em manter performance de alto nível contra outros de sua idade com apenas 10 combates. Experiência não é de muita utilidade contra lutadores tecnicamente equivalentes e muito mais fortes, velozes e com menos contusões.
Após a luta declarou que tem mais uma no contrato e gostaria que fosse contra outro veterano. Matt Hughes seria seu sonho. Depois, se o UFC tivesse interesse em mantê-lo no card ele toparia uma corrida pelo cinturão pegando os TOPs da categoria. Interessante e comedida postura, mas Ebersole com o ground and Pound mais visceral dos últimos anos, excelentes defesas de finalização, tamanho e boa trocação poderia fazer luta dura contra qualquer atleta do peso.

Dar cotoveladas é uma arte. Tanto em pé quanto no chão. É difícil aplicar real força, difícil achar a distância, muitos relutam em usar o golpe por medo de danificarem as próprias articulações do cotovelo. È um golpe decisivo, uma brecha no sistema do UFC, uma concessão a velha regra que é mantida sem motivo aparente e questionada por muitos, mas da qual Hughes, Couture, Jones e outros campeões fizeram bom uso. Posso afirmar que Ebersole ensinaria uma coisa ou duas sobre como aplicar cotoveladas a qualquer um destes. Violência é mais perigosa quando embrulhada em calma, e Brian despedaçou Hallman com a tranqüilidade de quem come um petit gateau.

O futuro de Ebersole já foi decidido por ele e Dana. Não há muito o que especular. Vai pegar outro veterano e ano que vem, talvez, comece a encarar lutadores no seu real nível. E sobre Hallman, que entrou, apanhou, fez escracho de um esporte que ainda luta para conseguir o respeito que merece e sua sunga de go-go-boy, deixo aqui linhas em branco como meu protesto silencioso. Não sei o que será de sua carreira, não me importo e, convenhamos, nem ele parece se importar.

Rory MacDonald VS Mike Pyle

Costumo achar cômica a mudança de apelido que alguns lutadores promovem tentando revigorar sua carreira ou mudar a imagem frente ao público. O caso mais clássico foi Tim Sylvia ter passado de “grizzly bear” (urso pardo) para “Maine-iac” ( um trocadilho com a palavra maníaco e o estado de Maine). Mudança que não veio acoplada a nova postura dentro ou fora do octagon, nem lhe atraiu novos fãs. Na verdade, junto com Rashad, é um dos lutadores mais desprezados de todos os tempos. Mas a mudança de “waterboy”, para “Ares” realmente pode ser vista nas performances de Rory MacDonald.

Quando ainda estava sobre o manto da psique do waterboy, Rory era como o personagem do filme de Adam Sandler a quem fazia alusão. Um talento relutante, Dom Périgon num copo de plástico. Um lutador extremamente talentoso que se escondia atrás de uma postura de aprendiz, espinhas na cara e cabeça baixa. Relutância que lhe rendeu a única derrota a 7 segundos do final do último round pelas mãos do incansável Carlos Condit. Verdade que Rory foi melhor a luta toda, verdade que fraturou o maxilar de Condit, verdade que superou um dos veteranos mais talentosos do MMA em quase todos os aspectos, verdade que o juiz poderia ter esperado mais 7 segundo até o fim do round e deixar os árbitros laterais lhe entregarem a justa vitória. Mas ele estava levando golpes limpos na cara, sem tentar reagir muito mais por letargia, por estar numa quina psicológica, tipo criança gordinha que tira a camisa na frente da menina que está afim, do que por não ter forças para reagir. Perdeu de olhos abertos, ainda em condições de lutar, um vitória que já estava sendo digitada no Sherdog. O bully roubou sua lancheira.

No próximo combate ele já era Ares, o deus da guerra. Cabeça erguida, olhar agressivo, o mesmo peso com muito mais músculos, preparação física e técnica levada ao nível que ele pode alcançar. Manipulou e despedaçou Nate Diaz tipo massa de bolo e fez o experiente e perigoso Mike Pyle parecer amador. Rory vai ser um dos melhores lutadores peso a peso em uns 2 anos, e se continuar se alimentando de vitórias sobre excelentes adversários, talvez até antes.
Pyle, que vinha de vitória sobre Cachorrão e Hathaway ainda vai dar trabalho a alguns lutadores jovens no evento em que ainda deve lutar por muito tempo. A mistura de experiência, fama, espírito guerreiro de quem aceita luta até uma semana antes e bolsa bem abaixo do padrão estelar que os melhores cobram, agrada muito ao paladar do patrão Dana White.

Quem quiser entrar em contato pode me procurar no Facebook e twitter.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ANÁLISE: UFC 132 - Cruz VS Faber


Ao fim de uma partida de futebol temos dois tipos de torcedor, o triste e o feliz. Essa simplicidade binária não acontece no MMA, esse esporte nos entope coração a baixo tristeza e alegria juntas, e que se dane. Glória e decepção, aplausos e vaias, ao mesmo tempo, aqui dentro de nós. É essa sensação complicada de descrever que o faz único. Grandes eventos são como mini epopéias, com heróis, vilões, fins e recomeços. Se quiséssemos mostrar para alguém que estava morando em Marte nos últimos 20 anos porque esse é o maior esporte já inventado, poderíamos selecionar vários eventos inesquecíveis e esse UFC 132 é um deles.

Dominick Cruz VS Urijah Faber

Faber foi um dos maiores atletas do mundo, independente de esporte. Rolou ladeira abaixo do peso pena esmagando quase todos que tentavam parar o giro de sua massa sólida de socos, quedas, voracidade e gametas masculinos, até que se espatifou em mil pedaços contra a canela de titânio de José Aldo. O superstar brasileiro mostrou que Faber tinha se tornado obsoleto e prepotente, dominava o peso que ainda carecia de um campeão genuíno, e não seria o californiano.

Faber rompeu a cápsula de isolamento aonde boiou durante os últimos anos e reinventou seu treino e corpo para o peso galo. Misteriosamente manteve força e ganhou velocidade. Na guerra por supremacia eterna entre lógica e sentimento que já estourou tantos morteiros dentro dele e arrasou tanto adversários quanto o próprio, o cérebro agora foi promovido a general. O coração veste a armadura e encara o que vier, mas não dá mais comandos. Faber entrou contra Cruz em seu melhor momento. Anteviu movimentos improváveis e por vezes foi mais rápido que a velocidade do som. Fez seu máximo e foi emocionante, mas apenas o suficiente para dar trabalho ao incompreensível Dominick Cruz.

Forço a memória e não lembro de ter assistido nenhuma luta ruim no peso galo. Atletas completos, bons em pé, por baixo, em quedas. Parece que todo mundo é mestre em tudo. Num peso aonde os competidores não tem como ser mais completos e cada vitória vem ao custo de muito suor, sangue ou a pontinha de um nariz na foto da linha de chegada, Cruz parece acabar a corrida antes do cérebro dos outros assimilar que o tímpano vibrou por conta do tiro de largada.

Cruz não se move como um humano normal. De terno em coletivas de imprensa, até nos engana, mas dentro do octagon, quando o instinto de sobrevivência é ativado o disfarce fica mais evidente. Atletas normais caminham, Cruz cai, cambaleia, dá passo atrás, inclina pra frente, pula e dá um soco que eu poderia jurar ser uma tentativa de queda. Quanto mais o adversário estuda as fitas de suas lutas e seus movimentos mais complicado fica, luta após luta, mais e mais variações, combinações improváveis, movimentos híbridos sem um contra ataque específico em nenhuma arte inventada desde a pré história. Cruz é a gaveta feita pra não abrir, pedra que voa, água que não molha. Ilógico e indecifrável. Se não fosse campeão seria apenas um excêntrico, mas sendo imbatível, é genial.

Luta muito parelha de um homem que forjou sua carreira com esforço, perseverança, trabalho e soldou com paixão, contra um inumano que, aparentemente sem esforço e com sorriso nos lábios, é naturalmente melhor que todos os outros.

Wanderlei Silva VS Chris Leben

Wanderlei vinha bradando o que faria quando encarasse Sonnen ou Belfort uma semana antes da luta contra Leben. Subestimar um adversário normalmente é conta paga em pedaços de dente e Wand pagou a sua em células nervosas, porque ninguém é impactado pelas luvas cheia de concreto do havaiano sem sofrer moderado dano cerebral.

Wanderlei está longe de seu auge, só quem começou a assistir MMA 5 anos atrás não sabe disso, mas parte da imprensa especializada afirmar que ele vem sendo sucessivamente nocauteado. Simplesmente não é verdade. Nos últimos 4 anos foi nocauteado 3 vezes. Por Dan Handerson, atual campeão do Strikeforce, ainda no auge em 2007, por Quinton Jackson em 2008, atual contender número 1 ao cinturão do peso mais disputado do UFC, e agora por Leben. Nesse ínterim protagonizou umas das lutas do século contra Chuck, perdeu numa decisão polêmica para o ainda excelente Franklyn e venceu Bisping e Jardine. Wanderlei já não é mais o mesmo, mas imprensa e fãs poderiam esperar um pouco antes de o empalharem e colocarem na prateleira.

Não afirmo que ele dará a volta por cima e essas tralhas despretensiosas de auto ajuda. Sua mente não é mais a mesma, seu instinto de trucidar não é mais o mesmo e, principalmente, seu corpo não é mais o mesmo. Francamente acho que merece optar por parar ou lutar mais uma vez e receber nossos aplausos, por tudo que já fez pelo esporte, em qualquer situação. Não sei contra quem deveria lutar, se optasse por isso. Um dos maiores deve cair contra os maiores, e quanto mais jovem e talentoso seu adversário menor a chance de uma gloriosa volta por cima. Um dilema que ele terá que resolver sozinho no tatame da academia, no treino, porque se a decisão for tomada num jantar cordial de família, o resultado no octagon vai ser o mesmo de hoje.

A clareza e sinceridade com que Leben encara seu papel coadjuvante no grande show do MMA o faz um personagem muito interessante. Só o que ele tem é um soco forte e uma cabeça bem dura, mas como MacGayver que transformava cabo de aço e chiclete em dinamite, Leben manufatura lutas altamente competitivas.

Luta rápida entre um atleta que ainda tem queixo para agüentar porradas e agüentou, e um que não pode levar mais nenhuma e levou. Só não vamos fatiar a realidade e achar que nunca foi realmente bom já que perdeu pra Leben. O americano fez bem o que foi pago para fazer, mas seria depenado e destroçado feito uma codorna por Wanderlei Silva no auge.

Tito Ortiz VS Ryan Bader

Eu não torço por atletas em específico, torço por boas lutas e confesso que queria ver Ortiz vencer essa. Não por ele, mas por mim. Ortiz é pedaço do que me fez amar MMA, como são Hughes, Minotauro, Wanderlei, Sakuraba, Fedor e etc. Peça que não pode faltar para o mistério ser desvendado. Quando jovem sempre torcia para ele perder, era o vilão dos combates, o bad boy, mas há um certo carinho por esses personagens em grandes histórias. Darth Vader, Coringa, Lex Luthor. Não haveria grandes heróis sem grandes vilões e Tito foi um dos primeiros antagonistas. O tempo passou, o esporte evoluiu em preparação física, mídia e etc. Os novos fãs trazem um desejo sedento por mais e mais lutas e canibalizam o passado para criar lendas instantâneas. Quando Cro Cop perde para Kongo, Fedor perde para Werdum, Minotauro perde para Mir, Wanderlei perde para Leben, tanta gente aponta o dedo como que descobrindo uma fraude nos livros de história. Uma lógica distorcida e ingrata que desmorona toda a beleza do nosso esporte com cuteladas de ignorância. Se Cro Cop perde para o limitado Kongo, então não foi nada demais a vitória por arm lock de Minotauro sobre o croata no Pride, coberto por aplausos de quase 100 mil pessoas? É uma teoria caótica de canibalização de mérito que deveria parar pelo bem de todos, mas parece estar na moda. Cro Cop, durante o período em que esteve no auge, foi o maior striker peso pesado que já andou pela terra, Minotauro foi o maior lutador de jiu-jitsu peso pesado que MMA já produziu e assim por diante. Ortiz não foi o maior em nada e ainda está decadente, mesmo assim foi mais do que suficiente para derrotar o TOP 10 moderno Ryan Bader.

Dana queria cortar Ortiz após sua derrota para Hamill alegando que não teria mais nível para competir com os melhores. Tito implorou por uma chance e encararia qualquer top do peso. Poderia ser sua última luta, o portão de desembarque estava logo ali, mas esses caras das antigas, esses que fazem parte da criação desse tal MMA, são feitos de outro material. Foram cunhados numa época mais violenta, menos asséptica. Não havia a mídia de hoje para nos convencer que um lutador é bom ou ruim, ou ganhava e seguia em frente ou era esquecido. Era uma terra cruel na qual caminharam os maiores. Tito optou pelo tudo ou nada, pelo êxtase máximo de superar todos os limites ou a cara na lona. Teve a coragem que Couture teve, que Fedor está tendo. Meio coragem, meio loucura, meio cara de pau. Quem sabe. A questão é que nesse UFC 132 Ortiz lutou pelo MMA clássico, sua vitória significou tanto pra ele e tão mais para o fã antigo. Bader é um dos melhores do mundo, não venham os chatos dizerem o oposto, e mesmo assim Tito o venceu. Poderia se aposentar agora, rico, dando entrevistas debochadas e acarinhado por aplausos e manto da glória. Mas não irá, como Couture não pararia se vencesse, como Wanderlei não quer parar e como Chuck só parou porque foi forçado. A maioria se aposentará com derrotas, só parará quando o corpo ruir, lendas não tem bom senso. Se tivessem, não as seriam. Devemos ter um certo carinho quando caírem mais uma vez, um respeito por ainda tentarem fazer o que faziam tão bem e gostávamos, por lutarem apenas por paixão aonde tantos lutam apenas por grana. E quando vencerem, aplaudir. Como eu aplaudi essa vitória de Tito Ortiz como nunca o havia aplaudido. Seu último ato foi o maior, no final o vilão salvou o filho e tirou a máscara. Uma gota de colírio para quem vem assistindo o esporte de óculos escuros. O MMA venceu Ryan Bader nesse UFC 132.

Melvin Guillard VS Shane Roller

Os lutadores do peso leve deveriam se esconder nas trincheiras porque as mãos de Guillard estão zunindo em todas as direções. Um jovem lutador com experiência de veterano, Melvin poderia ter se entregue ao roteiro óbvio que a vida parecia ter lhe reservado. Menino pobre, problemas com bandidagem, prisões, drogas, família, chances e mais chances desperdiçadas. Quantas histórias assim começam e acabam todo dia e não são dignas de nenhuma tirinha de jornal de bairro. Quantos Tysons, Jordans, Andersons, Pelés acabaram na marginalidade por simples falta de perseverança? É verdade que alguns tem caminhos mais fáceis que outros, grande mentira é de que todos somos iguais. Para alguns a vida é mais fácil, fato, a questão é o que fazer com a sua se for difícil.

Guillard largou esse passado pra lá e se agarrou em um dos fiapos de oportunidade que ondulavam por perto, talvez o último, e se internou na academia de Greg Jackson. Lá, em segredo, foram maquinando, redesenhando peça por peça, projetando o design capaz de encaixar o máximo de bombas, dinamites, scuds, teleguiados, granadas e outras armas de destruição em seus dois braços de 39 cm de circunferência por 5% de gordura. Dois dos equipamentos com mais capacidade de devastação acoplados a um lutador sofrido, sedento, violento e que sabe bem como operá-los.

Guillard ainda vai fazer muito mais do que já fez e Shane Roller vai continuar funcionando como bateria para boas lutas com sua entrega total ao combate, mas lhe faltará sempre o talento que separa os relevantes dos secundários.

Carlos Condit VS Dong Hyun Kim

Tantos grandes lutadores rapidamente começam a respingar derrotas em seu cartel e tantos outros medianos se mantém durante tanto tempo sem derrotas. Kim está longe de ser um mal lutador, porém mais distante ainda de ser o excelente atleta que seu cartel impecável denota. Condit carimbou com o joelho no meio da cara do koreano um ponto final nessa história cheia de meias verdades.

Condit estaria invicto desde 2006 com 13 vitórias seguidas não fosse a derrota extremamente controversa para Kampmann, que adora esquecer dessa luta quando faz discurso sobre ser sempre prejudicado pela arbitragem. Condit é um dos lutadores mais completos e empolgantes do planeta, ficou órfão de notoriedade quando a categoria aonde barbarizava foi extinta do antigo WEC. Um legítimo desafiante ao título que a máquina do UFC esqueceu de divulgar. Tantas bijuterias em caixa de jóia e as lutas de Condit passando despercebidas como diamante em saco de supermercado.

Kim fará algumas lutas duras no UFC mas acabará por ser cortado por falta de carisma e vitórias sobre adversários relevantes. Condit deverá dar trabalho para o vencedor de Pierre e Diaz.

Rafael dos Anjos VS Georges Sotiropoulos

Independente do vencedor não é um bom sinal quando dois dos maiores lutadores de chão do MMA transformam o que era para ser um épico na lona, numa competição de kickboxe. Dois mestres de jiu-jitsu partindo para a trocação até que “bingo”, um caiu e o outro venceu. Vitória do brasileiro, mas se fosse o oposto, ninguém reclamaria. Também, reclamar do que? Parece que lutadores de solo quando se encaram tentam fazer lutas ao redor dessa técnica, lembrem de Maia e Grove, Minotauro e Mir. Quase que se uma derrota em sua especialidade traumatizasse de tal maneira a progressão de carreira e marketing pessoal que optam por se encarar em campo neutro. Os dois com menos qualidade, menos chances reais de vencer por técnica aplicada com perfeição, mas uma paz armada num resultado estéril.

Rafael venceu, mas não subiu muito e Sotiropoulos perdeu e não caiu quase nada. Agora é torcer para os dois se encararem em Abu Dabi.

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CRÔNICA 14 - HISTÓRIA DE UMA LUVA (publicada na revista tatame 183)


Eu nasci apenas couro, como tantas outras, um pedaço meio sem cor, um mero material esperando ser alguma coisa. A maioria virou banco, sapato, chapéu e outros aparatos tão sem importância. Eu não. Eu virei luva. Não uma luva gorda de boxe, mas uma luva de MMA. Preta, lustrosa, aerodinâmica e com costuras reforçadas. Eu e meu par, junto com tantas outras esperamos nosso destino, penduradas e embaladas na fábrica. Sabíamos que seríamos especiais. É da nossa natureza estar presente em grandes momentos. Mal podíamos agüentar a ansiedade de ganhar o selo. Nosso nome. Alguns dias depois nós e algumas outras entramos numa prensa e fomos finalmente batizadas com o nome de UFC.

Foram meses num armário gigante separadas por tamanhos. As posicionadas na minha frente iam saindo, estava chegando a nossa hora. Mês que vem talvez. Nunca ficamos sabendo que fim tem aquelas que saem do armário, sabemos para onde elas vão, mas e depois? Me bateu esse medo quando éramos a próxima da fila. Estávamos sempre aqui, no escuro. Talvez fosse melhor termos sido feitas luva de motoqueiro, dizem que motoqueiros nunca trocam suas luvas mesmo depois de bem velhas. Mas em MMA? Estava aflita e com um incômodo nas dobras da costura, uma certa aflição nas micro ranhuras aonde a tinta impermeável nunca conseguia penetrar, até que a porta do armário abriu e nos pegaram.

Fomos desembaladas sem frescura num vestiário vazio. Reparei nuns tatames de encaixe no chão, aparadores, garrafas de água e a TV ligada na primeira luta preliminar quando um pessoal entrou. Eram varias pessoas falando coisas motivantes e eufóricas. Pareciam uma família ou amigos. No ombro de um deles um cinturão. Não acreditei. Eu e meu par seríamos as luvas de um campeão, o sonho de todas nós, a glória maior. De ordinárias e iguais seríamos imortalizadas em vídeo. Nesse momento Maurício Shogun Rua aparece na sala.

Sério e cordial, ele sorri e passa confiança para todos assim como passam para ele. Não está tenso, mas nós três sabemos o que está em jogo. Quando o cutman começa a atar suas mãos o rosto muda. Percebi. Tantos ajudaram e tantos mais estão torcendo, mas o atleta é a ponta da lança, é ele que fura e é o primeiro a quebrar. Entraria para lutar sozinho se não estivéssemos com ele.

Nós somos colocadas, firmes, separadas pela primeira vez desde nossa confecção, cada uma em uma mão. Apertadas, adesivadas, justas e juntas com ele até o final. Eu fiquei na mão do direto, do maior impacto e logo senti a pressão de estar num campeão. Comecei a estourar nas manoplas, fiquei tonta, mas me acostumei rápido. Se tivesse dentes eles estariam cerrados e eu adoraria ser mão para poder socar com uma luva como eu. Eu agüento, quero ver se o adversário vai agüentar. Ele vai quebrar em mim.

No ocagon Jon Jones nos venceu e tomou o cinturão. Não consegui estourar um soco nele, mas te digo que se pegasse ele ia cair. Eu sabia o que tinha aqui dentro. A mão do lutador é nosso coração. Mas da mesma maneira que o destino quis que eu fosse a luva de um campeão, quis que terminasse dessa maneira. Somos só coisas. O acaso é mais finito conosco. Voltamos derrotados para o vestiário.

Havia sangue em mim, mas não era do adversário. Lágrimas me molhavam e Shogun não só se recusava a nos remover como apoiava a cabeça em nós. Pode descansar. Depois de minutos de silêncio sufocante finalmente nos retirou e jogou num canto. Trocou de roupa, voltou a ser pessoa normal e se foi sem olhar pra trás. Nos abandonou. Eu entendo. Não há muitos outros destinos para luvas como nós. Mas fiquei triste mesmo assim. A luz se apagou.

Horas depois alguém da limpeza aparece, pega meu par, joga no lixo e me coloca dentro de sua blusa. Nunca mais nos vimos. Fui entregue a um menino que ficou tão feliz em me ver. Sua mão pequena flutuou dentro de mim. Me levou para o banheiro, lavou, secou e pendurou numa parede ao lado da foto de Shogun. E aqui ficarei para sempre compartilhando sem palavras do mesmo sonho de meu dono. Só um autógrafo em tinta prateada ou branca, com caneta especial para couro. Ele querendo que o campeão o conheça e eu querendo que se lembre de mim. Eu nasci couro, vivi luva e morrerei memória.

ANÁLISE: UFC 131 - Cigano VS Carwin


Uma névoa estranha pairou no ar desse explosivo UFC 131. Não densa para obscurecer a qualidade altíssima dos combates, mas suficiente para dar a impressão de que os resultados que ocorreram com justiça acabariam por acontecer de qualquer maneira. Quase que um baralho de cartas marcadas na manga do crupiê que não precisou ser usado. Maia e Nunes realmente perderam suas lutas, mas cada um teve o primeiro round de superioridade clara pontuado como vitória para o adversário. Os brasileiros realmente perderam dois dos três rounds, mas com a impressão de que fora um nocaute ou finalização, nada que fizessem alteraria o resultado da luta. Ou estavam tendenciosos em credenciar um lutador famoso a disputar o cinturão com José Aldo e proteger maior ídolo Filipino do MMA ou assisti X-Files demais na infância. Nesse UFC a verdade esteve tanto dentro quanto fora do octagon.

Cigano VS Shane Carwin

Carwin já provou que tem o queixo duro, mas a mão de Cigano é mais. Shane Carwin poderia ter tido uma carreira brilhante tivesse surgido na época de Mark Coleman ou começado a se dedicar mais cedo ao esporte. Engenheiro, pai e atleta nas horas vagas, tem uma força e coragem raros. Poucos atletas com filhos para criar se permitiriam apanhar como apanhou no primeiro round sem pedir clemência e tentar preservar alguns neurônios para reconhecer a família no dia seguinte.

MMA é tão psicológico quanto técnico e físico. Mestres como Anderson, Pierre, Fedor e um punhado de outros compreendem a magnitude das valências que compõem um grande atleta. Um olhar perdido na pesagem ou um striker tão temido quando Shane tentar derrubar Cigano logo de cara, pode mudar a voltagem da luta de 110 para 220. Carwin disse que sonhou com esse combate, ia ser o melhor de todos os tempos, estava empolgado em explodir contra alguém que não fosse fugir de seus socos e testar seu queixo, mas a primeira coisa que fez foi tentar levar o brasileiro para baixo. Claramente trocar com o puro sangue Cigano não pareceu tão empolgante quando trancaram os dois dentro da jaula. A única coisa que realmente conseguiu colocar no chão com seu excelente wrestling foi sua auto-estima. Acabou espancado no primeiro round que não foi interrompido simplesmente porque galáxia inteira queria uma luta muito mais grandiloquente do que um atleta de quatro levando golpes sem reagir.

Para Carwin a luta acabou no primeiro round. Os outros dois passou tentando impedir que saísse desse UFC 131 direto para a mesa de cirurgia de novo. Todo atleta tem um limite de socos que agüenta tomar até que não agüente tomar mais nenhum. Um número que vai regredindo com o passar dos anos. Chuck, Wanderlei, Minotauro e Sakuraba demoraram uns 10 anos de porradas até o seu timer chegar a zero, mas a sova que recebeu nesse evento o aproximou perigosamente dessa marca. Se tinha queixo de titânio, agora tem de concreto. Tirando da cabeça o sonho insólito de ser campeão peso pesado, ainda pode protagonizar lutas muito interessantes contra Browne, Mitrione ou Kongo.

Cigano é um dos três melhores strikers do MMA pesado atualmente, mas o lacre que o faz tão perigoso é o gatilho que falta para se tornar lendário. Cigano tem uma calma, controle e aplicação tática de campeão e isso neutraliza seu faro de sangue, seu instinto matador. Aonde Wanderlei só parava de atacar até o adversário estar em pedaços, Cigano para estrategicamente. Foi inteligente de sua parte poupar os ossos da mão ao longo dos últimos rounds da luta, não dar chance para o adversário já derrotado marcar um rendevour com a sorte, não se lesionar ou se desgastar mais do que o necessário. Cigano poderia ter triturado Carwin antes do fim, mas trocou a glória pelo resultado certo.

Respeito e tento ver beleza nos diferentes modos de se comportar no momento da luta, como cada grande atleta encontra modos diferentes de ser perigoso e Cigano é um dos mais letais do planeta. As lutas contra Nelson e Carwin tanto nos mostraram seu poder de destruição quanto seu controle quase sórdido sobre ele. Tem a caixa mas só come um bombom.

Um dos talentos mais unânimes da atualidade, Cigano parece achar que pode administrar perfeitamente sua carreira fora dos octagons como faz dentro ao se disvincular de seus empresários de longa data Joinha e Ed Soares, conseqüentemente sair da Black House e cessar os treinos com Anderson, Minotauro e etc. Mudar toda a trupe que o ajudou a chegar aonde está nas vésperas do momento máximo, da luta pelo cinturão, pode ter sido um xeque mate ao contrário. Enquanto Cigano estiver se readaptanto ao treinamento, sparrings e etc, Velasquez estará alicerçado pela mesma equipe que o conhece desde o começo. MMA é mais do que estratégia, lógica e prudência. Coração é o estabilizador de voltagem aonde tudo se encaixa. Enquanto Cigano parte o de gente que deveria ter sido para ele mais do que apenas empresários e parceiros de treino, Velasques tem o seu como maior arma.

Cain VS Cigano já tem uma página em branco reservada no arquivo das lutas do século.

Diego Nunes VS Kenny Florian

Florian não é melhor lutador que Diego, é apenas mais inteligente. Na verdade é a inteligência de Kenny que vem o mantendo competitivo num esporte aonde quase todos são maiores, mais fortes ou mais perigosos do que ele. Uma máquina de auto upgrade, Florian prefere abastecer seu HD com dados dos adversários do que aprimoramentos técnicos. Arquiva mais estratégias e pontos fracos, do que novos golpes ou movimentos. Estuda mais o que fazer para vencer do que aumenta o arsenal.

Em sua primeira luta no peso pena, Florian que era David nos leves virou Golias. Enorme e longo para a categoria venceu o talentoso e perseverante Nunes por experience-lock. Enquanto o americano sabia exatamente o que fazer, o brasileiro parecia ir decidindo no meio do caminho. Improvisar com eficácia é qualidade dos gênios, e por mais que Nunes seja excelente, não tem terra nesse latifúndio. Florian foi suplantado pelo excesso de coragem e fé de Diego no primeiro round e virou a luta com pragmatismo quase matemático nos outros.

Diego perdeu com brios e sangue para um astro do MMA mundial, mostrou que ainda é TOP 5 no peso e manteve a tradição de grandes lutas do clã Pederneiras. Florian pode ver seu sonho de se tornar campeão virar pesadelo ao ser fatiado pelas vingativas canelas de katana de Aldo.

Kenny Florian VS José Aldo será Kill Bill total.

Demian Maia VS Mark Munoz

Sem a menor vergonha Maia vai trocando suas peles em constante metamorfose frente as câmeras para todo o planeta ver, de UFC em UFC. São estou certo de que me agrada o tipo de criatura que está se tornando, mas é bem divertido assistir. Quando um dos melhores lutadores de jiu-jitsu em MMA, talvez o melhor, resolve virar striker e passar horas e horas lapidando sua trocação, me parece o marido que resolve trair a mulher depois de 40 anos de casado. Mesmo assim o que Maia fez no primeiro round contra Munoz foi assombroso. Qualidade de movimento, precisão, volúpia que anda em falta em muita gente que diz adorar trocação. Deve ter voltado para o corner imaginando que se estivesse tão afiado assim contra Anderson o resultado da luta seria diferente. Seria sim, teria se exposto e acabaria nocauteado. A arte que aprendemos primeiro nos marca, deixa código de barras em cada molécula. Por mais que aprendamos outras com o tempo, são complementares. Planetas ao redor do sol. E por mais que Maia esteja evoluindo demais, jamais será um grande trocador. Pode no máximo ser o melhor trocador dos atletas oriundos do jiu-jitsu. Há alguma coisa diferente em quem treina em pé desde pequeno. O jeito de bater, apanhar, a adrenalina do constante rasante de luvas balançando a orelha, o prazer em atacar, chocar. Maia não tem isso e perdeu os outros dois rounds tentando manter a luta em pé e quando conseguia, não era eficaz. Não é essa a sua natureza. Só temo que acabe como o português que se mudou para a Alemanha, não aprendeu alemão, esqueceu português e acabou mudo. Demian perder uma pegada de costas com menos ajuste do que um faixa azul me faz crer que ele está jogando o jiu-jitsu para fora de casa e entulhando as gavetas com jabs e diretos.

Maia tem que terminar logo essa mudança, tomar uma decisão e seguir em frente, quase uma escolha de Sophia, o que nunca conseguirá é virar Anderson Silva.

O que vemos do Munoz em cada luta é tudo o que ele é. Não tem mistério, mensagem subliminar ou armas secretas. Ele aceita a trocação e se não der, derruba e larga a mão. Pronto. Nada mais, nada menos. Um lutador como tantos, relevante demais para seu país, irrelevante para os outros. Munoz não é bom o suficiente para enfilerar vitórias importantes ao ponto de disputar o cinturão nem ruim o bastante para sair perdendo e ser cortado. Sua importância no UFC será proporcional a sua relevância junto aos torcedores filipinos. Perdeu claramente o primeiro round e venceu por pouco os outros numa luta bem movimentada aonde os dois precisavam demais da vitória para não irem parar no card preliminar.

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ANÁLISE: UFC 130 - Jackson VS Hamill


UFC árido, um deserto de qualidades pelo qual nos arrastamos por horas a espera de um copo d’água, um oásis ao final, Edgar VS Maynard apareceram na linha do horizonte, mas apenas como miragem. Morrermos secos, com a cara na areia de um dos eventos mais chatos do ano. A luta principal de um card é mais do que a última, mais do que a mais importante, normalmente todo o planejamento, divulgações, casamento de combates e escolha de atletas orbita ao seu redor. A mudança de um main event tende a alterar todo o tom do evento e esse UFC 130 é um dos melhores exemplos de que da qualidade do matchmaking depende a falência ou sucesso de uma organização. Rampage e Hamill jamais poderiam estrelar um UFC atualmente, não os dois juntos pelo menos, mas se temos que isentar a organização de culpa já que os protagonistas originais se lesionaram é também verdade que não foi uma noite muito inspirada, nem por parte da maioria dos atletas nem por parte dos seus organizadores ao casar os combates. Um evento morno e econômico na emoção que me lembrou os tempos de quando a Zuffa acabara de adquirir os direitos de um UFC quase falido.

Quinton Jackson VS Matt Hamill

A máquina midiática do UFC tem um poder de manipulação de realidades impressionante. Desde convencer a maioria dos fãs que Rampage estava acabado e em fim de carreira após ter aberto mão da luta contra Rashad para divulgar o filme Esquadrão Classe A, até massificar que Matt Hamill é um grande atleta postulante ao cinturão. Realidade é que Quinton Jackson só perdeu duas lutas desde que estreou no UFC, uma bem controversa para Griffin e uma bem equivalente com o ex campeão e nêmeses Evans, e venceu Dan Handerson, atual campeão do Strikeforce, Lyoto Machida, Chuck Liddell, ainda no auge, entre outros. Quando parecia que abandonaria a carreira de lutador para seguir a de ator, Dana White fez o que adora fazer, convencer a todos de que quem não luta do no UFC não presta. Hamill, que tem uma história de vida e superação incríveis e é de grande importância para o MMA como esporte de cunho social, não passa de um mediano. Um nocaute para Franklyn que estreava no meio pesado, um espancamento nas mãos de Jones, uma vitória apertada sobre o decadente Jardine e uma luta sem nenhuma inspiração contra seu ex mentor e fora de forma Tito Ortiz, o colocaram como candidato ao título.

Não importa o que a mídia influenciada pelo UFC escreve, o que a revista do UFC publica. Quem é bom mostra dentro do octagon. E nesse UFC 130 vimos um main event sem a menor inspiração entre Quinton que ainda é um dos TOPs do mundo, apesar de longe de seu auge, e Hamill que nem com muita panfletagem pode figurar no top 20.

Acho de péssimo tom quando lutadores perdem a luta e dizem que estavam contundidos, com alguma giárdia ou etc. Se optou lutar, lute, perca e acabou. A desculpa não só obscurece parte do brilho do combate como tenta desmerecer a vitória do oponente, mas quando quem alega lesão é o vencedor, tendo a ser mais complacente. Quinton afirmou lutar com a mão quebrada. Se for verdade ele tem fibra de alumínio no lugar dos tendões e ainda dará muito trabalho para muito atleta novo, caso contrário, vimos que apesar de estar muito acima de seu adversário e da maioria dos postulantes, está a uma dimensão e meia de distância do campeão Jon Jones a quem será oferendado na próxima luta pelo cintirão meio pesado.

Uma luta chata, precavida, entre um Rampage comedido porém muito mais consciente do pouco que queria fazer, contra um adversário que não parecia estar ouvindo nenhuma instrução de seus treinadores, sem trocadilho. Andar de bicicleta e lutar MMA, quem sabe não esquece. Pode melhorar com o tempo ou piorar com a idade, mas o talento adquirido fica ali, nem que sejam pequenos resíduos. E quem não sabe não vai aprender apanhando de quem é melhor. Quinton simplesmente é melhor em tudo que Hamill. Em wrestling amador Matt é muito mais condecorado, mas MMA é outra criatura. Lembrem de como Jones, bem inferior em sua carreira de wrestler, derrubou com facilidade dois super medalhistas no esporte Hamill e Bader.

Hamill só tinha alguma chance real na forte divulgação do evento, é assim mesmo, faz parte, mas o fã experiente precisa diferenciar bala Halls de naftalina para não assistir a uma luta dessas e ficar decepcionado esperando um clássico dos tempos modernos.

Quinton vai engolir vergalhões de aço com parafusos contra Jones, mas a mesma máquina que tentou nos convencer de que ele estava acabado anos atrás agora fará o contrário. E Hamill vai fazer alguma luta irrelevante para o peso, fãs e mídia, já que o UFC não vai coloca-lo em um Countdown tão breve.

Frank Mir VS Roy Nelson

Olhando para Mir e Nelson temos dois exemplos de que podemos alcançar o fiasco por caminhos bem diferentes. Um está no auge de sua forma física faz uns anos, tornou-se atleta dedicado depois de superar a depressão pós acidente que quase amputou sua perna, o outro adora um Whooper do Burger King, acha engraçado vencer lutas em alto nível e ser um bom faixa preta de jiu-jitsu mesmo sendo obeso. Mesmo assim os dois se tornaram atletas lentos e previsíveis, sem gás ou real desejo de vitória. Um veio da loja de doces, o outro da academia e marcaram um encontro na casa da tartaruga.

Mir é enorme, um dos maiores lutadores do MMA atual, mas tem o coração do tamanho de um caroço de feijão. Biológicamente parece que o coração não consegue bombear sangue para tanto músculo, filosoficamente parece frouxo mesmo. Reparem que a tatuagem de dragão que começou a fazer tem anos, nunca terminou. Quando dói deve dar 3 tapinhas e pedir pra voltar no mês que vem. De uma forma ou outra ele adora oprimir seus adversários, bater e quebrar braços ou pernas com algumas das chaves mais violentas do esporte, mas não pode receber um jab de leve que começa a repensar a carreira e achar que todo o esforço foi em vão. Costuma acabar no chão, apagado e sangrando, pronto para fazer discurso de campeão e de retorno glorioso no dia seguinte. Só que Roy Nelson não acertou um peteleco em Mir, que ficou livre para fazer o que melhor faz, andar pra frente e lutar sem ser pressionado. Foram 3 rounds do ex campeão derrubando e tendo dificuldades de manter no chão o adversário. Apenas isso. Muito pouco até para estreantes em MMA no Amazon Fight, imagine para candidato ao cinturão do peso pesado no UFC. Essa vitória sobre Nelson somada a outra contra Cro Cop são duas no Sherdog, mas valem meio no meu caderninho moral. Mir está em decadência, apesar de seu bronzeado e discurso apontarem para o contrário.

Roy Nelson apanha com chantilly. Deve ser um lutadores mais prazerosos de se espancar. Não sangra muito, então não cria nenhuma sensação de culpa ou maldade, não cai, então pode apanhar mais, e no final está sempre rindo parecendo que gostou. Nelson não pode lutar em alto nível. Quem tem um mínimo de conhecimento de preparação física sabe que Nelson só não perde aquela barriga porque tem alimentação de obeso completamente desproporcional para uma pessoa saudável, imagine atleta, ou tem um tumor embotado que a Comissão Athlética não consegue diagnosticar. Se perder toda a barriga ele desce para peso médio e ainda será parrudo. MMA de alto nível não é agüentar ser espancado e não cair, é ter desempenho, é oferecer perigo, ser competitivo. Isso ele não é. Vercer Schaub e Struve foi o máximo que conseguiu e com uma luta contra Mitrione se desenhando, sua carreira no UFC está com a data de validade impressa. Vai ter mais tempo para assistir aos eventos de casa comendo pipoca e tomando coca-cola ao invés de estar competindo. E, francamente, acho que vai até preferir.

Tiago Alves VS Rick Story

Incrível o que paixão faz conosco. Como esse esporte embaralha nossa percepção de tanto que gostamos dele. Como explicar Story passar de quase desconhecido e azarão para ser considerado um dos melhores do mundo e super talentoso apenas por vencer Tiago Alves como outros tantos já venceram? Nem o alquimista realizaria tal transmutação com tamanha velocidade.

Tiago é vibrante, carismático, potente, mas não gosta de MMA. Seu sonho é ser contratado pelo K1 ou ter alguma cláusula nos eventos do UFC que forcem seus adversários a aceitarem a troçarão com ele. Um campeão como Pierre contamina o esporte e mostra que para ser campeão basta ganhar, não importa como, e muitos estão segundo isso. Quantos mais admiram Pierre, menos aceitarão lutas emocionantes e corajosas. Quem poderia aceitar uma troca clara com Tiago hoje em dia? Dan hardy e poucos outros. Mesmo assim, em MMA profissional, o fantástico é imposto na marra e Tiago não anda conseguindo fazer nada de relevante com seus adversários. Estagnou no muay thai que já é excelente e sublimou todo o resto. Qualquer lutador com um talento razoável em wrestling pode vencer o brasileiro sem grandes dificuldades. Em defesa de queda, Tiago ainda está no prézinho e dali não quer sair. Verdade que em certo momento, com as costas na grade, desferiu uma joelhada alta, em um contragolpe belo e letal demais, na distância do jab, quase colado, o joelho subiu e zuniu rente ao queixo de Story. Se pega a história do universo seria diferente e ele teria voltado ao topo da categoria, mas de “se em se” o Botafogo já foi até campeão do mundo. Fato que não pegou e Tiago está se mostrando um lutador não apenas unidimensional, mas obsoleto.

Rick Story é daqueles lutadores que aparece vez em quando e sempre lamentamos quando acontece. Um wrestler sem inspiração, com um boxe mediano, mas muito condicionamento físico e um queixo de adamantium. Não dá para derrubar na porrada, não dá para derrubar em quedas, mas ele também não faz muita coisa com essa vantagem técnica e suas lutas tendem a ser parelhas e os resultados questionáveis. Quase nunca realmente vence ou realmente perde. Quase sempre o justo seria empate. Uma luta entre Story e Pierre seria a primeira disputa de cinturão que eu pediria para me acordarem no quinto round.

Story venceu por pouco como sempre, mas venceu. Derrubou alguma vezes, caminhou pra frente e disfarçou bem não ter sentido alguns socos precisos de Tiago. Ganhou porque fez mais coisas, foi menos passivo. Nem um pouco brilhante ou especial, apenas mais ativo. E Tiago tem que parar de acabar lutas aonde realmente perdeu e levantar os braços ou fazer cara de surpreso. È constrangedor. Se ele realmente acha que venceu essa luta com o pouco que fez, deve achar que merecia pelo menos um empate com Georges St.Pierre.

Tiago merece ser casado com alguém com coragem de trocar em pé. Nem toda luta de MMA tem que ser entre atletas que vão disputar o cinturão. Acima da relevância do combate, tem a emoção. Alves pode ainda ser muito útil para o esporte se a organização do UFC o tratar com mais carinho, porque se depender dele próprio, não oferecerá muito mais.

Story é apenas um esforçado e suas próximas lutas provarão isso. Apenas esforço e preparo são cabos muito finos para sustentarem uma carreira sem talento. O americano voltará a ser lutador de meio de evento em um ano.

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ANÁLISE: UFC 129 - Pierre VS Shields


O UFC 129 teria sido um dos melhores eventos do ano, mágico e violento, não fosse pela participação de um homem, um atleta em específico, mas longe de atleta qualquer. A noite não foi espetacular porque um dos maiores campeões de todos os tempos mais uma vez roubou o show e escondeu em algum canto escuro, porque quando desliguei a TV havia uma sensação de insatisfação estranha que Lyoto, Couture, Hominick e Aldo não mereciam. Culpa de Georges St.Pierre. Um evento menos sobre vitorias ou derrotas e mais sobre renascimentos.

Georges St.Pierre VS Jake Shields

A maior arma de Jake Shields nunca foi seu fantástico jiu-jitsu ou disposição para espremer o corpo até do bagaço sair uma gota de vitória, era na verdade uma espécie de super poder capaz de atrair o adversário para um mundo em câmera lenta. Ganhando ou perdendo as lutas de Shields parecem devagar, socos que causariam dano em qualquer situação, nem deixam marca. Revejam Jake VS Miller ou Handerson, mas é uma arma quase sempre eficaz. Como fugir de um dos maiores finalizadores do planeta, um cara que antevê 2, 3 movimentos de solo que a maioria nem compreende e ainda em slow motion? Nesse UFC 129 Pierre fez a segunda coisa que faz melhor, fazer seus oponentes parecerem amadores desativando sua maior característica, fechando a válvula principal. Pierre forçou Shield a lutar em velocidade normal e o que era para ser um épico do MMA se transformou em mais um show de repetição e acerto do campeão.

Normalmente uma luva é recheada de ossos carpiais, metacarpiais, falange proximal e etc. Substâncias que dão peso a estrutura da mão e com boa aceleração, impacto ao soco. A luva de Shields é diferente. É recheada de algodão doce e zero aceleração. Fato que em pé não teria muitas chances contra um atleta explosivo e disciplinado pela cruel precisão de Freddie Roach. Mesmo assim Shields, que teria sua única chance real no solo, seguiu a risca a estranha e inapropriada estratégia traçada por seu treinador, Cesar Gracie, de manter a luta em pé. O próprio atleta aparentemente desmotivado com as diretrizes de seu comandante, mas como bom soldado se mantendo fiel, insistia em perguntar “posso tentar derrubar agora”. E ouvia um “ainda não” preciso e taciturno que cada vez mais o empurrava para o único lugar aonde não queria estar. Lembro dos meus tempos de menino freqüentando a praia do Pepê, de pé, de sunga vermelha, olhando impávido para o horizonte ensolarado, quando um senhor de aparentes 80 anos me perguntou se podia entrar no mar que se encontrava ferozmente revolto. Eu, não percebendo que me confundia com um guarda vidas, disse com a precisão de Cesar Gracie um frio “claro”. O senhor sumiu por entre as águas para jamais voltar no que foi, provavelmente, seu último encontro com Iemanjá. Shields ainda terá quantas lutas de MMA quiser porque é um dos melhores do mundo e merece, mas de ter confiado plenamente em quem o empurrou para a derrota certa, provavelmente nunca esquecerá.

St.Pierre é um dos melhores lutadores de todos os tempos, mas fato que bem mais cansativo do que toda a imprensa parecer sem coragem de dizer o contrário, é assistir suas lutas atualmente. Do primeiro ao quinto round, como cronista, acorrentado pelas correntes da ética a poltrona. Que inveja de quem pode ir até a cozinha, fazer uma pipoca e voltar na metade. O hábito tende a matar o prazer e Pierre entra para lutar enfastiado de tantas vitórias e elogios e fotos e autógrafos. Um olhar sem brilho e sem a determinação de antes. Sem fome, sem desejo ou paixão. Pierre reduz genialmente todas as milhões de possibilidades de um combate a um movimento, um ataque. Venceu Koscheck com jabs, apenas jabs. Porque fazer qualquer outra coisa se jabs eram suficientes? Venceu Hardy e Alves apenas com quedas. Para que tentar nocautear, realmente finalizar, mostrar que sua faixa não voltaria meio cinza da lavanderia? Para dar show, para ser mais do que melhor, se tornar um dos maiores, por respeito ao fã, por amor ao esporte que ele pratica, pelo legado que os grandes atletas deixam para as novas gerações e tantos outros motivos justos que cada um de nós teria. Nenhum deles tem grande valor para Pierre que entra, vence e vai embora. E esse combate do UFC 129 que tinha todos os ingredientes para ser emocionante ou apenas mais uma vitória tranqüila penetrada por uma das mil brechas na guarda de boxe de Shields, acabou sendo um bocadinho diferente.

A coisa que Pierre faz melhor hoje em dia é projetar com a ajuda de alguns dos maiores treinadores do planeta, um design para transformar qualquer combate num tédio completo. Tira o videogame da tomada na última fase. Essa luta não fugiu disso, mas como um marido que esqueceu que sua esposa é linda e a deixa ir de shortinho para a academia, Pierre vem se tornando desprevenido. Despreparado para o azar. Culpa de seu talento e culpa de seus adversários, não encontraremos inocentes. Em sua memória longínqua do que era ser um atleta de MMA está em algum compartimento a realidade de que seu domínio sobre os adversários e status de campeão vinha por sua ferocidade e coragem, e não por lutar de modo precavido e quase medroso. Podemos criticar, mas nada teria mais impacto do que o soco de Shields que arranhou sua córnea. Um soquinho de nada, mixuruca, que o desestabilizou e colocou em quase pânico. Castelo de cartas pode cair com uma janela aberta na hora errada. Naquele momento, quando temeu por ficar cego e derevria por coragem e precaução levar a luta para o solo, não conseguiu. Se manteve pregado, congelado na carbonita do plano, sem capacidade de improvisação, sem colhoes para mudar o eixo da luta. Fazer o que ele sempre fez tão bem. Naquela hora, naqueles longos 3 rounds que faltavam, ele sentiu que seu calabouço estratégico de onde seus adversários não conseguem sair, na verdade, tem ele, Pierre, como o grande prisioneiro. Lançado a uma solitária, sem magia e inspiração. Aguardando a morte lenta esportiva, dolorida de ter um cinturão de ouro que não brilha, lembrança do que já fez e não consegue mais.

Pierre virá mudado para a luta contra Nick Diaz. E ele apanhará como nunca apanhou ou vai ter que vencer em pé um adversário melhor que ele em boxe ou realmente faixa preta no chão. Vitorioso ou derrotado sairá ensangüentado, mas independente do resultado, renascerá.

José Aldo VS Mark Hominick

Nenhum atleta concentra mais força e agressividade por centímetro de músculo que José Aldo, mas ele estava diferente nesse UFC 129. Pode ser a readaptação já que vinha de lesão, o nervosismo de estrear como superstar no maior evento do planeta ou um resfriado mesmo. Não é mistério de Agatha Christie. É apenas uma pena. Aldo é mais forte, veloz, resistente e tático do que vimos. Mesmo assim foi suficiente para espancar o excelente quase desconhecido da maioria, Mark Hominick. O fim arrastado da luta, a dificuldade de Aldo no último round e a decisão por pontos dá uma falsa impressão de equivalência no combate, mas foi a capacidade inumana de absorver dano, agüentar dor, perseverar e um coração do tamanho do Canadá que fizeram o adversário se agüentar em pé até o final. Fosse Faber, Gamburyan ou quase qualquer outro, teria saido do octagon na maca.

Estrear contra um desconhecido grande lutador é uma missão inglória. Vai ser difícil vencer e a vitória vai chamar muito mais a atenção dos ranhetas do que dos fãs. Uma vitória sólida sobre um dos melhores lutadores da categoria, mas que será lembrada muito mais pelo valor do derrotado do que pelo esforço do campeão.

Homnick é um dos melhores trocadores do MMA e parece não sentir dor. Quando toma um knockdown nunca está desacordado, não há mudança em sua expressão, não range nem os dentes. Não há desistência. È um dos maiores adeptos da filosofia de BJ penn de que: “homens de verdade não desistem de uma luta por socos”. Para cessar o ímpeto infernal de Hominick de continuar e continuar, quase que abastecido pelo sangue que vai perdendo, só quebrando algum membro ou desligando suas sinapses nervosas. Um excelente atleta que vem dando shows em MMA faz anos e teve em seu maior palco sua derrota mais doída. Hominick entrou como desconhecido, sucumbiu frente ao brilho de um campeão genuíno e renasceu para os fãs como um dos maiores lutadores da atualidade.

Lyoto Machida VS Randy Couture

Randy Couture afirmou antes da luta que iria se aposentar de sua maneira, quando achasse que era o momento certo, diferente de Chuck que foi aposentado pela realidade de que ou abandonava a idéia de enfrentar lutadores tops ou sua vida poderia abandoná-lo dentro do octagon. Posso estar fazendo uso de picardia indelicada com uma lenda, mas tenho minhas dúvidas de que tinha planejado se aposentar com um dente a menos em uma de suas performances mais melancólicas.

Couture é uma lenda. Sua importância para o MMA só será realmente sentida daqui a alguns anos. Um ídolo genuíno, um competidor de verdade e um dos campeões mais emblemáticos. Um dos primeiros, junto com Fedor, Vanderlei, Sakuraba e poucos outros a ser querido por fãs do mundo todo. Uma lenda é indestrutível, uma vez criada, fica marcada na história da humanidade, tipo cicatriz, tatuagem, em livros, memórias. Não sai mais. Eterno como lenda, acabado como atleta de ponta. Um excelente wrestler que resolveu virar boxer, um pioneiro em estratégia de luta que se tornou um brigador, um atleta consciente de seus limites que se tornou prepotente. Couture involuiu. Atrofiou. Pediu para lutar contra Lyoto, seria seu canto do cisne, escolheu a dedo pegar um dos lutadores mais enigmáticos de todos os tempos alegando saber como enfrentá-lo. O que vimos foi apenas um lutador antigo, sem precisão, tentando imitar muito mal a estratégia usada por Quinton Jackson. Acabou nocauteado e banguela, um dos piores destinos, mas ao longo dos poucos minutos de luta ele não parecia ter como reescrever um fim de história muito diferente.

È uma pena ver o fim da carreira dos maiores, parece que pedaços do que nos construiu como fã de MMA vai ficando pra trás, mas se era para ele acabar caindo, se sua última luta seria uma derrota, não poderia o destino ter sido mais generoso conosco do que esculpi-la com a faca do pé de Lyoto Machida.

Sobre os maiores a marreta da expectativa desce mais pesada e Lyoto vinha tendo que absorver duros golpes da mídia, fãs e organização do UFC. Sua performance atrapalhada contra Shogun e a falta de objetividade contra Rampage o colocaram numa situação complicada. Estaria ele fazendo o que sempre fez, só que decodificado, ou estaria lutando mal mesmo? Teria ele um estilo tão preciso que não permite excessos? A questão é que Couture foi oferecido a Lyoto como boi de piranha. Se ele não vencesse um lutador estático e quase aposentado, seria cortado do UFC. Luta entre o jovem e fantástico e o antigo e previsível. Quando a vitória parece clara, a questão é como ela vai acontecer. Lyoto mostrou para Anderson Silva o que deveria ter feito contra Maia se achava-se tão superior.

Quando Lyoto está calmo vê os adversários quadro a quadro. Cada pequena brecha vira rombo e despejou talento num nível que não vemos sempre nem nesse esporte que é tão apaixonante. Quem acha que o chute que colocou um ponto final na carreira de Couture é simples, talvez tenha assistido karate kid demais quando criança. Um chute desses passar raspando, acertar com o dedão, contundir mas não derrubar e todas as variações mais prováveis são o que vemos em tantas tentativas dentro dos octagons. Youtube é testemunha, mas contra um lutador tão experiente, que já tinha começado a esquiva para o lado, estava com a cabeça alta e a uma distância aparentemente segura, só sendo gênio. Em MMA presenciamos performance dos maiores atletas do planeta em vários aspectos e Lyoto mostrou a diferença entre faixa preta e mestre. Em um dos mais bonitos e violentos golpes do esporte Machida renasceu nesse UFC 129.

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